Três coisas que podemos aprender com “The Walking Dead”

 

Depois de acompanhar durante um bom tempo a série “The Walking Dead” da AMC eu cheguei a conclusão de que mesmo sendo um seriado de ficção pós-apocalíptica, podemos aprender algumas coisas com ele. Eu vou dizer já de cara, haverão spoilers (fatos sobre episódios) neste artigo, então você está avisado.

Autor do texto: Michael Major – Veterano do exército Canadense e sobrevivencialista.

Lições que você pode aprender com o The Walking Dead

A primeira e mais importante lição que eu encontrei é que mobilidade é um elemento chave em qualquer situação de crise. Isso é um fato que Rick Grimes e sua banda de matadores de zumbi descobriram várias e várias vezes. Não importa o quão seguro e sustentável o local atual esteja, sempre haverá a possibilidade de que alguém aparecerá para tentar tirar o lugar de você ou a força da natureza irá lhe expulsar. É por isso que ter um plano de evacuação no seu bolso sempre é uma boa ideia.

Em ambos cenários – fazenda e prisão – os sobreviventes foram forçados a fugir rapidamente. No caso da fazenda eles tinham um ponto de encontro para se reorganizarem, mas na prisão os sobreviventes se encontraram completamente desmembrados e lutando para se reunir novamente.

The Walking Dead Prison Bug Out

1. Você precisa de um plano de evacuação completo com pontos de encontro e suprimentos

Isso é algo que falta no seriado. Quando o grupo fugiu da fazenda eles se encontraram no engarrafamento de carros, mas quando fugindo da prisão todos se separaram e em nenhum dos casos havia algum suprimento extra (armas, comida ou ferramentas) que eles pudessem acessar em outro local. Perceba também que nenhum deles tinha uma mochila de fuga.

Rick e seu grupo falharam em planejar um meio de evadir rapidamente, principalmente se tivessem que fazê-lo à pé. Claro que uma saída alucinada e bagunçada fica melhor na TV, mas também serve para nos avisar que nós precisamos sempre manter o nosso plano de fuga afiado e treinado.

Tenha certeza de que seu plano foi praticado e que todos sabem a localização dos pontos de encontro e suprimentos sem precisar de mapa e bússola. Isso é importante, afinal, o que acontecerá se as pessoas que conhecem estes pontos se perderem do grupo ou forem mortas? O grupo inteiro tem que conhecer cada detalhe do plano e todas as locações envolvidas.

  • A prática é a chave, os militares mesmo dizem que “O suor no treino evita o sangue no combate”: Rick sabia que o Governador iria atacá-lo, então ele e seu grupo deveriam ter ensaiado uma maneira de evadir até que isso estivesse muito claro para todos. Mas, ao contrário, apenas alguns sobreviveram por conta da completa falta de preparação. Novamente, uma boa evasão não faz sucesso na TV, então não poderíamos esperar que fosse diferente na série;
  • Tenha mais de um lugar definido como ponto de encontro: Eu sou um grande defensor de que você só deve fugir se tiver algum lugar para ir. Apenas sair para o meio da floresta não é algo adequado! Mesmo que você não tenha um abrigo secundário permanente ter um ponto de encontro para reagrupar e se reequipar já lhe dará muito mais chances de sobreviver;
  • Esteja preparado para sobreviver “na estrada” por um período longo de tempo: Sair buscando por itens e tentando achar os suprimentos básicos em casas completamente saqueadas não é algo prático. Aqui entra a construção de uma boa Mochila de Fuga. Ter todo o kit necessário para sobreviver durante longos períodos fará sua vida na estrada muito mais fácil. Ter a habilidade de procurar comida por diversos meios é vital para que você consiga se manter em movimento.

Rick Grimes Running from Zombies

2. Tempos extremos requerem medidas extremas

Nós vimos o Rick e seu grupo enfrentar hordas de mortos vivos e também de sobreviventes. Eles enfrentaram situações que muitos de nós em casa achamos chocantes e inclusive questionamos a moralidade de algumas das ações deles.

Sobrevivência não é um jogo, não existe segundo lugar e até mesmo os melhores entre nós teremos que ajustar nossos limites morais para garantir a segurança de nossa família. Quando o Shane atirou na perna de Otin para deixá-lo para os mortos ele o fez para garantir que poderia voltar para a fazenda com suprimentos médicos para salvar a vida do Carl. Isso poderia ser considerado como um ato bárbaro e maléfico, afinal, ele deixou um homem inocente ser comido por zumbis. Ainda assim, se você estivesse enfrentando o mesmo cenário, você tomaria o caminho da moralidade ou faria o que fosse possível para garantir a vida de uma criança?

Quando nós conhecemos o “Governador” nós vimos um exemplo de como o poder corrompe. Quando as pessoas ficam sem as conveniências da vida moderna naturalmente buscam por um líder, mesmo que seja um líder sociopata. Um olhar rápido pela história mostra que a raça humana tem um péssimo histórico quando se trata de escolher quem deve seguir. Quando a sociedade colapsar não podemos esperar que todos nós vamos seguir os “caras bons” pois as pessoas vão focar em seus instintos primitivos de sobrevivência e seguirão o primeiro cara que aparecer garantindo segurança. A maioria das pessoas vai perdoar uma série de atos ruins para manter sua própria segurança, na verdade. Testemunhar brutalidades feitas pelo líder pode deixar algumas pessoas com vontade de ir embora, porém se este mesmo líder está te mantendo seguro, fingir que não viu nada e manter-se com o grupo é quase que um ato de autopreservação.

As pessoas do Terminus acabaram procurando sobreviventes desavisados para canibalizá-los. Este não é um cenário muito forçado. Durante toda a história humana o canibalismo foi praticado e utilizado como recurso em tempos onde não existiam outras alternativas. Algumas sociedades até mesmo praticavam o canibalismo como parte de sua cultura e hoje sempre temos que ter em mente de que estamos apenas à nove refeições da inanição. Em um cenário real de crise generalizada e escassez de recursos, não seria uma grande surpresa ver humanos usando deste ato novamente para garantir sua sobrevivência.

Fome, sede, desespero, raiva, frustração, falta de esperança e alienação ao sofrimento alheio irá causar um nível muito maior de barbarismo. Nós todos vamos nos reverter a um estilo mais primitivo de sobrevivência e vamos atuar de maneira mais agressiva do que o comum. Em um mundo onde a hesitação pode te matar, ninguém quer ser aquele que demonstra compaixão e piedade. Rick foi o que atirou primeiro, matando os dois homens quando havia ficado clara a intenção de que eles queriam ter a fazenda. Sua disposição para agir primeiro garantiu sua sobrevivência.

The Wolves Zombie

3. Na sobrevivência não existe tal coisa como “Lobo solitário”.

Humanos prosperam quando estão juntos e nossa natureza é sermos sociáveis. Nós precisamos de outros não apenas para que eles nos cuidem, mas também para dividir tarefas na coleta de recursos. Em nenhum momento da história o ser humano foi capaz de viver sozinho. Nós sempre formamos comunidades que se ajudavam no processo de procurar por recursos e dividi-los. Até mesmo a Michonne, que estava na estrada sozinha por um bom tempo, acabou entrando para o grupo do Rick pois há mais força em maiores números.

O seriado The Walking Dead demonstra uma série de cenários que nos mostram que existem consequências para as nossas necessidades de ficar em grupo e que nós teremos que ser muito exigentes em quem poderá fazer parte do nosso. Nós teremos que viver e trabalhar juntos com pessoas que talvez não gostemos, mas para sobreviver precisamos de habilidades multidisciplinares e uma liderança sólida.

Saber apenas a arte de tolerar e se dar bem com outros será uma grande vantagem. Evitar conflitos dentro de um grupo e ter a capacidade de resolver rapidamente quaisquer problemas de relacionamento fará a sobrevivência ficar muito mais viável.

No mundo moderno nós podemos nos desconectar daqueles que nos causam problemas, mas se esta sociedade não existir mais todos nós seremos forçados a aceitar a convivência com pessoas que não gostamos. Nós talvez tenhamos que aceitá-las pois a habilidade que elas possuem aumentam o índice de sobrevivência do resto do grupo, inclusive.

No seriado nós já vimos várias vezes as pessoas que causavam problemas ou que tinham padrões morais diferentes do resto do grupo. É aqui onde entra a vantagem de ter um líder forte e respeitado. Apenas uma pessoa forte e paciente para resolver os conflitos inevitáveis poderá segurar um grupo junto. Nós vemos isso principalmente nas primeiras temporadas onde o Rick tem que lidar com o Shane conflitando com a filosofia do grupo constantemente.

Rick Grimes holding gun

Ser capaz de liderar será um fator decisivo na sobrevivência. Nós vimos o Rick evoluir como líder e vimos também o exemplo pobre de liderança do Governador. A dedicação para com sua família e com o restante do grupo faz com que ele seja um bom líder, mas faz ele pagar um preço alto sacrificando seu senso de moralidade para manter a sobrevivência das pessoas próximas a ele. Ele é respeitado pelos seus seguidores e estes seguem suas ordens sem contestar. O nível de confiança que o grupo colocou nele é um grande exemplo de como um grupo de agir e ser liderado.

Texto traduzido e adaptado do blog Off Grid Survival.

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18 comentários

  • O que é alienação ao sofrimento alheio? No último parágrafo do segundo tópico. Alguém poderia me explicar

    • Scotty iang

      Seria vc naturalizar o sofrimento do outro.

  • Matheus Schuler Zang

    a serie nos ensina que devemos estar preparados pra qualquer coisa,nao confiar muito nas pessoas,escolher bem as pessoas do grupo,nao depender sempre dos outros,ter cuidado com os humanos para nao acabar sendo morto,ter sempre um plano B ou um plano C,ter ser uma outra rota de fuga se caso a primeira falhar,nao fazer MUITO BARULHO EM LUGARES DE MUITO ECO COMO UMA CASA,ter muitas armas e o mais importante SABER TOMAR BOAS ESCOLHAS PARA SOBREVIVER ATE O FINAL.

  • Murilo Almeida

    Muito bom texto… Subtraiu a realidade da ficção… Parabéns…

    A algum tempo atrás eu postei um comentário sobre o APOCALIPSE ZUMBI… Embora, é claro, que não acredito na imagem Hollywoodiana para isso, mas é fato, com tantas armas biológicas e químicas escondidas por ai, um acidente ou não, poderia desencadear uma situação onde o APOCALIPSE ZUMBI pudesse acontecer…

    De forma geral, na minha humilde concepção, o sobrevivencialista deve sempre se antever de situações óbvias e comuns, possíveis ou não de acontecer, tendo sempre um plano “B” e um plano “C”… Mas o sobrevivencialista deve também supor casos extremos, preparando para os víeis e tecendo os planos “Z”, “W” e “Y”, mas sem virar o “RAMBO”…

  • ótimo artigo, obrigado por postar…

  • Com o passar do tempo o menor dos problemas são os zumbis, o verdadeiro problema são as pessoas que sobreviveram, que irão querer tomar o que é seu ou do seu grupo. (você pode trocar zumbis por qualquer coisa em uma situação real e verá que o problema será o mesmo no final)

    • Murilo Almeida

      O problema de quase tudo começa e acaba nas pessoas, infelizmente… Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII, disse: “Homo homini lupus” (o homem é o lobo do homem)…

  • Belo post, muito interessante e para aqueles que acham que situações extremas como canibalismo, são pouco prováveis lembrem-se da história de um time de hugby, cujo avião caiu nas montanhas ou aquele pescador mexicano que passou 9 messes no mar, disse que seu parceiro morreu por não beber urina, sabe-se lá se ele desperdiçou toda aquela carne.

  • Acompanhei alguns episódios porque gosto de filmes do gênero (“apocalipse zumbi” ou invasão alienígena). Mas como interterimento apenas, pois poucas lições podem ser tiradas em filmes basicamente restritos aos efeitos especiais de computação! “2012” perdeu a oportunidade de ser um “manual de sobrevivência” ante à cataclismas, pois optou pelo excesso de “malabarismos” do protagonista, ainda tem o roteiro viciado dos filmes americanos onde o protagonista tem acesso a recursos inusitados (ou é perito em algo)como o bilionário dono de avião que ainda por cima tem acesso às embarcações de salvamento, etc.
    Minha “inspiração” tem vindo do “Largados e Pelados” – A tribo. hahaha
    Todo reality é meio duvidoso, mas é bom ver grupos humanos em situação de extrema necessidade; observar os tipos psicológicos, a resistência e resiliência pessoais, capacidade de colaborar com o grupo, etc.
    Tem outros programas semelhantes também válidos, pois observamos que algumas pessoas, mesmo voluntárias ao desafio, logo entram em “parafuso” nos programas, mesmo sabendo que tem dias contados para terminar e ao lado tem a equipe de produção pronto a socorrê-los.

  • vlw pela tradução Júlio!!

    o pessoal dos comentários tbm apresentaram varios pontos que complementam muito bem o texto.

    penso que na série falta uma estratégia de guerrilha para a proteção do local onde se encontram. seja por meio de armadilhas ou demais técnicas combate para retardar ou ate mesmo pq nao (kkkkk) aniquilar a presença de um invasor.

    nao concordo plenamente no texto acima apenas no item 2. Tenho em mente que tempos em tempos extremos necessitam de medidas extremas… mas canibalismo é demais (o autor não mencionou essa alternativa)!!! se chegar a esse ponto, como diz aquele ditado russo ” é melhor um buraco na cabeça”

    Att

    • Mas isso é o SEU ponto de vista, seu limite moral e ético. Qual o limite das outras pessoas ?

  • SPOILER!!
    Outras lições que dá pra tirar são: independente de quão seguro e forte seu grupo esteja, sempre vai ter alguém melhor, na quarta temporada eles estavam numa prisão cercada, com muitas armas e gente que sabia usar, e de repente surgiu um grupo no seu portão com dois reféns, mais pessoas, mais armas e a porra de um tanque. Outra é que por mais equipamentos, comida e treinamento que você tenha, se você ficar doente e não tiver remédios já era, o grupo foi devastado na quarta temporada por uma doença e ainda teve que lidar com os mortos que se transformaram. Última mas não menos importante: não deixe problema pra depois: o Governador voltou pra atacar eles, Gareth voltou também, os lobos que o Morgan não matou quase mataram o Rick e impediram que ele afastasse os zumbis da comunidade, o que deu uma merda enorme e o Lobo que ele não matou e deixou trancado em uma casa não matou ele porque não quis e ainda fez uma refém.

    • O Morgan (moreninho da primeira temporada) queria matar o cara que tinha uma cabra (episódio: clean 6temp), ele o ajudou e depois morreu porque ele teve outro ataque de loucura. No futuro ele ainda deixa de matar um Wolf que mais tarde invade o forte, além de ele não ter matado sua mulher que anteriormente mata seu filho; só complementado.

  • Já havia pensado alguma coisa a respeito de TWD e sobrevivencialismo, mesmo o cenário sendo improvável (apocalipse zumbi não vai rolar, por mais que alguns doidos chorem por eu acabar com a ilusão deles), as situações são extremamente reais e possíveis de serem encontradas em um cenário de crise. Busca por recursos, busca por um simples lugar para poder passar a noite, fuga, muita fuga, não saber em quem confiar, ter que matar alguém, para não ser morto, ter que lidar com diferentes pessoas e diferentes interesses. Enfim, uma infinidade de situações que o seriado apresente e que em muitos momentos deixa até a “fator zumbi” irrelevante dentro do enredo.

  • Julio, você poderia fazer um post dedicado somente a liderança não ?
    Como melhorar a liderança, agir e etc.
    E você poderia citar outros líderes mesmo que da ficção para as pessoas se inspirarem, terem uma base de como agir, o que acha ?

  • Menos rsrsrsr

  • The Walking Dead também ensina a mesma máxima do Zumbilândia: MANTENHA O CARDIO EM DIA!
    Não importa o cenário. Em algum momento você vai precisar correr, e muito, e rápido!!! A base da preparação física do sobrevivencialista é a capacidade de se deslocar rápido e durante muito tempo!

    • verdade cara, o que não falta é sobrevivencialista com mochilas de 15Kg que não aguentam correr nem um quilômetro, e como tu disse, uma hora vai precisar correr como se sua vida dependesse disso, porque provavelmente ela vai.

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