Uma verdadeira peregrinação

Inspirado pelo pelo excelente vídeo da expedição do Julio e do Ébano à Praia do Cassino, resolvi me lançar numa aventura similar, porém de menor magnitude. Como fazem décadas desde minha última caminhada de mais de um dia, escolhi uma trilha não muito complicada, nem tão longa quanto a da Praia do Casino, e, como moro na Dinamarca, me decidi por uma trilha na Suécia conhecida como Pilgrimsleden, ou Trilha do Peregrino.

Essa trilha, que de ponta a ponta tem 100 km de extensão fica localizada na Dalsland, que é a região central da Suécia, situada a uns 400 km ao sul de Estocolmo e outros 400 km ao norte de Copenhagen na Dinamarca. A trilha existe há mais ou menos 1.000 anos e se chama trilha do Peregrino justamente por ser o caminho usado pelos peregrinos na idade média para visitar a igreja de Nidaros (Trondheim, na Noruega) onde está enterrado São Olavo. Ela começa na cidade de Vänersborg e termina 100km ao norte no povoado de Edsleskog, de onde se pode tomar um ônibus ou caminhar mais 20 km até Åmål e dali tomar o trem de regresso a Dinamarca. A trilha é classificada como moderadamente difícil, ou seja, algo que um quase cinquentão como eu tiraria de letra.

Meu plano inicial era fazer o percurso inteiro de 100 km. Calculando que caminharia 20 km por dia, iria necessitar de cerca de uma semana para completar a trilha toda. Porém por razões familiares e de viagens decidi fazer apenas metade da trilha, ou seja sairia de Mellerud e terminaría em Edsleskog. Aconselho ao leitor de dar uma espiada no Google Maps para ter mais ou menos uma idéia das distancias e localizações, basta digitar “Mellerud Suecia” para encontrarem meu ponto de partida.

Equipamento e Planejamento

Como mencionei antes, desde os anos 90 que eu não me aventurava por uma caminhada tão longa. Minhas saídas para o mato, tanto no México onde morei quanto na Dinamarca sempre se resumiram a ir de manhã e voltar a tarde. Na verdade eu estava bem perdido em quanto a muitos dos equipamentos necessários (mochila, barraca, saco de dormir, etc) e nisso o Pedro do canal Gear Tips foi de extrema ajuda. Troquei alguns e-mails com ele, que me passou uma lista bem detalhada do que levar e que me foi muito útil.

Como eu andava curto de grana tive que procurar alternativas de equipamentos mais baratos para essa aventura. Basicamente o que eu levei foi:

  • Mochila cargueira de 70L + 10L da Mountaintop: Tá longe, muito longe, de ser uma Deuter ou uma Osprey, mas como os reviews que li não falavam muito mal, optei por essa mochila de origem chinesa;
  • Isolante Térmico: Fui com um desses mais baratos, feitos de um tipo de espuma, desses que se enrolam como um cilindro. Bem leve, mas muito volumoso;
  • Saco de Dormir: Como o plano era fazer a trilha em agosto, verão no hemisfério norte e no centro da Suécia a temperatura não cai abaixo de 10ºC, optei por um saco de dormir de uma marca local daqui da Dinamarca, tipo múmia, até que confortável mas pesado;
  • Barraca: Comprei numa loja de bushcraft daqui uma barraca individual do exército alemão. Ela fechada é pouco maior que uma garrafa PET de 2 litros, bastante confortável, aguenta até 1500 mm de chuva mas bem pesada, 2,7 kg!
  • Roupas: Burramente só levei roupa de algodão, além de um poncho estilo militar e um Anorak da Columbia;
  • Calçado: Foi onde investi um pouco mais de dinheiro e comprei um par de botas da Salomon, modelo 4D GTX e umas meias próprias para hikking, muito confortáveis;
  • Navegação: Levei um GPS Garmin Etrex 30, bússola Silva, mapas topográficos com a trilha inteira já assinalada em escala 1:50.000 e grid UTM e o aplicativo de navegação Gaia GPS, que aliás é excelente e foi o que usei para navegar durante todo o trajeto, já que faltou grana para comprar os mapas topográficos da Suécia para o GPS da Garmin (200 euros para descarregar os mapas!!!);
  • A parte, levei um kit completo de primeiros socorros, bateria da Ankers para recarregar o celular, fogareiro, gás, uma caneca de 800 ml para esquentar água, 10 pacotes de comida liofilizada, miojo (existe algum país no mundo onde não haja miojo?), uma faca falkniven F1, uma serra dobrável (a ideia era fazer fogueira onde desse/pudesse), travesseiro inflável, uma bermuda, uma suéter, lampada de cabeça da Black Diamond de 250 lúmens, um micro lampião a pilha da Black Diamond, um Victorinox Huntsman, um Leatherman Signal, Kit de sobrevivência em lata de Altoids, 30 m de paracord 550, meu Kindle, SPOT Gen 2, café, chocolate, duas garrafas Nalgene de 1 litro e um filtro modelo Vario da Katadyn, além do mini filtro da Sawyer (eu sei, sou exagerado…).
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Mochila com todos equipamentos dentro

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Barraca e os itens espalhados

Meu plano era tomar um trem de Copenhagen até Mellerud, saindo pela manhã e chegando lá por volta das 14:00h ou 15:00h. A primeira noite passaria num camping (Camping Vitta Sandar em Mellerud) e as seguintes três noites nos abrigos ao longo da trilha. Na Suécia existem leis muito rígidas onde se pode acampar e onde não se pode acampar com multas aos infratores. Por conta disso, tive que planejar meu roteiro de acordo com a localização desses abrigos, que nada mais são que uns “caixotes de madeira” com um dos lados totalmente aberto. A área conta também com um espaço para fazer fogueira e um banheiro. No final, eu teria que cobrir aproximadamente 20 km por dia, para ir de um abrigo ao outro, sendo que do último abrigo até a cidade onde tomaria o ônibus seriam apenas 7 km de caminhada. Ou seja, nada que me parecesse tão dramático ou complicado assim.

Como a região onde a trilha se encontra é cheia de lagos, a ideia era ir me abastecendo de água pelo caminho. 

Consultei também como era o clima na região naquela época do ano, temperatura mínima, máxima, incidência de chuvas, etc e contatei que agosto é o mês mais chuvoso do ano. Mas aqueles poucos dias de agosto era o que eu tinha disponível e segui em frente.

A Trilha

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Estava pronto e animado!

Dia 1

Minha aventura começou numa terça-feira de manhã. Já todo equipado tomei o metro, deixei minhas filhas na escola e segui de metro até a estação de trem, que fica no aeroporto internacional de Copenhagen. Aliás, no aeroporto estão uma das estações de trem, estação terminal do metro e o terminal de ônibus.

Lá pelas 10am tomei o trem que cruzaria o estreito de Øresund e me levaria até Gottemborg, já na Suécia. Em Gottemborg tomei um Ônibus até uma outra cidadezinha cujo nome já me foi da memória e de lá outro trem até Mellerud. Em Mellerud seria uma caminhada de uns 2 km até o camping que fica num bosque as margens de um lago gigantesco, daqueles que não se consegue ver a outra margem.

O trajeto todo transcorreu sem problemas. Um dia lindo de verão Sueco. Chegando a Mellerud me dirigi ao Bureau de Turismo para avisar que iria tomar a Trilha do Peregrino até Åmål e que esperava faze-lo em três ou quatro dias. Também perguntei sobre a localização dos abrigos, pois não vinham marcados em nenhum mapa nem no Gaia GPS. A atendente me forneceu um mapa com a localização de todos os abrigos e me disse que eram visíveis da trilha. “Fool proof” (a prova de idiotas) como dizem os americanos.

Saindo de lá caminhei até o camping, que estava apinhado de Motorhomes. Pelo jeito os Suecos adoram essa maneira de viajar. Armei minha barraca no final do camping, junto a umas árvores. Estava super excitado com aquela aventura toda, de fazer uma trilha solo pela Suécia, conhecida como “Canada da Europa” pelas extensões de área verde e fauna (alces, veados, ursos, lobos, etc) com que o país conta, era uma super experiencia.

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Camping lotado de Motorhomes!

Bom, a excitação me tirou o apetite. Aliás, já me tinha tirado desde que saí de Copenhagen. Durante o dia inteiro só tinha comido um croissant e dezenas de cafés, não jantei e assim que ficou um pouco mais escuro, lá pelas 10 da noite, entrei na barraca para dormir. Coisa que não consegui, não só pela excitação como também pela falta de costume de acampar. Enfim, passei a noite praticamente em claro. Em claro por não dormir e porque as 3 da matina já esta começando a clarear lá por aqueles lados.

Dia 2

Tomei um café, comi um pedaço de chocolate e assim que abriu o escritório do camping, as 8am, fiz o check out e pé na trilha. Aquela quarta-feira amanheceu super nublada e a previsão para o dia era de chuva. Cobri a mochila com a cobertura amarela que vinha com ela e de cara coloquei meu Anorak da Columbia. E assim equipado tomei a trilha.

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Preparando o café!

Essa parte da trilha, que vai de Mellerud a Upperud é bem “habitada”, a trilha chega a ser pavimentada e conta com varias placas sinalizadoras apontando a direção e segue assim por uns bons quilômetros até sair da área de cidade e entrar na zona rural, onde a trilha passa por várias fazendas com umas casas super bonitas, corta a linha do trem, passa por um cemitério e segue assim até cruzar a estrada E45. A partir dali a trilha deixa de ser pavimentada e se transforma numa trilha propriamente dita e as sinalizações passam a ser uma bola laranja pintada com tinta spray nas árvores.

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Finalmente na trilha de verdade!

Fui me guiando por essas marcações e pelo aplicativo Gaia GPS que funcionava com toda a precisão. Até que um pouco depois de ter cruzado a auto-estrada, começou a chover. Chuva leve sem muito problema. Era por volta das 9:30 da manhã.

Um pouco mais adiante, eu estava atravesando um bosque quando a chuva ficou super pesada. Não chegava a ser tempestade, mas era uma chuva bem forte. Como o meu Anorak já estava fazendo água,  parei em baixo de uma árvore, tirei o poncho da mochila, pus a mochila e coloquei o poncho. Primeiro problema! O poncho não cobria a maldita mochila! E por conta disso eu fiquei com as pernas expostas a chuva.

“Inês é morta” pensei eu, e segui adiante, debaixo do aguaceiro. E a trilha subia, descia, cruzava bosques onde havia avisos de precaução com linces, cruzei com dois red deers e tudo isso com aquela chuva intensa e incessante. Não havia parado de chover nem um instante sequer.

Como o mapa que eu havia comprado no bureau de turismo ficou tão molhado que se tornou inútil, usava o Gaia para me guiar e indicar minha posição. Mas por conta da chuva que molhava toda a tela do telefone e por não conseguir secar os dedos, minhas consultas de posição eram precárias.

Continuei andando debaixo da chuva torrencial, já completamente ensopado. Era tanta chuva que até meus pés estavam encharcados, mesmo usando botas à prova d’água. Como simplesmente não tinha onde me abrigar e aquela porcaria de poncho muitas vezes era mais um estorvo que um auxilio, eu estava molhado como se houvesse pulado de cabeça num lago de mochila e tudo e ficado nadando ali. Minhas mãos tão enrugadas que o dispositivo táctil de reconhecimento de impressão digital do telefone custava em reconhecer meu dedo. A mochila pesava nos ombros, e tinha a impressão de que além de não estar bem equilibrada, a barrigueira não estava ajudando muito, o que só contribuiu para o total desconforto.

Mas enfim, liguei o “fo#%-se” e continuei. Eu só pensava em uma coisa: chegar logo no abrigo, tirar aquela mochila das costas, me secar e dormir. Naquele momento eu só pensava nisso.

E assim continuei por mais uns 15 km até chegar em Upperud, que é um povoado microscópico. O abrigo deveria estar a uns 4 ou 5 km mais ao norte. Continuei através de um bosque que parecia saído de um conto de fadas, formado por coníferas e abestos e algumas formações rochosas parcialmente cobertas de líquen. Era um lugar mágico. Já havia passado  um pouco das 3 da tarde quando cheguei nesse bosque e a chuva não havia parado nem um único minuto desde as 9:30 da manhã. Junte a isso o fato de não haver dormido nem comido nada desde o dia anterior pela manhã. Eu estava num estado que parecia de transe. Já não pensava mais em nada, só andava.

Até que cheguei no ponto mais alto da trilha inteira, chamado de Skalåsknatten, que dava vista para o lago abaixo e floresta até perder de vista. A sensação de solidão era imensa… Como nesse ponto a chuva deu uma amainada eu parei para apreciar a vista e pude tirar algumas fotos com o celular.

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Que clima agradável, não é?

E foi aí que a coisa desandou geral, pois comecei a escutar risos e vozes vindos do bosque, que nesse momento estava coberto por uma névoa rasteira, tipo filme de terror. Quando gritei “Aloooooo!”, fez-se silêncio…. Continuei caminhando por esse platô e os risos e vozes voltaram e, não sei se por conta da falta de sono e cansaço, comecei a achar que aquele bosque era mal assombrado e isso desencadeou um turbilhão de pensamentos e sensações em mim.

Continuava caminhando, agora sob uma chuva fina, com cautela e alerta, com os ouvidos atentos, tentando descobrir de que direção vinham aqueles risinhos, agora muito mais esporádicos, até que pararam de vez. Mas foram substituídos por uma imensa sensação de solidão e saudade das minhas filhas e esposa. Me sentia como se estivesse a milhares de quilômetros de distância da civilização. Até que eu estanquei.

Não conseguia mais avançar. Meu lado racional dizia que o abrigo estaria logo ali na frente. Mas meu lado irracional gritava que eu deveria voltar. Fiquei ali parado no meio da chuva, sem conseguir tomar uma decisão até que… Dei meia volta e tomei a trilha em sentido contrário. E nesse exato instante a chuva parou! Não apenas parou, mas chegou a sair um raio de sol. Parei de estalo e no que me voltei para mudar de direção e retomar a trilha…. Fecha-se o tempo novamente. Decidi aceitar a derrota e retomar o longo caminho de regresso a Copenhagen, que por si só foi toda uma outra aventura.

Concluí depois que a falta de sono, de comida e o excesso de esforço físico aliados a chuva incessante me fizeram alucinar ali no meio daquele bosque. No trem de regresso a casa eu me senti um b#@ta, um fracasso, por ter sido derrotado daquela forma. Por isso decidi que em junho de 2018 tentarei novamente essa travessia, usando as lições que aprendi, ou seja, me prepararei melhor, sobretudo com uma mochila Deuter, sem os equipamentos que se mostraram desnecessários e com um melhor condicionamento físico (musculatura das costas) e mental.

No final, eu cobri 25km de trilha em 7 horas e 16 minutos com um total de uma hora e meia de descanso. Mas mais que isso foi aquela sensação extremamente prazerosa, apesar de haver falhado na tentativa, de haver feito esse trajeto. É difícil explicar, mas era como se eu andasse nas nuvens por alguns dias. Sei lá, algo extremamente espiritual.

Pilgrimsleden, nos vemos em junho!

Copenhagen, 17 de novembro de 2017. Texto escrito pelo leitor Carlos Cabral de Menezes.

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7 Comentários

  • Sensacional! Adorei seu relato.
    Ainda sou iniciante no mundo hiking/trekking, e ver relatos como seu, mostra quais desafios vou enfrentar e me motiva ainda mais adentrar na aventuras.
    Obrigado por compartilhar.
    Grande abraço, parabéns.

  • Amigo fiquei impressionado com seu equipamento… aqui no Brasil seria uma pequena fortuna nas costas, pelo preço dos ítens… você levou o suficiente para 1 semana tranquilo….Me causou assombro o qual rápido você ‘surtou’, pois praticamente você pegou um dia de trilha na chuva.. Boas aventuras.

    • Eu não esperava surtar, sobretudo depois de todo o esforço na preparação… Mas enfim, acho que faltou preparo.

  • Muito Legal..
    O nome “Mellerud Suecia” ta bem anotado… Um dia vou fazer essa trilha, espero, caminhando e pensando nas histórias, nos acontecimentos e em quantas pessoas ja passaram por ela há centenas e centenas de anos.
    Parabéns por encarar o desafio e valeu por compartilhar!

    • Carlos Cabral de Menezes

      Valeu! Em dia de sol o lugar é lindo e as fazendas são tipo de filme. Se algum dia vier, avisa e de repente te acompanho.

  • Parabéns pela aventura, e nesse caso, quando não se luta contra um inimigo, mas sim com seu físico, sua psique, e contra seus “demônios”, não existe derrota, e sim, aprendizado. Abç., e fico torcendo pra que realize a próxima, e esperando ansioso pelo relato.

    • Carlos Cabral de Menezes

      Exatamente isso. Fazer trilha solo é uma viagem de auto descobrimento incrível. Em junho tento outra vez! Valeu pelo apoio!

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