SHTF School: O poder da mídia

No mundo de hoje é fácil ser enganado e pensar que toda a mídia nos ajuda e nos apoia para ficarmos atualizados, para deixar a vida mais fácil ou seja lá o que for. Cerca de vinte anos atrás, eu estava sentado em um abrigo improvisado do lado da rua, atrás de um caminhão de lixo que capotou e estava cheio de buracos de bala. Eu estava esperando pela noite para continuar.

Eu não estava sozinho, eu meu amigo e mais três caras dividíamos uma pedaço de cobertura que nos protegia dos atiradores inimigos. Eu conhecia um deles, mas não significava nada. Quando o tiroteio começou nós todos pulamos ao mesmo tempo. Depois de alguns minutos concordamos que dividiríamos aquele espaço até a noite.

Cerca de meia hora depois um deles puxa de sua mochila um pequeno rádio FM, algo como aqueles rádios de plástico usados pelas pessoas que sentam em suas varandas. 

Na verdade parecia que ele puxou de sua mochila um pacote marrom junto com o rádio. Este era uma espécie de bateria caseira, feita de baterias diferentes eu acho, duas vezes maiores que o rádio. De qualquer maneira era algo valioso e importante para se ter naquele tempo.

Nós todos olhamos para aquela “máquina” como um bando de homens da caverna fariam. Era uma porta de entrada para informação, informação real, não apenas rumores e boatos de mortes horríveis, ao menos era nossa esperança. Ele ligou aquilo e tudo o que pôde encontrar era uma rádio FM de outro país, perto em termos de distância e ao mesmo tempo a muitos anos luz de nós. Nós estávamos ouvindo alguma música bem baixinho e então as notícias vieram.

Nós estávamos ouvindo como o alto falante falava sobre eventos em nossa região, era algo como “e as batalhas ainda continuam…” e era isso.

Depois disso houveram longas conversas sobre algum concurso de música e um cara estava sendo entrevistado. Ele falava sobre seus problemas terríveis em achar as roupas corretas para a cena do filme, depois falava sobre seu medo de palco… E então o rádio para de funcionar. O cara grandão que era dono do rádio comicamente diz ” que se ferre, parece que as baterias precisam de um descanso”.

O resto de nós estávamos quietos, mas eu tenho certeza que pensávamos quase a mesma coisa. Aqui estamos, uns caras em farrapos, um tinha uma espécie de uniforme feito de outros três uniformes, alguns tinham armas, o outro tinha um chapéu de pesca na cabeça… Como se fosse uma paródia.

Um cara mastigava algo, eu não acho que era comida, ele estava mastigando aquilo por muito tempo. Como se estivesse tentando mascar um pedaço de sola de tênis. O outro tinha um tênis diferente em cada pé, provavelmente resultado dos saques no shopping durante os primeiros dias. Provavelmente todos nós tivemos no máximo uma refeição nas últimas 24 horas. Estávamos escondidos atrás de um caminhão de lixo destruído esperando pela noite enquanto outro cara do outro lado esperava que nossas cabeças aparecessem para poder atirar na gente. Ele provavelmente estava faminto e parecendo estranho assim como nós.

Ao mesmo tempo a algumas horas de carro dali os maiores problemas era como um cara provavelmente engraçado estava com medo de uma cena de cinema, um fim do mundo em termos de escolher as roupas certas para aquela mesma cena e sua performance musical.

Eu tive momentos muito mais perigosos antes e depois deste evento, mas de alguma forma, naquele momento, eu cheguei ao fundo do poço. Simplesmente ninguém se importava conosco, não éramos novidade mais. Nos abandonaram. “A batalha continua…”

Alguns meses atrás essa mesma mídia estava gritando “problemas na região, há medo de pessoas serem machucadas, nós precisamos defender, nós precisamos atacar, a liberdade não tem preço, nós vamos prevalecer, mudanças democráticas, nós temos o direito…”. Líderes de todos os lados estavam francamente anunciando uma nova era de democracia enquanto no fundo eles se preparavam para fugir. A mídia ajuda o povo a formar opiniões, fazer coisas, fazer coisas acontecerem. E quando tudo isso já foi colocado em movimento você simplesmente não é notícia mais.

O mesmo locutor de rádio gritava “proteja nossos direitos” e “não tema”. E então esse mesmo cara disse que era impossível a guerra acontecer pois “nós temos líderes que vão encontrar uma solução” sendo que esses líderes estavam deixando a área ou saqueando para lucrar no futuro mercado negro.

Depois nós descobrimos que esses mesmos líderes mandavam na mídia.

Quando a crise começou, logo  quando “dia rotineiro” era a mesma coisa que matar, violência e etc, a mídia cobria as coisas mais excitantes, pois é esse o trabalho deles. Isso é assim para todas mídias, é a mesma que fala que o colapso pode ocorrer amanhã, depois fala que será daqui uma semana, depois um mês depois.

A mídia popular diz que tudo está bem, que os políticos vão tomar conta de você e uma mídia alternativa continua promovendo que tudo está ruim, o colapso vai acontecer bem rapidamente. Eles também precisam manter as pessoas interessadas. Todos fazem uma espécie de teatro para manter as pessoas interessadas.

A lição que eu aprendi é que não se pode confiar muito nas notícias. Esteja preparado, mas não assustado o tempo todo achando que a crise ocorrerá amanhã. É por isso que você se prepara, para não se preocupar tanto. Só apenas monitore os eventos, mas esqueça das “partes com opinião”. Olhe a história do repórter se você planeja confiar em alguém. Ele já descobriu “grandes escândalos” mas que eram grandes somente para ele? Se for, esqueça. Ele ou a empresa em que trabalha só quer atenção. Esse tipo de mídia sensacionalista só quer segurar sua atenção, mas não informá-lo.

Alguns dias atrás eu estava checando uma página na internet sobre “eventos mundiais durante os anos”. Eu chequei o ano em que eu estou escrevendo aqui e haviam muitos “eventos importantes” naquele tempo. Eu encontrei dois eventos pouco conectados com a minha região, de muitos. Um era sobre uma demonstração política, outro sobre um acordo. A maioria era falado de forma mais geral, mas nem perto da minha cidade.

Nada sobre pessoas em trapos lutando por suas vidas, comendo grama em água fervida, pegando chuva, tomando lama algumas vezes.

A mídia mostrou a gente de uma forma. E então, ela nos esqueceu, nós não éramos usáveis mais, nós simplesmente deixamos de existir. Eu entendo isso, os mesmos caras lutando na mesma cidade… É importante que a mídia mostre as novidades e não o que realmente está acontecendo.

Por anos eu raramente assisti TV ou ouvi ao rádio. Não sigo shows famosos, minhas opiniões não são formadas por atores, cantores, atletas ou idiotas que são famosos por uma ou outra razão.

Se eu encontrar algo específico que quero checar eu vou e vejo, mas não quero ser puxado pela máquina de formação de opinião da mídia. Eu leio o mesmo artigo em diferentes locais e tento encontrar pessoas que estão no Twitter que estão no local do evento.

Como sobrevivencialista e preparador você precisa da informação mais precisa para fazer decisões e saber o que realmente está acontecendo, fatos da sua vizinhança ou cidade são muito mais importante do que um cara atirando em outro a centenas de quilômetros. A mídia sempre precisa de drama e apresenta as coisas da forma mais interessante possível para o público.

Todas as vezes que eu ouço no rádio ou TV algo como “notícias chocantes” ou “a batalha começou” eu imagino caras em alguns meses se escondendo em um lugar sujo, enquanto ninguém se importa com eles pois há uma estrela nova com um belo traseiro e, na maior cidade ou numa vila pequena,  ou mesmo em algum lugar onde a energia elétrica é novidade, eles a conhecem. Mantenha a massa estúpida entretida.

O ponto é que quando uma crise ocorre você está sozinho com o que você se preparou e aprendeu. Não espere que a mídia pinte a situação real, eles estão ali pela novidade. Depois das notícias iniciais e até alguma ajuda de fora da sua área (por ela estar no holofote) você é deixado sozinho. Não se surpreenda quando você for esquecido.

É por isso que nós aprendemos a tomar conta de nós mesmos.

Traduzido do blog SHTF School