RELATO: O NOSSO 2° DESAFIO DE EVASÃO

Inspirado por vídeos que assisti no canal do Sobrevivencialismo e motivado por uma curiosidade interna sobre meus próprios limites, decidi, alguns anos atrás, realizar um desafio de evasão. Sempre quis saber até onde eu era capaz de ir, tanto física quanto mentalmente, e essa experiência parecia perfeita para colocar minhas habilidades à prova. Após aquele primeiro desafio, percebi o quanto ele era enriquecedor e, desde então, não conseguimos mais parar. Além de ser uma atividade empolgante, o desafio de evasão se provou um excelente exercício, testando e desenvolvendo competências essenciais como estratégia, resistência, planejamento e improviso.

Minha esposa e eu planejamos essa experiência cuidadosamente. Embora não sejamos sedentários e tenhamos um histórico de corridas variadas, além de uma rotina regular de academia com musculação para fortalecimento e exercícios de calistenia, enfrentar uma longa caminhada carregando recursos nas costas seria um desafio novo para nós. A história que decidi compartilhar é do nosso último desafio, que escolhi justamente por estar mais fresca na memória.

Escolhemos uma data que não interferisse no trabalho, para termos tempo adequado de descanso antes e depois do desafio. Planejamos também o horário: queríamos evitar o sol forte, então optamos por um período mais ameno, o que tornaria o trajeto menos exaustivo. Escolhemos um ambiente bem arborizado, favorecendo uma melhor qualidade do ar, e que fosse pouco movimentado. Encontramos uma estrada paralela que atendia a esses critérios. Como existe uma via rápida que leva ao mesmo destino, sabíamos que a maioria dos carros evitaria essa rota, o que reduziria ainda mais o tráfego. Ao mesmo tempo, não era um local completamente isolado ou de difícil acesso — caso precisássemos de resgate, ele seria possível. Informamos nossa localização a familiares e amigos para garantir segurança adicional.

Na preparação das refeições, optamos por alimentos simples e práticos, que não exigissem preparo. No entanto, também levamos um fogareiro e ingredientes para uma refeição mais elaborada, com o propósito de testar nossas habilidades de sobrevivência, que considero mais importantes do que qualquer equipamento. Nosso desafio envolvia não apenas sair dos limites do município, mas alcançar uma cachoeira que serviria como fonte de água — um objetivo que trouxe uma motivação extra. Mesmo assim, levamos toda a hidratação necessária nas mochilas, atentos às bicas d’água ao longo do caminho para reabastecer ou renovar nossa reserva, caso necessário. A cachoeira seria uma espécie de recompensa pelo esforço, assim como as refeições que planejávamos preparar ao chegar, marcando o ponto culminante de nosso percurso.

No total, percorremos 42 km, carregando entre 25 e 30 kg nas costas. Para tornar a caminhada mais equilibrada, planejamos revezar entre a mochila mais pesada e a mais leve ao longo do percurso. Essa estratégia ajudou a distribuir o esforço e tornou o desafio mais viável, considerando a longa distância e o peso significativo que levávamos.

Assim que o desafio começou, percebemos que nossa experiência anterior ajudou a aliviar alguns dos incômodos, como a dor nos pés — já tínhamos uma boa dose de calos, o que minimizou o desconforto. No entanto, o sol, mesmo não tão intenso, ainda incomodou bastante. O tédio poderia ter sido um problema, mas a sorte é que minha esposa e eu somos completamente companheiros, e não falta assunto entre nós; conseguimos conversar por horas sobre praticamente qualquer coisa, o que tornou o trajeto mais leve.

Tentamos sintonizar nosso rádio HT de vez em quando para captar alguma conversa ou música. Conseguimos pegar algumas comunicações esparsas entre pessoas em chácaras, embora fossem bem raras. Achar músicas era um pouco mais fácil, mas a qualidade nem sempre era das melhores, então preferimos nossas próprias conversas, que nos mantinham animados ao longo do percurso.

Ao longo do percurso, encontramos muitos ciclistas, além de alguns grupos de motoqueiros vestidos com aquelas roupas de proteção, acelerando nas subidas e descidas da área de serra. Nos trechos mais planos, também avistamos alguns corredores, aproveitando a tranquilidade e o desafio do trajeto. Essas cenas adicionaram uma energia extra ao ambiente, mostrando que, assim como nós, outras pessoas estavam ali para explorar seus próprios limites em diferentes atividades ao ar livre.

Embora não estivesse no nosso planejamento original, decidimos entrar em algumas lojinhas quando chegamos à pequena cidade, já de volta à civilização. Aproveitamos para comprar algumas guloseimas, como paçoquinhas e guaraviton, para repor as energias. Depois, seguimos em frente, sem parar, até finalmente chegar à cachoeira. Ao chegar lá, nos permitimos descansar e nos recompensar pelo esforço. Preparamos nossas refeições e aproveitamos aquele momento de pausa para recuperar as forças, antes de nos prepararmos para o retorno.

Esse foi o nosso terceiro desafio e mal posso esperar pelo próximo. Há várias coisas que no planejamento são impossíveis de prever, apenas vivenciando a experiência é que realmente conseguimos entender. Alguns dos principais aspectos que posso listar, por exemplo, são:

• Chocolatinhos derretem na mochila – parece óbvio, mas o calor pode fazer esses pequenos prazeres derreterem e transformarem um lanche simples em uma bagunça pegajosa. 

• As distâncias no mapa são uma coisa, mas na prática, na sola dos pés, são bem diferentes – o terreno, o cansaço e as condições do percurso podem fazer uma distância planejada parecer muito maior. 

• Não subestime os ganhos de altitude – mesmo que a subida não pareça muito íngreme no início, o ganho de altitude vai se acumulando e, no final, o cansaço é muito maior do que o esperado. 

• O sol pode ser bem imprevisível – mesmo achando que vai ter sombra em certos trechos, o sol pode se mostrar mais intenso do que você imaginou, queimando sua pele onde você menos esperava. 

• Roupa certa não existe – a escolha ideal depende do clima e do conforto pessoal, mas, no geral, quanto mais leve e funcional for sua roupa, melhor será para o desempenho. 

• Quanto mais você souber fazer com menos, melhor – sempre vai faltar algo, e isso é inevitável, mas a habilidade de improvisar e usar o que você tem à mão é fundamental para continuar a jornada. Um dos meus planos futuros é realizar um desafio de caminhada com um pernoite no meio, algo semelhante ao desafio da praia do Cassino, mas sem a adrenalina daquele momento. Minha ideia é incluir pontos de apoio ao longo do trajeto e ter pessoas vindo verificar nosso bem-estar no caminho, para garantir mais segurança e conforto. Ainda estou no processo de planejamento, mas já tenho algumas ideias de como será a experiência.

Relato escrito por Felipe, membro do portal SV.

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