COMO AUMENTAR SUA RESISTÊNCIA MENTAL DURANTE UM DESASTRE

O que é resistência mental?

“Não se trata de quão forte você bate, é sobre como você aguenta apanhar e seguir em frente.”

Neste famoso discurso do filme “Rocky Balboa” de 2006, Rocky dá ao filho alguns conselhos que são muito adequados ao tema deste artigo. Em algum estágio, quando ocorre um desastre, por mais bem preparado que você possa pensar que está, você vai levar uma pancada e não são os recursos que você tem que vão ajudá-lo. É a sua resiliência mental que vai contar, e é isso que este artigo está revisando. A preparação mental é algo frequentemente esquecido pelos preparadores, e espero poder corrigir isso de alguma forma.

Psicologia da Sobrevivência

O site da Universidade de Dallas contém um artigo de John Leach que aborda esse tópico e um dos estudos que ele empreendeu foi como, em qualquer situação de sobrevivência, algumas pessoas vão morrer, enquanto outras sobreviverão. Ele conclui que há uma resposta de “congelamento” que algumas pessoas exibem em uma situação ameaçadora. Anteriormente, as pessoas falavam sobre “Lutar ou Fugir” como as duas opções que surgem nesta situação, Leach identificou uma terceira resposta em que as pessoas congelam.

Leach entrevistou muitos sobreviventes e leu relatos dos eventos após desastres e parece que algumas pessoas que observaram apenas ficaram sentadas, incapazes de se mover após um acidente de avião. Alguns apenas pararam em seus assentos enquanto estavam queimando até a morte quando foi possível correr e escapar. Da mesma forma, em alguns desastres no mar, havia pessoas sentadas nos cantos, incapazes de se mover, resistindo às tentativas de outras pessoas para ajudá-las a sobreviver.

Quando ocorre um desastre, algumas pessoas mudam para um “modo cumpra o objetivo”, onde decidem qual ele é, em seguida, trabalham para alcançá-lo (por exemplo: pular de um navio que está afundando e nadar até a costa). Essas pessoas terão maior chance de sobreviver. Outros serão oprimidos pela massa de informações a processar e perderão o foco no objetivo e começarão a simplesmente reagir aos estímulos individuais conforme eles ocorrem, perdendo de vista o objetivo final. Essas pessoas têm menos chance de sobreviver. Esses objetivos também foram mencionados em um estudo separado de Victor Frankl que resultou na terapia, chamada de “Logoterapia”.

Logoterapia

Victor Frankl era de Viena. Ele nasceu em 1905 e se formou como psiquiatra e neurologista. Como judeu, ele se viu nos campos de concentração nazistas, o que talvez seja uma das situações de sobrevivência mais formidáveis. Como alguém treinado nesses assuntos, ele começou a perceber que, das pessoas que sobreviveram, a maioria delas era capaz de contextualizar os acontecimentos ao seu redor. Eles estabeleceram uma meta para si mesmos. Trabalhar para atingir esse objetivo, em muitos casos, os manteve vivos. Ele atribui sua sobrevivência à determinação de reescrever um manuscrito que foi confiscado pelos nazistas.

Mantendo a calma

Um grupo de pessoas que lida diariamente com as situações mais estressantes são os soldados de elite do SAS (Special Air Service) do Reino Unido. Ollie Ollerton, um ex-membro do SAS, escreveu um livro sobre como ele superou situações difíceis e tem algumas dicas de como o SAS treina para manter a calma.

O que Ollie diz sobre o assunto é que somos capazes de reter apenas cerca de cinco a nove informações em nosso cérebro antes de começarmos a nos confundir, tomando decisões incorretas. Quando estamos sob pressão, esse número cai para apenas uma ou duas. Isso torna muito importante, quando sob pressão, olhar para a situação e se concentrar em algumas coisas que realmente importam para resolver o problema.

Ao mesmo tempo, quando sua respiração começar a ficar fora de controle, concentre-se nela e resolva o problema respiratório, isso ajudará sua mente a se tornar menos confusa.

Essa técnica está resumida no seguinte mantra.

|Respirar – Recalibrar – Liberar|

Sim, existirá situações em que, momentaneamente, você ficará confuso e indeciso. Nessas situações estressantes, você precisa parar, controlar a respiração, para que sua mente recupere o foco. Reavalie a situação, identifique a preocupação mais imediata e, em seguida, prossiga com a entrega da solução.

Esta técnica é ensinada a forças especiais em todo o mundo e é um método comprovado de manter o controle em uma situação estressante, garantindo que você tome as decisões certas.

Ponto de interrupção

Quando conversamos com membros das forças especiais e outros profissionais em situações estressantes dessa natureza, o termo ponto de interrupção frequentemente surge.

Esse ponto é quando você se encontra em uma dificuldade de curto prazo como parte da obtenção de um benefício de longo prazo. Você deve manter o foco em seu objetivo de longo prazo e não permitir que o desconforto de curto prazo interfira. Basta usar “Respirar – Recalibrar – Liberar” e superar esse desconforto de curto prazo. Ignore os pensamentos de retornar à sua zona de conforto. Vá em frente e continue com seu objetivo original.

Relatório

Em uma situação de emergência, você pode muito bem ver e experimentar coisas que o perturbam. Todos os trabalhadores de linha de frente nos serviços de emergência ocasionalmente encontram incidentes que podem bagunçar na mente e, se não forem tratados em um estágio inicial, podem causar problemas mais tarde. É importante fazer um balanço após cada um desses incidentes. Conversar com um amigo pode ser suficiente, contanto que você seja aberto sobre como você acha que isso vai ajudar. Expressar verbalmente esses sentimentos pode ajudar sua mente a processá-los.

Antropomorfizando

E se você estiver sozinho e não tiver ninguém para conversar sobre os eventos que ocorreram? Pessoas que ficaram presas sozinhas muitas vezes se descobrem escolhendo um objeto inanimado para conversar sobre coisas que aconteceram. Mesmo que o item que você selecionou para seu companheiro não lhe dê uma resposta, você ainda está expressando seus sentimentos e verbalizá-los ajuda sua mente a processar o que aconteceu e colocá-lo no contexto.

Pessoalmente, se estou confuso ou preocupado com um assunto, escrevo uma carta para alguém que nunca enviarei. Acho que isso o coloca em perspectiva. É tudo uma questão de colocar os eventos traumáticos em perspectiva, para que o cérebro possa processá-los com precisão. Engarrafar coisas é muito perigoso.

Aprendendo a lidar com o estresse

Quer queiramos ou não, haverá momentos em que nos sentiremos estressados. É como lidamos com esse estresse que é o aspecto mais importante disso. Se simplesmente dissermos algo do tipo “Fico estressado o tempo todo, provavelmente é um traço familiar”, então passamos a responsabilidade para outra pessoa e estamos dizendo que não há nada que eu possa fazer a respeito. Aqueles que podem aceitar que é possível mudar a maneira como podemos modificar e superar o estresse são os que se sairão melhor.

Pense nisso. Alguns dos sintomas de estresse, como o coração disparado e a boca seca, imitam como nos sentimos quando estamos excitados. Tudo o que temos que aprender é a técnica para mudar nossa percepção do estresse para a excitação. Externamente agimos com confiança e, gradualmente, nossa mente começará a acreditar em nós.

Para melhorar nossas habilidades, simplesmente precisamos nos desafiar continuamente, realizando tarefas que normalmente nos assustariam. Se tivermos sucesso em superar esses sentimentos, nossa capacidade de controlar o estresse melhorará. Assim como o exercício contínuo de um músculo irá fortalecê-lo.

Aqui está uma lista de coisas que podemos fazer para melhorar nossa capacidade de lidar com situações estressantes:

  • Não reaja instantaneamente a uma situação. Lembre-se, “Respirar – recalibrar – liberar”;
  • Concentre-se nas emoções positivas;
  • Não perca seu tempo pensando em cenários alternativos. Concentre-se no agora;
  • Mantenha-se fisicamente apto;
  • Reduza seus níveis de cafeína.

Analise a situação, desenvolva um plano, siga esse plano uma etapa de cada vez e “Respire – recalibre – entregue” entre cada etapa.

Com o crescente número de desastres relacionados ao aquecimento global e entre outras causas não é absurdo pensar que, em algum momento, enfrentaremos uma crise significativa. Podemos nos preparar comprando suprimentos de emergência, equipamentos e etc.  Porém a preparação mental é uma questão um pouco mais complicada.

Preparar os suprimentos físicos pode nos fazer sentir menos estressados, sabendo que tomamos os cuidados necessários. Temos um maior senso de controle, entendendo que fizemos provisões para o pior cenário. Essa preparação reduziu nossos níveis de estresse porque nos sentimos mais no comando, portanto, se aprendêssemos mais sobre os desastres em potencial e como eles podem afetar nossas vidas, poderíamos estar ainda mais no controle e, consequentemente, menos estressados.

A preparação física se trata de criar nosso refúgio com todos os suprimentos e equipamentos de que precisamos para lidar com qualquer emergência. O treinamento mental é uma extensão disso e, aprendendo tudo o que podemos sobre desastres em potencial, podemos eliminar o medo do desconhecido.

Como Rocky disse na citação no início deste artigo, “É sobre o quanto você aguenta apanhar e seguir em frente”. Se você entender como é possível passar por desastres e construir confiança tanto em seus recursos físicos quanto em sua capacidade mental para receber esses “golpes”, então haverá muito menos razão para se estressar.

Os preparadores precisam gastar mais tempo aprendendo sobre os incidentes históricos que ocorreram e as lições aprendidas com eles. Eles precisam entender o máximo que puderem sobre os desastres naturais e potenciais causados ​​pelo homem e quais serão as implicações para a sobrevivência e o estilo de vida contínuo. Não me refiro a assistir horas de filmes de desastres que são projetados para provocar medo, mas sim ler fatos sobre o que aconteceu e como as pessoas lidaram com aquilo. Eles também precisam extrapolar essas informações e entender o que eventos mais graves podem fazer.

  • O que aconteceria se o Brasil não tivesse fornecimento de eletricidade por meses ou anos?
  • O que aconteceria se houvesse um colapso do governo?
  • O que aconteceria se uma pandemia ainda mais grave do que COVID-19 acontecesse?
  • Qual é a melhor maneira de ficar protegido contra essa pandemia?
  • Exatamente como eu produzo comida suficiente para minha família?
  • Como posso viver da terra, o que pode ser comido e o que não pode?

Eu poderia continuar para sempre, listando o tipo de informação que deveria ser estudada e compreendida. Você pode ter armas suficientes para iniciar uma revolução de pequeno porte, você pode ter embalado alimentos e ter água engarrafada. Tudo isso é bom, mas a menos que você tenha o conhecimento para usá-los e planejar o futuro, eles não irão salvá-lo. Quando o desastre ocorre e você de repente percebe que se esqueceu de estar mentalmente preparado ou adquiriu o conhecimento de que precisa, então será tarde demais.

Prepare-se mentalmente

Aprenda as técnicas que mencionei neste artigo para controlar suas emoções e manter a calma. Pratique-as e aprenda a meditar para que possa dominar suas emoções. Ao mesmo tempo, leia tantos artigos sobre desastres históricos e desastres potenciais. Itens que são escritos academicamente e não combinados para criar medos. Se você tiver uma compreensão completa dos fatos pertinentes aos eventos, ficará mais confiante e mais capaz de maximizar seus recursos físicos. Você terá menos medo e mais confiança. O conhecimento é realmente o recurso mais potente em uma caixa de ferramentas de preparadores.

DICA – Lembre-se de que uma quantidade saudável de medo não é algo ruim. O medo é projetado para nos impedir de agir de forma imprudente. Se você enfrentar uma situação na qual está com medo, pare e reflita sobre a situação de longo prazo e, se necessário, quebre a barreira do medo.

Pensamento final

Tentei apresentar a você um compilado de diferentes técnicas e fatos sobre como se preparar mentalmente para o que está por vir. Prepare-se agora, aprendendo a controlar suas emoções e a desenvolver sua confiança, adquirindo mais conhecimento sobre eventos reais de emergência.

Texto traduzido e adaptado do site Apocalypse Ninja.

5 Comentários

  • Marlon Navarro Ezequiel

    Então, eu assisti o vídeo da ODR, postado recentemente no canal Sobrevivencialismo. Eu, na verdade, gostaria de deixar uma crítica construtiva sobre o início do curso, que foi resumido no vídeo, onde vocês “passam um pente fino” nos voluntários, separando os “fortes” dos “fracos”. Fazê-los reconhecer os próprios limites é de extrema importância e concordei totalmente com a forma que foi feita, inclusive gostei de como vocês enfatizam o quão importante é dar o passo de parar quando reconhecido o limite. Porém, a minha crítica está no que é feito após isso, pois uma habilidade como a de liderança, não necessariamente, exige força física. Eles, os desligados durante o curso, poderiam ter habilidades muito úteis caso exploradas. Creio eu, que ao invés de desligá-los do curso, uma nova equipe pudesse ser criada, para explorar habilidades, utilidades, que no caso deles pode não estar no individual, e sim, no coletivo.
    Não sei se chegaram a ver isso, mas caso virem e de alguma forma parar em algum vídeo, manda um abraço aí kkkk.

  • Não entendi essa parte da respiração Respire – recalibre – entregue tem algum video de como se faz essa respiração? Fora isso adorei o texto, abç pro Julio Lobo

  • Apesar de formado em direito, estou cada vez mais fascinado em como a psicologia é uma ferramenta incrível na solução de conflitos. Ótimo texto!

  • Olá, gostaria de agradecer a Deus por preparar pessoas como vocês
    Suas técnicas, e ensinamentos
    Tem me ajudado muito
    Não só o físico , mais também o posicologico
    Tmj, Deus abençoe vocês ❤️

  • Obrigado por abordarem esse assunto, sempre mto bem vindo esse tema.

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