UMA VIAGEM PARA A COREIA DO NORTE

Há 10 anos, e alguns países atrás, mais especificamente em outubro de 2011, eu estava vivendo com o meu marido na cidade do Kuwait, de onde sempre saíamos para alguma viagem durante os feriados nacionais (que naturalmente nunca coincidem com datas comemorativas ocidentais tradicionais). Naquele momento, eu estava em busca de ideias para rotas de viagem, já que no início do próximo mês ocorreria o Eid al-Adha (um feriado islâmico dos mais importantes, com duração de 4 dias) e teríamos cerca de 2 semanas livres para viajar.

Ainda sem rota definida e navegando por um mar de possibilidades, eu e meu marido assistimos ao excelente documentário, lançado pelo canal de mídia digital independente Vice em 2006: The Vice Guide to North Korea.

Após assistir ao documentário, eu soube que nosso próximo destino seria a República Popular Democrática da Coreia, eu tinha que visualizar e sentir aquele país pessoalmente, meu instinto de “pseudo-fotojornalista” frustrada clamava por aquela viagem. Para tal, eu só precisaria atingir 2 objetivos bastante simples:

1 – Convencer ao meu marido,que indubitavelmente prefere um bom spa nas Maldivas ao risco de ser sequestrado ou preso a se aventurar pela Coréia;

2 – Descobrir COMO chegar até lá, afinal de contas, se os jornalistas do Vice foram para lá e voltaram vivos para contar a história, havia sim uma forma de fazer isso e eu certamente a encontraria.

Após apresentar essa super e incrível ideia de viagem de férias ao meu marido, posso dizer que a reação dele não foi muito receptiva,o que eu evidentemente já esperava em um primeiro momento. Após alguns dias de uma leve insistência feminina, consegui com que ele me desse uma resposta diferente do NÃO inicial:

 – Ok, podemos ir, mas você terá que encontrar uma forma de ir até lá e ficará responsável por cuidar de absolutamente todos os detalhes da viagem.

Obviamente, ele não acreditava que eu fosse ser capaz de encontrar uma agência de turismo operando na Coréia do Norte. Em 2011 ir até lá à turismo era algo que pouquíssimas pessoas acreditavam ser possível de se fazer.

Preparativos para a viagem

Primeiro objetivo alcançado, era hora de arregaçar as mangas e começar a pesquisar, afinal de contas, naquele momento, eu acreditava que seria muito difícil encontrar algum operador de turismo na Coréia do Norte. Para a minha surpresa, fui capaz de encontrar dois operadores de viagem respeitáveis em cerca de uma hora de busca. E-mail enviado, resposta com todos os detalhes e programação da viagem recebida no mesmo dia. Para minha alegria e desespero do meu marido, três dias depois eu tinha todos os detalhes da viagem acertados com a agência, inclusive recomendo a Koryo Tours a todos os interessados em visitar a Coréia do Norte, são extremamente confiáveis e muito profissionais.

Com todos os detalhes fechados, era hora de partir para Beijing, onde visitaríamos a agência para coletar os papéis necessários e receber um briefing sobre a viagem.

Comportamentos a serem seguidos

No briefing da agência, nos disseram como deveríamos nos comportar ao chegar na Coréia do Norte, incluindo tópicos de conversas delicadas a se evitar. O que poderíamos levar na bagagem e o que poderíamos fazer ou não durante a nossa visita. Coisas como jamais dobrar fotos de Kim Il-Sung (o Grande Líder) ou de Kim Jong-Il (o Querido Líder) presentes em revistas, jornais ou folhetos de propaganda, fazer isso é considerado um insulto grave e deveríamos fazer reverências em frente a estátuas e fotografias dos Líderes e heróis de guerra sem pestanejar.

Sempre pedir autorização para fotografar QUALQUER coisa, jamais nos afastarmos de nossos guias (talvez eu devesse chamá-los de “guardas”), levar apenas câmeras fotográficas simples, sem lentes com zoom muito potente e ainda assim deveríamos estar preparados para termos nossa câmera verificada e fotografias consideradas impróprias deletadas pelos guias.

Câmeras de vídeo eram vistas de forma mais sensível e chamavam mais a atenção dos guias em relação a controlar o conteúdo gravado, então fomos orientados a sermos muito cuidadosos se pretendêssemos levar uma conosco. Levar computadores, música, conteúdo impresso como jornais ou revistas era estritamente proibido. Há uma grande preocupação sobre itens que turistas ou outros visitantes podem deixar no país, por isso tantas exigências.

A mais complicada e controversa delas que deveríamos aceitar para visitar o país, seria ter que deixar nossos passaportes e telefones celulares (se optássemos por levá-los) com os guias, o que como você pode imaginar é de causar desconforto em qualquer um. Esse detalhe custou algumas noites de sono ao meu marido, que é completamente paranoico em relação à documentos e mal me deixa carregar o meu próprio passaporte quando estamos viajando juntos porque acha que sou capaz de perdê-lo.

Após a visita à agência, retornamos ao nosso hotel em Beijing e reorganizamos a nossa bagagem de forma a levar uma só mala para os dois, já que o plano era deixar a segunda mala com pertences que não pretendíamos levar conosco para a viagem no hotel, voltaríamos para Beijing e passaríamos mais 2 dias por lá na volta de Pyongyang. Nossos telefones celulares e a nossa câmera DSLR ficariam no hotel, optamos por levar conosco apenas uma Sony Cybershot pré-histórica depois de avaliarmos as informações que a agência nos passou, vulgo medo.

O início viagem

Eu e a Srta. Kim

No dia seguinte partimos de Beijing com destino à capital Pyongyang em um voo de cerca de duas horas em um Tupolev TU-204-300 da Air Koryo, a empresa estatal norte coreana. Você começa a experienciar a Coréia do Norte já durante o voo, onde recebe um exemplar do Pyongyang Times da aeromoça e pode provar o famoso, mas bem longe de delicioso, Air Koryo Burger. Prefiro acreditar que o hamburguer era feito de frango, mas sabe se lá que tipo de coisa era aquilo. A lotação do avião era composta de cerca de 70 pessoas, por volta de 20 turistas ocidentais e o restante se dividia entre coreanos e chineses. Durante o voo tivemos que preencher e assinar um formulário atestando que não estávamos levando nenhum item listado como proibido para a entrada no país.

Após fazer os procedimentos de imigração e coletarmos as malas na chegada ao aeroporto de Pyongyang, nós dois juntamente com todos os outros turistas fomos direcionados à uma área do saguão onde encontraríamos os nossos guias. Após os encontrarmos, eles já nos direcionaram rapidamente para o carro, uma van produzida pela montadora local Pyeonghwa Motors Corp e que seria o veículo que utilizaríamos durante toda a nossa estadia por lá.

A equipe que nos atendeu era formada por dois rapazes e uma moça, os rapazes eram o guia e o motorista, os dois com seus 30 anos e a moça uma guia que devia ter cerca de 25 anos. Não sou capaz de me lembrar do primeiro nome de cada um deles, mas lembro bem de que os três tinham o mesmo sobrenome: Kim. O sobrenome Kim é muito comum na Coréia do Sul e também na Coréia do Norte, então é muito comum que grande parte da população desses dois países possua esse sobrenome sem necessariamente terem qualquer relação de parentesco.

Já dentro da Van e a caminho do hotel, a Srta. e o Sr. Kim, que é como nos dirigíamos aos nossos guias, nos pediram que lhes entregássemos os passaportes e telefones celulares. Esse foi um dos momentos mais tensos da viagem, já que foi a partir daquele momento que realmente sentimos que estaríamos totalmente à mercê de nossos guias durante a nossa estadia.

Ambos os guias falavam inglês de forma impecável, eram muito educados, e se mostravam extremamente dedicados e cordiais. A Srta. Kim era uma moça bonita e extremamente vaidosa, enquanto o Sr. Kim era um homem mais simples, casado e com filhos. O motorista quase não falava inglês, então praticamente não conversava conosco.

Hotel

Yanggakdo Hotel

Na chegada ao hotel, fizemos o nosso check-in e a Srta. Kim nos explicou que só ficaríamos sozinhos enquanto estivéssemos no hotel, do qual éramos proibidos de sair sem a companhia deles, os dois nos acompanhariam por ABSOLUTAMENTE todos os lugares que visitaríamos durante a nossa estadia no país. Ambos os guias e o motorista também estavam hospedados no nosso hotel, em um andar reservado somente para os guias responsáveis pelos turistas hospedados lá. Nos informaram de que nossos passaportes seriam guardados em um cofre no hotel e que não precisaríamos nos preocupar com a segurança dos nossos documentos.

O Yanggakdo Hotel é o maior hotel em funcionamento em Pyongyang e fica localizado na ilha Yanggak, de onde é praticamente impossível sair a pé mesmo que você queira fazer a loucura de tentar. Durante a nossa estadia, havia apenas um andar ocupado por turistas num hotel de 47 andares que possui um restaurante giratório com vista para a cidade no topo do prédio. No porão do hotel funciona um cassino extremamente popular entre os turistas chineses, muitos deles viajam à Pyongyang exclusivamente para visitar o cassino e não saem do hotel em momento algum durante a sua estadia.

No elevador não existe o botão para acesso ao quinto andar, que supostamente não existe, e o que não falta são rumores de que esse andar funcionaria como um centro de espionagem ao estilo bunker. Existem relatos de turistas que conseguiram acessar o quinto andar pelas escadas e tirar algumas fotografias que foram capazes de esconder dos guias e levar consigo na saída do país. Inclusive teria sido uma visita ao quinto andar desse hotel que teria resultado na prisão e posterior morte inexplicável do estudante americano Otto Warmbier em 2016, após ter sido condenado à 15 anos em um campo de trabalhos forçados.

O quarto do hotel era simples, havia uma TV com programação local em coreano e alguns programas/notícias da BBC gravados em loop. Também podíamos utilizar o telefone se quiséssemos, mas decidimos por não o usar em momento algum durante a viagem. Não se sabia se havia escutas no quarto, mas o telefone certamente era grampeado. Durante a nossa estadia conhecemos um jornalista francês, que estava ali como turista a fim de colher informações para escrever um artigo. Ele comentou conosco algo bastante interessante, durante uma ligação para a França que já durava cerca de 10 minutos, ele teve a chamada interrompida por barulhos estranhos e um homem falando coreano simplesmente desligou a chamada. Nossa primeira noite no hotel foi um pouco tensa, mas tudo correu bem depois de um jantar com muitas comidinhas esquisitas e regado a muita Ponghak que é uma marca de cerveja Norte Coreana.

O café da manhã é um evento que costumo apreciar com calma e muito prazer quando hospedada em um bom hotel, e certamente esse não seria o caso do Yanggakdo. Ao nos sentarmos na área reservada para o café da manhã, percebemos que só havia café e torradas disponíveis aos hóspedes. Perguntei à uma funcionária do hotel se poderia pegar um pouco dos cereais que vi em uma caixa fechada ao lado do balcão onde estavam as torradas, e então fui informada de que aquilo pertencia a um hóspede chinês. Nesse momento nos arrependemos amargamente de não ter seguido as recomendações da agência sobre levar alguma comida. A única coisa comestível que tínhamos na mala eram duas barras de chocolate, que a partir daquele momento seriam racionadas com bastante esmero.

1º Dia

The International Friendship Exhibition

Após o café da manhã, muito excitados e ainda famintos, nos encontramos com os nossos guias e partimos para o nosso primeiro dia de exploração.

Nossa primeira visita seria o The International Friendship Exhibition, localizado no Mount Myohyangsan, que fica a cerca de duas horas de carro de Pyongyang. Esse foi o primeiro momento da viagem no qual realmente passamos algum tempo sozinhos com os nossos guias, posso dizer que a experiência foi estranha. Apesar de serem extremamente educados e terem um status social acima ao da maioria do resto da população do país, os guias não tinham a menor ideia de como se relacionar ou mesmo conversar conosco, coisa que não é de se estranhar, já que o acesso a informações sobre o que se passa fora do país é limitado e sempre controlado pelo governo.

Não é fácil lidar com pessoas que vivem em um mundo à parte, com zero referências culturais sobre outras nações e ainda com o agravante de termos que controlar e limitar tudo o que dizíamos a eles. Por sorte podíamos falar em português entre nós dois, imagino que se tivéssemos que nos comunicar em inglês o tempo todo de forma que eles pudessem entender absolutamente tudo o que dizíamos, a viagem teria sido muito mais estressante. Os guias e o motorista conversavam entre si em coreano frequentemente, de vez em quando riam como se estivessem contando piadas ou coisa parecida, e por algumas vezes cheguei até a imaginar que estivessem rindo de nós dois.

Nas ruas quase não havia carros ou pessoas, mas havia agentes de trânsito femininas, que são uma atração para os turistas, controlando um tráfego de veículos quase inexistente. Essas agentes de trânsito normalmente são moças muito bonitas sempre vestidas com uniforme impecável, que varia de cores e estilos conforme o clima e estações do ano. Na saída da cidade, a estrada quase sempre vazia e silenciosa, seguiria com cenário rural até o nosso destino.

Durante a viagem, aproveitamos para entregar os presentes que a agência nos disse que deveríamos levar para os guias, normalmente cigarros para os homens e maquiagem para as mulheres. Os cigarros fizeram sucesso com os rapazes, já a maquiagem que levei nem tanto, era um estojo de sombras Maybelline e a Srta. Kim certamente estava esperando receber algo de uma grife mais luxuosa. A expressão amarela de desapontamento que recebi dela me acompanhou mentalmente até o final da viagem.

O International Friendship Exhibition é um prédio que funciona basicamente como um museu e lembra muito um bunker, apesar da fachada parecer ser feita de madeira, o prédio é construído todo em concreto e não possui janelas exteriores. A luz, umidade e temperatura são controlados eletronicamente. Parte do prédio fica dentro de uma montanha, e é lá que a galeria que abriga os itens mais importantes da exibição. Existem guardas por todo o ambiente e não é permitido fotografar nenhum dos itens da coleção, que é basicamente composta por presentes que o Kim Jong-IL recebeu de governantes de outros países e de personalidades históricas e famosas no decorrer de sua vida. Esses presentes variam entre itens comuns até os mais bizarros, e na coleção estão presentes desde um jacaré embalsamado carregando uma bandeja com taças de vinho até uma bola de futebol assinada pelo Pelé.

Após à visita ao museu, fomos a um templo budista localizado nos arredores para então retornar à Pyongyang. No caminho, paramos para almoçar em um lugar que parecia mais a casa de um cidadão local do que um restaurante, lá nos colocaram em uma sala onde havia somente uma mesa redonda e só entraram para nos servir o almoço, que consumimos a portas fechadas. As refeições, até então, haviam sido basicamente constituídas de arroz e vegetais feitos à moda coreana de diversas formas distintas. Nesse restaurante nos serviram algo parecido com carne bovina, mas extremamente dura e gordurosa, coisa que não nos atrevemos a experimentar, sabíamos que existe o consumo de carne de cães em diversos países da Ásia, então preferimos não experimentar a iguaria.

No mesmo dia fomos levados para visitar a pequena vila de Mangyongdae, local de nascimento de Kim Il-Sung, o campo de tiro Meari, o Changgwangwon Health complex, um complexo similar a um spa onde existem saunas, serviços de massagem, uma piscina olímpica, barbeiros e cabeleireiros e o metrô de Pyongyang. Transitamos entre seis estações, que são muito similares as estações de metrô de Moscou. O metrô é muito utilizado pela população local e é todo decorado com mosaicos, a sensação que você tem é a de estar voltando no tempo, direto para a União Soviética dos anos 50.

Ao finalizar a visita ao metrô, seríamos levados de volta ao hotel para o jantar e depois iríamos visitar o Kaeson Youth Park, um parque de diversões localizado em Pyongyang.

Foi a caminho do parque de diversões que eu me apercebi da escuridão que dominava a cidade. Pouquíssimas e fracas luzes estão presentes na noite, e as únicas coisas que se destacavam na escuridão eram os monumentos importantes.

Em meio às sombras, um show de luzes: o Kaeson Youth Park, que naquela noite estava bem cheio. Esse foi o primeiro local onde pudemos ver a população local em massa de uma forma mais próxima, mas para nosso desapontamento nenhum deles falava inglês, logo não foi possível interagir com eles. A grande maioria nos olhava com curiosidade, enquanto alguns outros não pareciam muito receptivos a nossa presença. No início não planejávamos andar em qualquer um dos brinquedos. Montanha russa em Pyongyang? A ideia não nos pareceu muito boa. Tentamos nos esquivar dando a desculpa da fila super longa, mas como éramos turistas, fomos colocados na frente da fila. Conseguimos trocar a montanha russa por um brinquedo giratório menos radical, e assim encaramos a experiência, que foi inesquecível enquanto durou, sarcasticamente falando.

Nesse momento eu já estava começando a me sentir desconfortável com a presença incessante da Srta. Kim, que me acompanhava até nas minhas idas ao banheiro. As perguntas que ela passou a me fazer enquanto estávamos sozinhas me provocavam um misto de sentimentos desagradáveis, já que eu me esquivava de dar todo e qualquer tipo de resposta que pudesse criar um clima desconfortável ou mesmo ofendê-la,mesmo que de forma não intencional. Ela era completamente desprovida de tato social e me fazia perguntas pessoais e muitas vezes inadequadas. Uma das perguntas que ela me fez foi: Por que você é assim tão magra? Ela também era magra, mas culturalmente falando, na Coréia do Norte a obesidade é considerada um sinal de riqueza e de status social. Como ela havia assumido que eu pertencia à uma realidade privilegiada se comparada à dela, simplesmente ela não entendia muito bem por que eu não esbanjava alguns quilinhos a mais. Inclusive, qualquer turista com algum sobrepeso torna-se facilmente o centro das atenções, já que por motivos óbvios são raras as pessoas sofrendo com problemas de obesidade por lá. Quando a Sta. Kim decidia por iniciar com seus interrogatórios aleatórios, eu me fazia de estúpida e desconversava, tentando esconder o meu constrangimento.

Nosso primeiro dia, apesar de tudo, correu de forma tranquila, sem grandes conversas com os guias que tentavam nos convencer de que a população local era muito feliz e estava muito satisfeita com o governo, de como Pyongyang é uma cidade incrível, de que todas as informações negativas propagadas pela mídia internacional sobre a Coréia do Norte são falsas e manipuladas pelos EUA, que teria grande interesse em impedir a reunificação das Coreias por motivos políticos.

2° Dia

USS Pueblo

Durante o nosso segundo dia de visitas, passamos pelo Paradise Department Store, uma pequena galeria que vende produtos importados básicos que você encontra em qualquer supermercado no ocidente pelo preço de um produto de luxo, e de lá seguimos para o USS Pueblo, um navio espião americano capturado em 1968 durante a guerra fria. O navio está aportado em Pyongyang, e durante a sua visita ao navio você é obrigado a assistir a um vídeo sobre como os imperialistas americanos são terríveis, sobre como o Japão é terrível, e sobre como esses países interferem de forma negativa para acabar com a paz norte coreana. Após assistir ao vídeo, você faz um tour pelo navio, onde te explicam como o mesmo foi capturado através do incrível ato heroico de sete oficiais norte coreanos. Me lembro de que na saída do navio encontramos alguns turistas franceses chegando, nossa troca de olhares em silêncio exibindo sorrisos contidos foi suficiente para que a Srta. Kim se aproximasse para ter certeza de que ouviria o que diríamos a eles se decidíssemos iniciar uma conversa.

Nossa próxima parada seria a Juche Tower, que foi construída para comemorar o septuagésimo aniversário de Kim Il-Sung. Na frente da torre existe um monumento com três estátuas, dois homens e uma mulher que seguram um martelo (o trabalhador), uma foice (o camponês) e uma caneta (o intelectual).

O monumento simboliza o emblema do partido dos trabalhadores coreano, que está no poder desde a fundação do país. A torre é uma referência à ideologia Juche, que é descrita pelo governo como uma “brilhante e revolucionária contribuição de Kim Il -Sung para o pensamento nacional e internacional. O princípio da ideologia Juche é o de que: O homem é o mestre do seu destino, de que as massas devem agir como mestres da revolução e da construção e que sendo capaz de tornar-se autossuficiente e forte, uma nação pode alcançar o verdadeiro socialismo.

A próxima visita seria o Kumsusan Memorial Palace, o mausoléu de Kim Il-Sung. Lá é proibido fotografar e é necessário usar roupas formais para ter acesso ao prédio, gravata para os homens e vestido/saia para mulheres. O corpo embalsamado do Grande líder Kim Jong-Il é mantido em um caixão de vidro em frente ao qual os visitantes precisam prestar reverência por 3 vezes, ao lado de cada um dos braços e aos pés do mesmo (hoje o corpo de Kim Jong-Il, que também foi embalsamado e que ainda era vivo na época de minha visita, está exposto ao lado de seu pai no mesmo local).

Ao finalizar nossa visita ao Kumsusan Memorial Palace, seguimos para a famosa Kim Il -Sung Square, onde fomos parados por um policial que por algum motivo não gostou de nos ver fotografando naquele local. A Srta. Kim nos levou rapidamente de volta ao carro, enquanto o Sr. Kim ficou conversando com o policial por alguns minutos. Dentro do carro nós esperávamos bem tensos pela volta do Sr. Kim, que visivelmente tentava acalmar o oficial. Quando o Sr. Kim voltou ao carro, perguntamos qual havia sido o problema, mas ambos os guias desconversaram dizendo que se tratava de algum problema relacionado com o local no qual havíamos estacionado o carro.

Seguimos com nossas visitas passando pelo Monument to Party Foundation e pelo Golden Lane Bowling Alley, onde os guias pareciam estar tendo o melhor momento de suas vidas jogando boliche conosco. Naquela altura da viagem, já havíamos percebido que eles aproveitavam ao máximo todas as experiências que podiam dividir conosco, pois era evidente que eles não tinham acesso àqueles lugares com frequência. Durante o jogo de boliche, meu marido foi ao banheiro, como sempre acompanhado do Sr. Kim. Mais tarde meu marido me disse que enquanto estavam sozinhos, o Sr. Kim tentou perguntar coisas como o que estava se passando em alguns lugares do mundo naquele momento, o que outros países diziam e pensavam sobre a Coréia do Norte, como certas coisas funcionavam fora de lá etc. Obviamente meu marido se fez de estúpido e desconversou. Outra coisa que já havia ficado bastante clara sobre os guias é que eles não estavam ali somente para nos vigiar, mas também para vigiar um ao outro durante as interações conosco.

No final do dia seguiríamos para Kaeson, uma cidade localizada no Sul da Coréia do Norte e que chegou a ser a capital da Coréia durante o período Taebong e da subsequente dinastia Goryeo. Kaeson fica localizada próxima à fronteira com a Coréia do Sul e a uma curta distância do DMZ (Zona Desmilitarizada), que visitaríamos na manhã do próximo dia.

Na estrada a caminho de Kaeson praticamente não havia outros carros e foram pouquíssimas as vezes nas quais vimos pessoas andando na beira da estrada, que em sua grande maioria apresentava um cenário rural. Ficaríamos hospedados em um pequeno hotel tradicional coreano, onde dormiríamos no chão, que é aquecido por um sistema tradicional coreano chamado Ondol. Nesse sistema, que se acredita ter se originado na era do bronze, o calor gerado pelos fogões das cozinhas é redirecionado para aquecer os ambientes, e teríamos que lidar com prováveis interrupções no sistema de fornecimento elétrico. Também não havia água quente no hotel, então nada de banho no dia seguinte.

Ao chegar no hotel, convidamos os guias para jantarem conosco em uma tentativa de cordialidade. Até então, os dois não haviam feito nenhuma refeição conosco, então durante o jantar eles se deixaram relaxar um pouco. Aquele foi o único jantar que consideramos saboroso e que realmente aproveitamos durante a nossa viagem: um frango assado com arroz e batatas.

Depois de algumas cervejas e de muita conversa sobre tópicos insignificantes, a Srta. Kim me fez a pergunta mais bizarra, inadequada e aleatória que alguém poderia fazer durante um jantar daquele tipo e naquela situação específica: Qual é o seu tipo sanguíneo?

Eu senti um arrepio pelo corpo, enquanto no mesmo segundo o meu marido me dava um super apertão no joelho por debaixo da mesa. Sem olhar para o lado, dei um sorriso amarelo e disse à Srta. Kim que não tinha ideia de qual era meu tipo sanguíneo. Respirei fundo e encontrei algum outro tópico inútil e prossegui com a conversa com o intuito de evitar um longo silêncio que seria bastante constrangedor. Naquele momento eu não pude deixar de pensar em uma reportagem que eu e meu marido havíamos assistido antes da viagem.

A reportagem falava sobre o sequestro de cidadãos japoneses para serem utilizados no programa de espionagem norte coreano. Diversos cidadãos japoneses foram sequestrados com o intuito de ajudar na formação de espiões, e em algumas vezes esses espiões utilizavam-se da identidade dessas pessoas para criarem passaportes falsos com o intuito de entrar no Japão. A reportagem falava sobre o cuidado em utilizar sempre pessoas com o mesmo tipo sanguíneo e similaridades na figura corporal. Se eu fosse japonesa ou tivesse traços asiáticos, certamente teria passado essa noite apavorada.

Ali no meio do nada, sem energia elétrica, sem documentos ou qualquer possibilidade de contato com o resto do mundo, eu só podia agradecer pela cerveja, que por sinal era excelente e pelo Soju, um drink coreano que lembra vodka, mas um pouco mais suave. O Soju pode ser feito com diversos sabores, mas na Coréia do Norte normalmente são feitos com Pinho ou Bolota de Carvalho.

3° Dia

DMZ – Visão do lado Sul p/ o lado Norte.

Após o café da manhã, café preto com torrada e um pedacinho de nossa barra de chocolate racionada, seguimos para nossa visita ao DMZ.

A Zona Desmilitarizada é considerada por muitos um dos lugares mais tensos do mundo. A área abrange um trecho de cerca de 250 quilômetros de extensão e cerca de 4 quilômetros de largura, e é nesse território que está localizado o ponto de encontro chamado Joint Security Area (JSA), comumente chamado de Panmunjom, ou aldeia da trégua em português. O JSA é o único ponto do DMZ onde as forças do norte e do sul ficam frente a frente e o local é utilizado pelos dois países para fins de negociações diplomáticas. Nessa área existe uma linha de concreto demarcando a fronteira entre os dois países e pequenos prédios pintados de azul que funcionam como salas de conferência altamente vigiados por guardas de ambos os lados.

Do lado Norte Coreano é possível visualizar o Freedom House, prédio localizado do lado Sul Coreano, que é equipado com diversas câmeras de vigilância e conta com a presença de muitos soldados americanos. Eu tive a chance de visitar o JSA de ambos os lados e sem dúvida a experiência do lado norte coreano é MUITO mais tranquila e relaxada. Do lado norte coreano, eu tive acesso à sala de convenções onde você pode se mover e efetivamente “cruzar” a fronteira enquanto dentro do prédio, coisa que não me foi permitido fazer quando realizei a visita do lado sul coreano. Na visita pelo lado sul da fronteira é necessário que você assine formulários sobre aceitar os riscos de segurança de sua visita e você também receberá instruções sobre como se comportar: nunca aponte para os soldados do lado norte, não tente fotografá-los, não olhe diretamente ou tente qualquer tipo de comunicação com eles. Em uma visita que dura apenas cerca de 2 minutos, não há muita liberdade para se mover pelo local.

Na visita pelo lado norte, você tem liberdade para permanecer no JSA por um longo período e não se importam tanto com o seu comportamento em relação aos guardas do lado sul. Definitivamente a visita ao JSA é um dos pontos mais altos da viagem, principalmente se você realiza a visita pelo lado norte.

De volta à Pyongyang, ainda visitaríamos o The Victorious Fatherland Liberation War Museum, que é um dos museus mais famosos de Pyongyang e retrata os esforços militares da Coréia do Norte contra as forças japonesas, e mais tarde, contra os americanos.

O museu possui uma ampla variedade de equipamentos militares, armas e veículos, incluindo aviões americanos. Lá você é acompanhado de uma guia vestida com uniforme militar e que permanece ao seu lado dando explicações durante toda a sua visita. Só é possível fotografar áreas específicas do museu, e na maior parte do seu tour a guia critica fortemente o governo dos EUA, que teria sido diretamente responsável pelo início da guerra da Coréia nos anos 50, como parte de um plano estratégico muito maior visando a dominação global pós Segunda Guerra Mundial. A população norte coreana consome unicamente propagandas e informações que o governo produz, e é difícil dizer se eles realmente acreditam nas afirmações que são obrigados a dar aos visitantes.

Curiosidades Norte Coreanas

Inclusive, existem tópicos bastante polêmicos e sensíveis sobre Kim Jong-Il, que ao serem abordados exigem que você se cale e ouça roboticamente incrédulo, sem sequer esboçar um mínimo sinal de riso:

1 – Kim Jong-Il teria nascido em uma cabana de madeira localizada em uma montanha considerada sagrada para os norte coreanos, a Baekdu Mountain. No momento de seu nascimento, uma estrela cadente teria provocado uma mudança repentina no clima, que teria mudado de forma abrupta do inverno para o verão, provocando um mega arco íris duplo;

2 – O Querido Líder nunca defecou, sim, é isso mesmo que você leu, de acordo com a biografia oficial emitida pelo governo, Kim Jong-Il não possuía as mesmas necessidades fisiológicas dos seres humanos comuns, então nunca defecou ou urinou por toda a sua vida;

3 – De acordo com um jornal local, Kim Jong-Il teria inventado o hamburguer, que nomeou como “pão duplo com carne” e até criou uma fábrica para produção de hamburgueres em massa;

4 – Kim Jong-Il teria inventado a cura para o nanismo, mas na realidade a “vacina” milagrosa tratava-se da deportação,ou castração, de pessoas afetadas por essa condição para ilhas desabitadas, assim seria possível eliminá-las da sociedade evitando a proliferação da deficiência de crescimento;

5 – Kim Jong-Il era um ícone fashion, a sua maneira de se vestir teria feito muito sucesso por todo o mundo;

6 – Na primeira vez em que jogou golfe, Kim Jong-Il acertou 11 buracos, o incrível feito foi confirmado por seus guarda costas, daí então decidiu que nunca mais jogaria na vida.

De acordo com notícias recentes, alguns feitos notáveis também foram realizados por Kim Jong-Un, que mantendo a tradição super-humana da família, teria aprendido a ler aos 3 anos de idade, teria vencido uma corrida de iates aos 9, e que, aos seus 37 anos de idade, é um prodígio que está à frente do único país que afirma ter inventado uma vacina efetiva para a Aids, Mers-COV e Ebola.

Após à visita ao museu, voltaríamos ao hotel para o nosso último jantar na Coréia do Norte. No dia seguinte partiríamos para Beijing logo pela manhã, e nesse momento, já alguns quilos mais magros, só pensávamos em fazer uma boa refeição acompanhada de sobremesa e coca cola.

Nosso retorno correu bem, mas confesso que o momento em que nossos passaportes nos foram devolvidos foi mágico e libertador. Mais uma viagem que chegava ao fim, mais uma aventura que nos ensinou várias e bizarras lições.

Conclusão

Muitos dos meus amigos acreditam que viajar para destinos considerados perigosos ou passar por situações desconfortáveis deve ser algo a se evitar em rotas turísticas. Eu discordo totalmente, muitas das situações mais incríveis pelas quais você vai passar nessa vida envolverão desconforto ou certos riscos. Há muito mais para se ver e fazer no mundo além de disputar lugares em filas apinhadas de turistas como normalmente acontece nas rotas tradicionais, viagens que indubitavelmente possuem o seu valor, mas que estão longe de serem as únicas opções a se considerar para se fazer uma viagem incrível.

Se eu voltaria à Coréia do Norte? Certamente que sim! Mas em uma próxima vez, eu iria durante os meses do ano no qual ocorre o fantástico festival: The Mass Games, o Arirang.

Termino o meu relato com uma citação a uma frase do autor e jornalista americano Willian Langewiesche:

“Muito de quem somos é onde estivemos.”

Texto escrito por Carolina Bottacin.

2 Comentários

  • Gostei muito de seu texto, me interesso demais pela Coréia só Norte. Senti falta de ouvir mais sua opinião… Na verdade, sinto falta de informações sobre a Coreia do Norte. Sempre penso neles e isso as vezes me tira o sono.

  • Ricardo Rodrigues

    Tia Carol é doida…!!!😳

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s