Sobreviventes, Bruce Lee e a sabedoria da inexperiência

Sexta à noite, ligo a Netflix e me deparo com “sobreviventes” na minha lista de recomendados. Lá dizia “baseado em fatos reais” como todo filme de terror, selecionei o filme imaginando ser um daqueles estilo “home invasion” para assistir comendo pizza, mas, para minha surpresa e felicidade, a pizza quase não desceu.

(O texto abaixo contém spoilers, mas vale a pena)

O filme começa sem grandes ambições, de forma até previsível. Um casal que vai fazer uma trilha, que acabam encontrando um cara estranho do nada, que faz amizade com a moça. Cria-se uma pequena tensão entre os três e você, cinéfilo experiente já conclui que alguém vai matar e alguém vai morrer. Eis que a trama dá uma reviravolta, e o casal que estava concentrado em resolver e jogar seus problemas um no outro se deparam com outros problemas.

A trilha.

Desde o início do filme existem pequenas negligências (muito comuns em quem acredita possuir experiência), desde as escolhas dos equipamentos até a confiança nas próprias habilidades que são mostradas com discrição porém, com precisão. O casal acaba entrando – por não ter um mapa à mão – em uma área de ursos, e então nós podemos apreciar um terror de qualidade.

Devo enfatizar que quem assistir esperando um filme Gore com ursos arrancando cabeças e tiroteios vai dar com os burros n´água. “Sobreviventes” trata de uma grande e comum cadeia de erros de campistas e trekkers de final de semana. Não há fugas espetaculares nem soluções irreais, só a boa, velha e intragável realidade de alguém em estado de choque.

Quando eu terminei o filme fiquei com aquela sensação de “e se fosse comigo?” e fiquei pensando e pesquisando possíveis saídas pra uma situação como essa. Claramente os erros dos personagens se concentram em uma palavra: Adaptabilidade.

Vamos esquecer por um momento o conceito darwinista e batido que todo mundo sabe que cairia como uma luva nesse filme e em dúzias de discursos motivacionais. Então vou pedir que se concentrem em outro discurso.

“Não faça um plano de luta. Essa é uma ótima maneira de perder os dentes.

[…]

Se você tentar lembrar, você vai perder! Esvazie sua mente. Seja sem forma, sem forma, como a água. Coloque a água em um copo, torna-se o copo. Coloque a água em um bule de chá, torna-se o bule de chávena. A água pode fluir ou escorrer ou escorrer ou escorrer.

Seja água meu amigo.”

O famoso discurso de Bruce Lee fala sobre adaptação para a vitória, sobre abrir a mente para novas adversidades. É um discurso bonito pra caramba! Se separarmos só essa parte, quase se torna um comercial de cerveja.

Mas o complemento dele que faz a coisa fazer sentido para o que estamos conversando:

“Como todo mundo, você procura aprender como vencer, mas nunca como perder — como aceitar a derrota. Aprender a morrer é se libertar da morte. Então, quando amanhã chegar, você precisa se livrar da sua mente ambiciosa e aprender a arte da morte.”

AGORA SIM! A protagonista com certeza deve ter assistido os filmes do Bruce Lee para sobreviver ao urso… Ao contrário do namorado, que não saiu do cabresto que o ego coloca no nosso pescoço, ela entende e aprende quais são seus limites no momento mais crítico possível. Então, ela se torna água. Se adapta e compreende que pode morrer. E esse estalo foi o necessário para que ela saísse viva da situação.

Portanto, pense em ser como água, mas lembre-se que ela também pode ser bloqueada e represada e maltratada, evaporada e faltar à beça.

Texto escrito pelo leitor Lucas Eduardo.