O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

Este texto contará como foi o meu percurso pelo famoso caminho de Santiago de Compostela, mas antes de saberem sobre a viagem propriamente dita, vocês devem saber quem sou, e porque escolhi esse percurso, então vamos lá.

Mineiro, mas resido atualmente em Florianópolis, com 28 anos sou formado em administração de empresas, além de empresário, mantenho uma fazenda no meu estado de origem. Sou um aventureiro nato, sempre buscando novidades em minha vida, e se me mantenho na rotina fico facilmente entediado, por isso as viagens são as melhores terapias para mim, mas sempre mantenho uma forma muito mais desbravadora nelas, nunca seguindo o roteiro clássico dos outros turistas, basicamente esse sou eu, prazer Danillo Laureano.

Já desmitifico logo o que você provavelmente está pensando, não, eu não fiz o caminho por um motivo religioso, não sou alguém profundamente envolvido nesses aspectos, mas tenho as minhas crenças. Alguns anos antes tomei conhecimento sobre o caminho, logo o meu eu desbravador começou a pesquisar sobre, principalmente pois se encaixava bastante naquilo que gosto. Eu fiz um projeto muito bem detalhado, contava com os custos, os lugares que deveria passar e os que deveria ficar, mas surpreenda-se depois de toda essa pesquisa o plano acabou indo pra gaveta. A viagem foi substituída por um tour na Alemanha. O tempo passou e enfim chegamos em 2018, o ano que fiz essa travessia. Em março ocorreu alguns problemas pessoais, dentre eles estresse de trabalho e mais algumas coisas, foi aí que Compostela veio à tona, com uma organização já bem avançada, o que me restava basicamente era as datas, e optei por agosto por causa do clima.

Pois é, o trajeto não foi por fé ou algo do tipo, foi uma maneira para aliviar o estresse, dar um tempo de tudo, e permanecer sozinho, uma terapia pra mim.  

Roteiro

Trajeto completo com a indicação dos locais onde dormi.

As opções de início são muitas, e vai da escolha de cada um, depois de pesquisar sobre as possibilidades, dentre todas escolhi o caminho francês, pelo fato de ser muito bem estruturado e ter a segunda maior extensão, eu realmente estava buscando me superar, e uma caminhada dessa magnitude eu nunca tinha feito, seria uma ótima experiência.

A compostelana é o documento dado a quem faz os últimos 100km até Santiago, mas como o objetivo era realmente algo longo, eu escolhi a cidade de Saint Jean Pied de Port, na França, eu iria cruzar a fronteira e passar pelos temidos Pirineus, que são a cadeia de montanhas que divide os dois países, coisa que poucos fazem, pois aqueles que optam pelo caminho completo, geralmente partem de Roncesvales a primeira cidade na Espanha.

Saint Jean Pied de Port

Rio La Nive de Béhérobie, que corta SJPP.

Chegar até lá foi bastante complicado, pois é uma pequena e distante cidade, e ainda por cima localizada dentro de uma cadeia de montanhas. Optei por um voo para Madrid, no aeroporto peguei um ônibus até o terminal de trem e fui até Pamplona, só então um ônibus para a cidade que marcava o início do meu trajeto. O estresse foi grande, pois os horários eram apertados e existia a ansiedade para o começo da caminhada que se aproximava, poucas horas de sono durante o voo, e por fim problemas com a bagagem que foi despachada. Saí de Florianópolis as 9:00am e cheguei em Saint Jean Pied de Port às 7:00pm do dia seguinte, no horário francês (3:00pm horário de Brasília). Foi bastante cansativo toda a viagem, mas enfim cheguei ao meu ponto de partida.  

Pirineus, cruzando a montanha

Pirineus, a cadeia de montanhas que separa França e Espanha.

Sendo a etapa mais curta do percurso, durando apenas 3 dias de caminhada. Iniciei o caminho em SJPP na França, pelo bioma dos Pirineus, que iria se estender até Pamplona. A cidade que marcava meu começo é bem distinta em relação as outras que passei, sendo cortada por um rio, composta por vários becos e vielas, bastante charmosa, essa é Saint Jean Pied de Port, o meu marco inicial.

O primeiro dia é o percurso até Rocesvales, o que achei que foi a parte mais difícil desse trajeto, são 26,5 km com um desnível de 1400m acumulado, onde a maior inclinação está nos primeiros 8km, o que cansa o corpo logo no início da caminhada. Com mais ou menos quatro horas de caminhada a sensação eu quase não consigo pôr em palavras, era algo muito agradável: “Nossa, eu realmente estou aqui, finalmente eu comecei”, era isso que eu pensava. O lugar é lindo, muito verde, com grandes áreas de pasto onde se encontra muitas ovelhas no caminho, o que nos dá uma vista bastante aberta, e claro, uma linda paisagem.

Pasto para as ovelhas.

Quando estava chegando ao topo, reencontrei duas pessoas que dormiram no mesmo albergue que eu, um americano e uma alemã, Matthew e Caroline, eu tinha sido um dos últimos a sair pela manhã, mas os encontrei de novo, sentei perto deles, mas sem se falar, e quando eles iam sair me convidaram, eu aceitei, seguimos juntos por um bom tempo.

Após alcançar o topo dos Pirineus, desci até Roncesvales, que são uns 400m abaixo do cume, e é nesse percurso que os pastos acabam e se torna uma vegetação bem mais densa, muitas vezes com somente a trilha coberta por um túnel árvores, e foi esse a parte mais bela do meu primeiro dia, principalmente por causa do clima que me ajudou muito, estava uns 16°C e um sol que só deixava mais bonito as paisagens, fazendo assim que me esquecesse do cansaço e só apreciasse aquela linda vista.

Descida dos Pirineus.

Depois de passar por Roncesvales, eu conheci alguém curioso, um espanhol, ele de repente veio falar comigo, me perguntou de onde eu era, e prontamente respondi, e para minha surpresa ele era apaixonado pelo Brasil, até o wallpaper do celular dele era a bandeira brasileira, ele me contou que tem um amigo de SC que todo ano se hospeda na casa dele, e me convidou, mas eu já tinha combinado com a Caroline de dormir em Larrasoaña, então eu me despedi e tomei meu rumo, foi um caminho muito parecido com o que já foi citado, com muitas árvores, que vai se tornando uma paisagem mais aberta de acordo om que me aproximo de Pamplona, que já ela é uma cidade bem grande em relação as passadas, com cerca de 195 mil habitantes.

Percurso entre Rocesvales e Larrasoaña.

Apesar de passar por algumas pontes e alguns trechos de asfalto e umas calçadas, o caminho em sua grande maioria é por estradas de terra e trilhas feitas exclusivas para a travessia de Santiago de Compostela e, onde não se passa veículo algum, o que torna o lugar extremamente silencioso e o máximo que se pode encontrar é algum pastor cuidando se seu rebanho de ovelhas.

O terceiro dia que é de Larrasoaña até Pamplona foi uma caminhada foi muito cansativa.  Mesmo com todo os treinos antes da viagem, nunca vai ser igual, e não era mesmo, o acumulo de fadiga dos dias anteriores estava aparecendo agora, foram 17 km muito sofridos, mas depois eu me acostumei a caminhar e não sentia mais nada, consequentemente fui aumentando as distancias a cada dia. A chegada até Pamplona é muito marcante, se avista logo uma grande muralha, que são as paredes da fortaleza, isso gera um sentimento sobre como tudo aquilo foi feito e muitos outros pensamentos passam pela mente nesse momento.

Chegada a Pamplona.

Meseta, o deserto espanhol

Meseta, o bioma mais longo e seco do caminho.

Pamplona foi a primeira grande cidade que passei, até ali toda a sinalização tinha sido muito simples, porém eficiente, não tive nenhum problema de localização. Diferente das outras cidades, que praticamente viviam do caminho, Pamplona é exceção, tanto que senti falta de sinalização, mas nada que me atrapalhasse. A saída da cidade foi as 7:00 da manhã, que é um pouco tarde, pois geralmente as pessoas saem as 6h, nisso encontrei um homem já voltando, ele estava perdido, era o primeiro dia de caminhada dele, era húngaro de Budapeste, se chamava Joe e eu o convidei para me acompanhar. Após sair de Pamplona se nota a mudança na paisagem, pouca vegetação, grandes plantações de milho, girassol e trigo, e nesse percurso passamos pelo Alto del Perdón, uma homenagem aos peregrinos do caminho, a seguir deparamos com uma bifurcação, e escolhemos o caminho mais longo, que seria por uma antiga igreja construída pelos cavaleiros templários. Um pouco antes da bifurcação percebi que o Joe não se hidratava, ele não tinha levado água, dividi a minha com ele, e ao chegar na igreja foi uma benção, havia uma fonte, foi a nossa salvação.

Alto del Perdón.
Igreja construída pelos cavaleiros templários.

Nos separamos na cidade seguinte, pois ele já havia alugado um lugar para dormir. No próximo dia era o caminho até Estella, foi tranquilo, sem nenhum atrativo, passado a noite, na saída da cidade há uma fonte de vinho grátis para os peregrinos devido à grande produção na região, o local se chama Bodegas, eu não bebo vinho, mas tirei uma foto, e segui rumo a Los Arcos, cheguei muito cedo e decidi continuar, o que se mostrou uma péssima decisão. Eu conseguia ver Torres del Río, achei que era perto, estava enganado, era uma reta gigante que não acabava nunca, eu continuava ver a cidade no fundo, mas ela parecia não ficar mais perto, lembrei inclusive da travessia da praia do Cassino.

Bodegas, a fonte de vinho liberada para os peregrinos.

Faltando uns 4 km para Torres del Río, eu encontro um grupo de cavaleiros templários, estavam distribuindo comida para os peregrinos e fazendo publicidade do albergue deles, conversei um pouco com eles, e fui para o albergue. No dia seguinte sigo sozinho para Logronõ e logo cheguei, o trajeto foi um misto de terra e asfalto. Fiquei em um albergue particular, e nele reencontrei Caroline e Joe, eles caminhavam juntos, e eu era um ponto em comum entre eles, durante a noite conheci uns australianos e uma mexicana, a Rimena, e combinei de irmos juntos, fomos rumo a Najera, e de lá para Santo Domingo de la Calzada, e durante esse percurso passamos por diversas plantações, tanto eu quanto a Rimena caminhávamos muito rápido, talvez por isso passamos tanto tempo juntos durante o caminho. No dia seguinte fomos para Belorado, mas acabei passando direto rumo a Atapuerca deixando a Rimena para trás, ela saiu depois e depois disso houveram muitos encontros e desencontros nossos. Depois de Atapuerca segui sozinho para encontrar a Caroline em um vilarejo um pouco a frente, e foi um trajeto horrível, muito pedregulho, e a subida piorava tudo.

Percurso depois de Atapuerca.

No dia seguinte eles saíram antes de mim, caminhei até Burgos, já a Caroline e o Joe passaram direto, eles tinham um cronograma mais apertado, a Rimena me acompanhou em Burgos, mas dormimos em lugares diferentes. Saindo da cidade rumo a Hontanas, encontrei um brasileiro, o Erik, e resolvemos caminhar juntos, ele ficou em Frómista e eu segui até Polación de Campos, onde fiquei no melhor albergue do caminho, o dia seguinte foi bem difícil pois depois de Carrión de los condes, eu iria enfrentar 17 km de estrada sem nada dos lados, só a estrada e eu, ainda pensei em pegar um taxi, mas era muito caro, continuei a pé. Estoquei água e segui a 34°C de temperatura durante 17 km de reta, foi realmente difícil, estava com a mente meio abatida e isso ia se acumulando junto com o cansaço, me sentia mal, até que achei um refúgio, parei, tirei as botas, algo que ainda não tinha feito, descansei por 30 minutos e continuei. Todo esse perrengue só ocorreu por causa do meu cronograma adiantado em relação aos outros, com muito racionamento a água foi suficiente. Ainda bem que o albergue era de brasileiros, lá eu comi um churrasco, foi muito reconfortante.

No outro dia encontrei o Erik, mudei a minha rota original e fomos para Bercianos del Real Caminho, uma cidade a frente da minha rota, um lugar muito simples, ficamos em um albergue de donativos, e todo mundo preparou o jantar à noite, foi muito bacana a experiência. O próximo dia foi rumo a Mansilla de las Mulas, caminhei com mais dois brasileiros, o Erik e o Geraldo, e no albergue o atrativo da noite foi a massagem feita pelos os universitários que estagiavam lá, foi bastante revigorante. A próxima parada seria a capital gastronômica da Espanha, León, lá tinha muitos bares e restaurantes, e ficamos em um albergue de freiras. Seguindo viagem no próximo dia, o destino era San Martín Del Camino, um trecho relativamente fácil, a estrada seguia paralelamente a rodovia em contrapartida do outro lado tínhamos um belo milharal.

Milharal ao lado da rodovia.

Em San Martín Del Camino dormi no albergue municipal, e lá, mesmo sem combinarmos nada encontrei novamente o Erik e o Geraldo, e enquanto estávamos lá a Rimena passou rumo ao local onde já tinha reservado, então combinamos de caminharmos juntos logo na manhã seguinte rumo a Astorga. Foi uma caminhada mais rápida, quando estava com a Rimena, nosso ritmo sempre ficava mais veloz, fizemos 24km em pouco mais de quatro horas. Nesse trajeto as paisagens eram bem atrativas pois se destacavam no terreno árido da Meseta.

Ponte rumo a Astorga.

O dia seguinte também foi em companhia da Rimena, o destino era Foncebadón. Esse dia foi incrivelmente apenas de subidas, não subidas íngremes, porém constantes. Foram 1400 metros de elevação em 25km percorridos em mais de 6h. Sendo necessário bem mais paradas e a diferença de tempo deixa claro o quanto a elevação dificultou o nosso avanço neste dia. Esse trajeto foi marcado pelo início da mudança de biomas, saindo da Meseta e adentrando a Galícia, tons de verde começavam a surgir na paisagem. Vale ressaltar que caminhar nessas pedras não era, como você deve imaginar, nada agradável. Era necessário muito esforço dos tornozelos para corrigir as pisadas erradas por causa do terreno irregular. Um calçado bom faz muita diferença nessas horas.

Início da mudança de biomas.

Galícia, de volta ao verde

Cruz de ferro.

Este foi um dos pontos mais marcantes dessa jornada, localizado entre Foncebadón e Ponferrada, após mais uns trinta minutos de subida eu alcancei um lugar no cume deste morro chamado Cruz de ferro. Sendo um marco do caminho, há uma tradição neste ponto, na base do enorme tronco que sustenta a pequena cruz, os peregrinos depositam pedras que carregaram durante todo o percurso. Isso é feito como símbolo de deixar algo para trás nesta grande jornada, o que é bem comum, muitos peregrinos vão ali se livrar de algum ressentimento, agradecer algo, dentre tantos outros motivos, e muitos deles acharam nesse método a forma factual de expressar esse sentimento marcando sua passagem por ali ao deixar uma pedra naquele lugar.

Foi na base dessa cruz de ferro que eu avistei um homem chorando, por algum motivo eu me solidarizei com aquela cena, me aproximei e pus a mão em seu ombro e em troca ele me abraçou, logo depois eu o vi depositando a pedra e voltando a se sentar. Não tivemos mais nenhuma interação depois disso.

Segui meu caminho e mais à frente cruzei novamente com o Geraldo, juntos demos continuidade na descida rumo a Ponferrada, nesse percurso passamos na casa de um homem que se diz o último cavaleiro templário vivo, era alguém bem curioso e excêntrico, ele vive somente de doações e mora numa casa tão excêntrica quanto seu dono, mais parecendo um museu de quinquilharia.

Casa do suposto cavaleiro templário.

Um dos grandes atrativos de Ponferrada é com certeza o castelo que existe até hoje. A cidade era uma espécie de base militar estratégica durante a época de invasão dos Mouros, sendo usada como base pelos cavaleiros templários que construíram esse castelo durante a época de retomada da Espanha.

Castelo em Ponferrada.

Chegando no albergue eu me deparei novamente com o homem que encontrei logo no início da manhã, na base da cruz de ferro. Foi aí que tive a oportunidade de ouvir sua história, que me impactou muito. Ele me contou que estava fazendo o caminho pelo seu filho.

Durante a gravidez de sua esposa os médicos disseram que o bebê, por causa de algum problema, não conseguiria sobreviver, devido a essas condições foi recomendado ao casal que interrompesse a gestação. Contrariando tal recomendação os dois decidiram continuar e quando enfim o tempo da gravidez se deu por completo, a criança nasceu. Entretanto a condição que o bebê tinha continuava o acompanhando e ele teve apenas seis meses de vida. O pai dessa criança, o homem que ali na minha frente que narrava essa história estava percorrendo todo esse caminho para agradecer o breve tempo que teve ao lado de seu amado filho.

Isso foi bastante marcante para mim, é algo que já é impactante por si mesmo, imagine depois que você tem centenas de quilômetros percorridos e se depara com um homem, que tinha todos os motivos para estar bravo com o mundo, está ali, exercendo um grandioso ato de gratidão para alguém que nem se encontra mais ao seu lado.

Neste albergue arranjei companheiros nada desejáveis, percevejos. Entretanto eu só ia descobrir isso em Villafranca, já cheio de alergia e só então percebendo as picadas. Os percevejos naquela área são uma verdadeira praga, tanto que ao chegar no albergue todo mundo é questionado onde dormiu e se está com alguma alergia, tudo isso para evitar que essa praga se espalhe de um lugar para o outro. Imediatamente me mandaram desinfetar todo o equipamento e roupas, além de ir na farmácia e comprar algum remédio, enquanto não fizesse isso não poderia entrar no albergue. Apesar da pomada não ter surtido tanto efeito assim na minha alergia a jornada tinha que continuar e a próxima parada era Vega de Vecarce, e tinha uma razão específica para isso, seria uma parada estratégica. No dia seguinte eu enfrentaria o trecho mais desgastante de todo o caminho, por isso é tão crucial escolher bem onde você vai dormir. Essa cidade está a 4km da base do Cebreiro que é a grande elevação do dia, essa pequena distância foi escolhida para que eu me aquecesse antes de dar início a subida. Somado a isso, em Vega de Vecarce existe um albergue brasileiro e eu já queria ficar nele. Porém, apesar do que me esperava a noite, a caminhada não foi das melhores, durante todo o percurso tinha que se andar ao lado da rodovia.

Caminho ao lado da rodovia.

Não posso deixar de ressaltar a receptividade dos brasileiros em qualquer lugar do mundo, ainda mais com um conterrâneo. O mais curioso é que aqui se comprova com ênfase o que muitas vezes é dito aqui no Sobrevivencialismo, o Brasil é o país da desobediência civil e quando o brasileiro vai embora ele leva isso na bagagem. Eles não podiam ter um albergue na Espanha, eles conseguiram um visto de empreendedor para Portugal e abriram o albergue no caminho português como se fosse de doação, que isso sim é permitido. Enfim, o jantar típico do Brasil foi excelente e as conversas foram igualmente satisfatórias, além que me deram uma pomada realmente boa que resolveu a minha alergia.

Carimbos do albergue brasileiro.

A manhã seguinte seria a vez de encarar o Cebreiro. Ele é o ponto mais temido de todo o caminho junto com os Pirineus, porém como as montanhas fazem parte do trajeto da minoria dos peregrinos, os 1.330m de elevação do Cebreiro assusta todos que estão rumo a Santiago. As altimetrias de ambos são bem parecidas, mas os Pirineus tonam-se muito mais fáceis pela soma de fatores que dificultam a ascensão do Cebreiro. O impacto da elevação e o tipo de terrenos são os piores agravantes, isso sem contar o acumulo de centenas de quilômetros já caminhados. Atingindo o topo me deparei coincidentemente com uma festa religiosa que acontecia ali anualmente, a pequena confraternização foi uma boa recompensa depois da árdua subida. Descendo alguns metros se chega a única cidade que há ali em encima, Fonfría. Por ser uma cidade bem pequena só haviam dois albergues que tinham que acomodar todo mundo, neles haviam quartos enormes, com capacidade para talvez umas 40 pessoas, o que destoava bastante dos outros albergues pelo caminho.

Subida do Cebreiro.

O destino do próximo dia era Sarria, que é outro marco importante na jornada. O trajeto foi fácil, uma descida suave e com um terreno agradável, bem diferente do dia anterior. Sarria é importante pois para conseguir a Compostelana, o documento que comprova que você fez o trajeto em peregrinação, é necessário comprovar os últimos 100km andando e Sarria é justamente esse marco, estando a 104km da catedral de Santiago. Isso acarreta em um aumento gigantesco no número de pessoas fazendo o trajeto.

O curioso é que as pessoas que iniciam em Sarria ganham um apelido por parte daqueles que estão no caminho a muito tempo, eles são chamados de “turisgrinos”, afinal, estão ali só pelo papel entregue no final, e não pela jornada e para quem já caminhou centenas de quilômetros, percorrer apenas cem, ainda divididos entre três ou até quatro dias não parece lá um grande desafio, não passam de turistas. Confesso que a dinâmica mudou bastante a partir daqui pelo excesso de pessoas, albergues lotados e etc.

Acredite, depois desse ponto eu presenciei pessoas indo de carro, somente parando para pegar os carimbos e depois seguindo de carro, sendo que nem adiantariam a viagem, pois demorariam o mesmo tempo por que teriam que parar e dormir assim como todos.

Entretanto, antes de chegar a Sarria era preciso completar a descida do Cebreiro, que foi igualmente isolada quanto a ascensão. Para tomar café da manhã tive que caminhar por um trecho considerável, até que encontrei um lugar onde estavam doando refeições, coisa que inclusive é bastante comum pelo caminho, e ao terminar você pode doar algum dinheiro como forma de agradecimento e para que possam continuar com essa ação.

Esse lugar foi bastante agradável de se ficar e parecido com o lugar passado, aqui existia o hábito de não deixar pedras, mas sim, escrever nelas e o que eu li em uma delas combinou perfeitamente com toda essa jornada e curiosamente fazia um contraponto muito interessante com quantidade de “turisgrinos” que encontraria a frente.

“As melhores coisas na vida não são coisas.”

Após deixar Sarria, o destino seria Gonzar, uma parada bem mais a frente a maioria, que geralmente vão somente até Portomarín pois dividem os últimos 100km em quatro dias. Nesse trajeto eu reencontro o Geraldo e ele me conta que tinha perdido o seu passaporte do caminho. O pior nessa situação é que como já tínhamos passado de Sarria ele teria que voltar para poder pegar um novo passaporte, mas ainda assim perderia o registro de todos os outros quilômetros que ficaram para trás. Ele estava bastante deprimido com essa situação. Fui junto dele registrar a perda e deixar o telefone caso alguém viesse a encontrar e seguimos nossa viagem com essa esperança.

Gonzar era uma cidade pequena e por causa da grande quantidade de gente muitos lugares já estavam lotados, felizmente consegui vaga em um albergue para poder descansar depois dos 30km de caminhada. Geraldo se juntou com o Erik e seguiram para onde iam dormir e no caminho recebeu a excelente surpresa que alguém havia encontrado o seu passaporte, no albergue ele pediu para usar o telefone e conseguiu falar com a mulher que tinha achado o seu documento, só que infelizmente ela não faria toda essa caminhada igual a nós e ia dormir em Portomarín. Porém a sorte sorriu para o Geraldo, a dona do albergue tinha um parente que viria de Portomarín para Gonzar. O rapaz teve todo o trabalho de encontrar a mulher que estava com o passaporte para que pudesse trazê-lo, logo pela manhã ele recuperou o documento e pôde continuar seu caminho.

Ponte na chegada a Portomarín.

O próximo destino era Melide, um dia tranquilo, sem muitos desafios, inclusive já saí durante o dia claro. Durante esse trajeto eu voltei a ver um tipo de construção que era bem comum nos Pirineus, uma espécie de câmara elevada usada para a estocagem de alimentos, ela fica posicionada de uma forma que receba a maior incidência de sol possível para evitar a grande quantidade de umidade que existe nessas regiões. Em Melide o albergue era realmente confortável, contava até com piscina e um gramado enorme usado para área de convivência, essa cidade tinha muitos albergues, o que a concorrência não faz, não é mesmo.

O conforto era momentâneo e a jornada seguia rumo a O Pedrouzo, que é a minha última parada antes de chegar a Santiago. No caminho passei por um bar onde as pessoas deixam as camisetas assinadas, o teto do local está lotado delas. Nesse bar estava ocorrendo uma festa, todo mundo bêbado convidando quem passava para se juntar a algazarra, aquilo destoava bastante do resto do caminho.

Bar lotado de camisetas no teto.

O Pedrouzo está somente a 20km de Santiago e depois de mais ou menos duas horas de caminhada cheguei ao topo do Monte do Gozo, onde já é possível avistar ao longe a cidade. Depois daqui restava apenas uma hora, mas com certeza foi um dos percursos que mais pareceu demorar a ser feito. Ainda tem o percurso por dentro da cidade que fazia com que o tempo estranhamente passasse cada vez mais devagar, cada minuto pareceu interminável.

A chegada em frente a Catedral te dá uma sensação de dever cumprido muito grande, ainda mais quando você olha para o lado e vê inúmeras outras pessoas na mesma situação que você, largando as mochilas, até mesmo deitando ali e esperando que a ficha realmente caia que finalmente, aquele objetivo tão distante ali no começo está ali na sua frente, você realmente chegou.

A Catedral de Santiago de Compostela.

Esses são os certificados recebidos após a conclusão do caminho. A primeira é a famosa Compostelana, escrita em latim e o outro a marcação de distância, sendo esse opcional. Marcando meus 799km iniciados em Saint Jean Pied de Port no dia 16 de agosto de 2018 até minha chegada em Santiago de Compostela no dia 14 de setembro de 2018.

Conclusão e aprendizados da jornada

O curioso é que ao chegar aqui eu não sei muito bem o que dizer, depois de caminhar por 800km você não pensa muito ou reflete sobre o que está fazendo, você só faz. Não importava mais onde eu estava indo e naquele momento eu entendi os andarilhos, essas pessoas que largam suas vidas e passam a vagar por aí, possuindo um objetivo ou não, eles seguiam. Eu aprendi na pele o “como?” e “porque?”, depois que se cruza uma barreira que existe na sua mente, tudo o que se quer e sabe fazer é continuar, sem se importar com muito mais do que com o próximo passo a ser dado.

E o que ficou para trás? Bem, passou né. Durante a jornada, por mais que houvesse alguém ali esporadicamente caminhando ao seu lado, a jornada, o cansaço, as mazelas e fantasmas você enfrenta sozinho, tanto que a noite muitas vezes não ficava para reflexão e sim para o absoluto descanso já visando o primeiro passo do próximo dia.

O fim do mundo

Se você não sabe, Santiago não fica no litoral da Espanha, e se prestou atenção na imagem do roteiro no inicio desse relato, eu não parei na Catedral de Santiago, eu já tinha caminhado tanto até ali, resolvi esticar a viagem mais um pouco e fui até o “fim do mundo”.

“Finisterra” tem esse nome porque acreditava-se que era o último resquício de terra firme do mundo, o ponto mais a oeste do continente europeu.

O km zero; O fim do mundo; A costa da morte.

Relato feito por Danillo Laureano.

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