ESTRESSE SOB PRESSÃO

Passei mais de três décadas como preparador para situações de emergência e quase o mesmo tempo como terapeuta, trabalhando mais recentemente com socorristas. A maioria de nós acredita que não seremos afetados mentalmente por emergências, estresse e situações de sobrevivência, mas o estresse tem o poder de nos surpreender. Não se trata de ser “forte o suficiente” para não se deixar afetar por ele. Já trabalhei com infantaria experiente em combate, socorristas veteranos, paraquedistas e muitos outros em meu consultório. Se fosse simplesmente uma questão de “ser forte”, eu não seria necessário.

Vi em primeira mão como as emergências não testam apenas nossos equipamentos — elas testam nossos corpos e mentes. Seja você um bombeiro correndo para um prédio em chamas, um paramédico chegando a um acidente de carro fatal ou um morador de uma área rural enfrentando um desastre natural, o estresse — e a resposta do seu corpo a ele — faz parte da equação. Preparar-se não se resume a estocar suprimentos. Trata-se de nos prepararmos mental e emocionalmente para as tempestades que sabemos que virão. E trata-se de saber como se recuperar quando você for afetado por eventos estressantes ou emergências.

Adrenalina, cortisol e o cérebro reptiliano

Quando uma emergência acontece, seu corpo aciona um interruptor. A adrenalina dispara, o cortisol inunda seu sistema e seu “cérebro de sobrevivência” assume o controle. Na minha área, às vezes chamamos a parte inferior do cérebro de “Cérebro Reptiliano” porque é muito instintiva. É responsável por controlar funções corporais involuntárias e tem um formato que lembra a silhueta da cabeça de um réptil. Uma vez que o interruptor é ativado aqui, seu tálamo envia sinais de emergência para sua amígdala, resultando na resposta de luta, fuga, congelamento ou submissão.

Quando esse interruptor é ativado, sua frequência cardíaca e respiração aceleram, você perde um pouco da destreza em suas habilidades motoras finas (coisas como discar um número de telefone podem se tornar difíceis), suas habilidades motoras grossas ficam extremamente fortes, sua visão fica mais estreita, sua velocidade de processamento reativo é sobrecarregada e seu treinamento, se você o tiver feito, geralmente assume o controle. Em alguns casos, esse processo inato pode ser útil, mas a contrapartida é a perda de certa capacidade de raciocínio e pensamento crítico. O “cérebro reptiliano” também não é muito bom em processar emoções e memórias após o término do evento, o que pode levar a problemas de longo prazo se não for gerenciado adequadamente.

Já vi bombeiros descerem do caminhão em um local de acidente fatal com seus corpos já em estado de alerta máximo. Embora estejam prontos para agir, sua fisiologia está trabalhando contra sua capacidade de processar o impacto emocional do evento. Embora internamente possam ver isso como uma fraqueza, a verdade é que se trata apenas de um processo biológico sobre o qual não se têm controle.

Tomada de decisões em meio ao estresse

O estresse não afeta apenas o corpo. Ele turva a mente. A memória falha, o julgamento se desvia e as emoções ficam à flor da pele. Trabalhei com policiais que tiveram que tomar decisões em frações de segundo em situações de reféns onde a vida ou a morte era uma possibilidade. Mesmo depois que o perigo passou, mesmo quando atirar em um suspeito perigoso que estava colocando um refém inocente em risco era uma ação justificável, eles lutavam para reviver o momento, duvidando de si mesmos e carregando o peso emocional.

Para quem se prepara para situações de emergência, isso é crucial. Em uma crise, você pode precisar decidir se deve evacuar ou se abrigar no local, ou se deve racionar suprimentos ou compartilhá-los com os vizinhos. Se sua mente estiver confusa pelo estresse, essas decisões se tornam mais difíceis. É por isso que a prática é fundamental. Simulações, cenários e até mesmo conversas simples sobre “e se” aguçam sua clareza mental antes que a situação real aconteça. Se você internalizar sua resposta a certas emergências antes que elas ocorram e praticá-la repetidamente, aumentará as chances de que seu treinamento entre em ação quando a resposta de luta, fuga, congelamento ou submissão for ativada.

Treinando a mente

Preparamos nossos equipamentos, abastecemos nossas despensas e afiamos nossas facas. Mas com que frequência preparamos nossas mentes? Para treinar nossas mentes, podemos praticar a inoculação de estresse, mental e fisicamente. Alguns preparadores chegam a desligar a energia de casa por alguns dias uma vez por ano para praticar suas reações a uma queda de energia. Para autodefesa, praticar em um estande de tiro pode não ser suficiente. Pratique como agir quando o coração estiver acelerado. Faça polichinelos e sprints, depois pratique como sacar e solucionar problemas com armas de fogo quando seu coração estiver acelerado.

Aprender a respirar de forma eficaz durante uma emergência pode ajudar a reativar o sistema nervoso parassimpático (o sistema de recuperação do corpo) e a parte superior do cérebro, responsável pelo pensamento crítico e pela recuperação. Pratique dramatizações e simule cenários visualmente com a família. Exemplos: “Se houvesse um incêndio e você não conseguisse sair do seu quarto pela porta, o que você faria?” Ou “Se nos separássemos durante uma tempestade, qual seria um ponto de encontro próximo onde poderíamos nos reencontrar?” E não subestime a importância de itens que elevem o moral. Uma xícara de café quente, um lanche favorito, uma foto de entes queridos ou até mesmo música podem estabilizar o ambiente em meio ao caos. Preparar-se para uma emergência não se resume apenas a munição e comida; também envolve moral e saúde mental.

Quando a poeira assentar

Situações de emergência não terminam quando as sirenes param. O corpo e a mente carregam o estresse por muito tempo depois do ocorrido. Pesadelos, irritabilidade, fadiga e até dores físicas são comuns. Aprender a se recuperar também faz parte do preparo e da sobrevivência. Quando eu treinava artes marciais, meu sensei nos dizia que a recuperação após o treino significava que deveríamos nos lembrar de beber mais água, dormir bem e nos alimentar de forma saudável. Em uma emergência real, como terapeuta especializada em traumas, eu encorajaria você a falar sobre o que aconteceu assim que for seguro fazê-lo. Isso ajuda a minimizar o quanto o evento pode ficar emocionalmente “preso” para os sobreviventes.

Eu digo aos meus pacientes que atuam como socorristas: “Quando você conversa sobre um evento comigo, com seu cônjuge ou com um colega, você está liberando isso do seu corpo. É um peso a menos para carregar na hora de dormir.” Para quem se prepara para emergências e para a sobrevivência, a recuperação é frequentemente negligenciada. Acho que tendemos a pensar “isso não vai me afetar”. Planejamos para o evento, mas esquecemos as consequências. Incluir a recuperação no seu plano de preparação garante que você possa se recuperar mais forte.

Resiliência: A ferramenta definitiva para a sobrevivência

Emergências virão. Tempestades ocorrerão. Acidentes acontecerão. Mas a resiliência é a ferramenta de sobrevivência que nunca se esgota. Preparativos físicos, como equipamentos e estoque de alimentos, são importantes. Preparativos baseados em conhecimento — como habilidades, treinamento e mentalidade — também são importantes, mas a resiliência mental, a capacidade de se curvar sem quebrar, pode ser a preparação definitiva.

Como preparador e terapeuta de trauma, minha mensagem é simples: prepare seu corpo, prepare seus equipamentos, mas acima de tudo, prepare sua mente. Quando a poeira baixar, a resiliência é o que nos mantém de pé. Vi socorristas se recuperarem mental e fisicamente de algumas das piores tragédias imagináveis. Parte dessa sobrevivência significou reservar um tempo para praticar o autocuidado, aprender habilidades de enfrentamento, não reprimir as emoções, pedir ajuda quando necessário e reconhecer que, embora as emergências possam nos afetar, elas não precisam nos derrubar permanentemente. Como preparadores, podemos aprender com isso. Abasteça sua despensa, sim. Mas também abasteça sua mente com habilidades de enfrentamento, estratégias de recuperação e reforço moral.

Texto traduzido e adaptado do site: Offgrid web.

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