O PIOR PESADELO DE UM SOBREVIVENCIALISTA

Eu me preparo desde antes de virar moda. Muito antes de reality shows e YouTubers de sobrevivência com bunkers milionários, eu já guardava suprimentos, aprendia a fazer fogueiras na chuva e convencia minha esposa de que sim, precisávamos mesmo de outro carregador de bateria solar. E, na maior parte do tempo, eu me sentia pronto. Eu tinha comida, tinha equipamentos, tinha planos de A a Z.

Mas há um cenário que ainda me assombra. A única coisa que, não importa quantos equipamentos eu tenha acumulado ou habilidades que eu tenha aprimorado, pode fazer tudo ruir. E provavelmente não é o que você pensa. Esqueça guerra nuclear, pulsos eletromagnéticos ou gangues de pessoas desesperadas. Meu pior pesadelo? Complacência.

A mentira confortável

Preparar-se, apesar de sua aparência rústica, pode ser sedutor. Há uma satisfação silenciosa em uma despensa bem abastecida, em prateleiras repletas de latas de munição e comida embalada a vácuo. Você entra naquela sala e se sente poderoso, como se tivesse enganado o sistema. Mas esse conforto é uma faca de dois gumes.

Ela te ilude, fazendo você pensar que está pronto quando na verdade não está. Ela te convence de que, por ter se preparado para uma crise, você não entrará em pânico quando ela chegar. Que, por ter o equipamento necessário, você saberá automaticamente o que fazer. Essa é uma mentira que contei a mim mesmo durante anos.

O teste que me abalou

Há alguns invernos, decidi fazer um treinamento surpresa comigo e com minha família. Sem energia, sem aquecimento, sem água encanada por 48 horas. Telefones desligados. Tudo desligado. Eu queria ver como nos sairíamos. Os resultados? Humildes.

Em seis horas, minha filha adolescente estava perdendo a cabeça sem as redes sociais. As velas de emergência que eu havia estocado mal davam luz suficiente para enxergar. Minha esposa e eu discutimos sobre onde eu havia escondido o rádio de manivela. E descobri que as refeições liofilizadas que eu havia guardado seis anos atrás… É… elas não ficam mais gostosas com o tempo.

No final do segundo dia, estávamos com frio, irritados, confusos e sem noção do quão ruim tínhamos sido nossos resultados. E isso foi apenas um fim de semana.

A verdadeira ameaça: as pessoas (sim, até você)

Você pode se preparar para o fim do mundo, mas e quanto ao mundo mudando lentamente? E quanto a um colapso econômico que se instala ao longo de meses, tão gradualmente que você mal percebe que seu dinheiro não rende mais como antes? E quanto à agitação política que latente sob a superfície até que um dia seu pacífico bairro esteja infestado de manifestantes, postos de controle e patrulhas armadas?

A verdadeira ameaça nem sempre é dramática. Às vezes, é lenta. Às vezes, é silenciosa. Como a podridão atrás de uma parede de gesso — você só percebe quando é tarde demais. A sociedade nem sempre entra em colapso com um estrondo. Às vezes, ela se transforma em disfunção com um gemido, e você acorda um dia percebendo que sua versão do normal já não existe mais.

E às vezes é você. Suas suposições. Seu ego. Sua crença de que, por ter inúmeros ótimos livros de sobrevivência, comprado o equipamento certo, estocado carne enlatada e assistido a vídeos de sobrevivência suficientes no YouTube, você é de alguma forma imune ao caos. Essa mentalidade — é isso que o cega para o perigo.

É isso que me mantém acordado à noite. Não os pulsos eletromagnéticos, os saqueadores ou a fome. Mas a crescente possibilidade de eu não perceber os sinais de alerta, entrar no piloto automático e não conseguir me adaptar rápido o suficiente porque pensei que já tinha tudo planejado.

As habilidades que esquecemos

Todo mundo fala em mochilas de emergência, munição e comida liofilizada. Mas deixa eu te perguntar:

  • Você consegue negociar sob estresse, quando a tensão está alta e alguém aponta uma arma pedindo metade dos seus suprimentos?
  • Você consegue liderar pessoas sem se tornar um tirano — ou pior, um sujeito que só quer agradar a todos e acaba sendo atropelado em uma crise?
  • Você consegue pensar criativamente quando seu plano fracassa, seu plano B falha e você fica sem opções?
  • Você consegue manter a calma quando seus filhos estão chorando, o cachorro está latindo, o gerador está engasgando e a casa do seu vizinho está pegando fogo?
  • Você consegue ficar sem dormir por dois dias e ainda fazer escolhas inteligentes?
  • Você consegue acalmar um confronto sem violência, mas ainda estar preparado caso a situação piore?

Essas não são habilidades que você adquire em uma lista de compras. Elas são forjadas com prática, pressão e dor. Se você não consegue fazer essas coisas — se nem tentou —então, detesto dizer: você não está pronto. Eu também não estava. Mas estou trabalhando nisso todos os dias agora, porque, quando é preciso, o equipamento não manda. As pessoas mandam.

O cenário do pesadelo

Imagine o seguinte: você tem o equipamento, a comida, o plano. Você ensaiou os cenários na sua cabeça mil vezes. Mas então o evento acontece — e não é nada como você imaginou. O ar tem um cheiro estranho. O barulho é ensurdecedor. O caos está por toda parte. E naquele momento, em vez de entrar em ação, você congela. Ou pior, entra em pânico. Suas mãos tremem tanto que você não consegue carregar sua arma. Você esquece a combinação do seu cofre. Você calcula mal seu suprimento de água e desperdiça sua reserva limpa no primeiro dia. Você ataca as pessoas que deveria proteger porque a pressão parece insuportável. Você se torna o elo mais fraco da sua própria corrente — aquele de quem todos dependiam e aquele que cedeu.

Esse é o pesadelo. Não é a falta de suprimentos. Não é nem o inimigo no portão. É você, sob pressão, falhando em estar à altura da ocasião. É perceber que toda a sua preparação não adiantou nada se você não conseguir atuar quando mais importa. E, uma vez que esse momento passa, não há botão de retrocesso. Você só tem uma chance. Esse é o momento que separa aqueles que sobrevivem daqueles que simplesmente achavam que estavam prontos.

O que estou fazendo diferente agora

Hoje em dia, ainda me preparo. Mas minha mentalidade mudou. Dedico mais tempo à resiliência mental do que à acumulação de reservas. Leio sobre liderança, tomada de decisões e resolução de conflitos. Treino de maneiras que simulam pressão. Tomo banhos frios. Jejum. Longas caminhadas com mochilas pesadas e sem GPS.

Eu arrasto minha família para cenários de dramatização que eles odeiam, mas dos quais secretamente aprendem. Nós discutimos. Nós fracassamos. Nós nos adaptamos. E lentamente, estou me tornando o tipo de homem que não vai ceder quando o mundo cair.

Considerações finais

O pior pesadelo de um Sobrevivencialista não é o fim do mundo. É perceber que você não era quem pensava ser quando aconteceu. Então prepare seus suprimentos, mas prepare -se também. Porque não importa quantos quilos de arroz você armazenou, é a sua mentalidade, sua coragem e sua capacidade de liderar sob pressão que o farão vencer.

Fique alerta. Fique humilde. E acima de tudo, continue perigoso.

Texto traduzido e adaptado do site: Ask a prepper.

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