A MENTALIDADE DAS HABILIDADES ANTES DOS EQUIPAMENTOS

Tenho seguido a filosofia de vida Sobrevivencialista há muitos anos, praticamente desde a minha infância. Desde que era criança, sempre me senti atraído por atividades que envolvem a natureza e o contato com o ambiente ao ar livre. Quando eu era mais jovem, já demonstrava interesse em acampar e fazer trilhas, aproveitando qualquer oportunidade para explorar esses cenários.

 Esse gosto pelo preparo e pela autossuficiência também se refletia nos meus passatempos. Mesmo nos jogos, minha preferência era sempre por aqueles que exigiam um foco maior em planejamento, estratégia e preparação cuidadosa. Nunca me identifiquei com atividades como o futebol ou outros esportes mais populares; ao invés disso, eu sempre procurei por experiências que me dessem uma sensação de controle sobre as situações, onde a antecipação e o planejamento fossem mais importantes do que a ação imediata.

Desde o início, percebi que muitas pessoas têm a ideia equivocada de que apenas possuir algo automaticamente define o que elas são. Por exemplo, acham que, por terem uma barraca, já podem se considerar campistas, mesmo que só a tenham montado uma vez na garagem e depois a tenham guardado no fundo do armário, sem nunca realmente usá-la em um ambiente natural.

O mesmo vale para outros aspectos: compram um tênis de corrida e, de imediato, se autodenominam corredores, mesmo que não tenham o hábito de correr de forma regular ou frequente. A mera posse de equipamentos ou acessórios não transforma alguém em praticante de uma atividade, especialmente quando falta o compromisso e a prática constante que realmente definem o envolvimento genuíno com aquilo.

Em nosso estilo de vida e com a forma como enxergamos o funcionamento do mundo, um Sobrevivencialista nunca deve se deixar enganar por essa narrativa superficial de que apenas “ter” algo é suficiente para dominar uma habilidade. Nossa abordagem vai muito além da posse de equipamentos; envolve o conhecimento prático e a capacidade de utilizá-los de maneira eficaz em situações reais.

Por exemplo, recentemente vi aqui no blog um excelente texto sobre a importância de incluir uma corda de confiança em nossas preparações de sobrevivência. No entanto, a questão que faço é: quantos tipos de nós você realmente sabe fazer e, mais importante, para que cada um deles é apropriado em uma situação específica? Saber fazer um nó é mais do que apenas habilidade técnica — envolve saber qual nó usar para diferentes finalidades, como segurança, ancoragem ou resgate.

E mesmo que você conheça os nós, pergunto: quanto tempo você consegue, fisicamente, se manter pendurado ou ancorado nessas cordas em uma situação de emergência? A teoria é importante, mas a prática e o condicionamento físico são cruciais. Um Sobrevivencialista de verdade deve ser capaz de aplicar na prática o que aprendeu e estar preparado para os desafios físicos que podem surgir, ao invés de se contentar com a ideia de que simplesmente “ter” os recursos ou o conhecimento teórico basta.

Ter uma boa lâmina é algo indiscutível e essencial, uma ferramenta que acompanha a humanidade há milênios. Assim como houve um marco na história do ser humano antes e depois do domínio do fogo, também existe uma transformação significativa com o desenvolvimento e o uso de objetos perfuro cortantes. Porém, possuir a melhor lâmina por si só não garante nada se você não souber como utilizá-la de maneira adequada. A verdadeira questão é: que habilidades você pode desenvolver a partir dela?

Com uma boa lâmina em mãos, você pode explorar uma série de competências que vão muito além de apenas tê-la na mochila. Por exemplo, saber abrir caminho em meio ao mato denso exige técnica e conhecimento de como usar a lâmina de maneira eficiente, sem gastar energia desnecessária ou danificar a ferramenta. Outra habilidade valiosa é o entalhe, que envolve esculpir objetos úteis como colheres, utensílios, armadilhas ou até ferramentas primitivas, que podem ser essenciais em situações de sobrevivência. Dominar essas habilidades transforma a lâmina de um simples objeto em uma verdadeira extensão das suas capacidades, e é isso que diferencia um sobrevivencialista preparado de alguém que apenas possui uma ferramenta.

Há inúmeras notícias de pessoas que, mesmo estando completamente equipadas, acabam se perdendo no topo de montanhas, muitas vezes guiadas por um coach de procedência questionável, colocando suas vidas em risco. Esses casos nos lembram que não é o equipamento que garante a segurança, mas sim o conhecimento, a preparação e a experiência em lidar com o inesperado. É impressionante como um pequeno erro de julgamento ou falta de cautela pode ter consequências fatais em ambientes extremos.

Além desses relatos de grupos guiados por pessoas despreparadas, também vemos muitos “lobos solitários” que, na busca por uma experiência intensa de conexão com a natureza, acabam se perdendo ou cometendo pequenos deslizes que lhes custam a vida. Um exemplo famoso, que a maioria conhece, é o caso do jovem Christopher McCandless, cuja história foi retratada no filme *Into the Wild*. McCandless, embora motivado por um profundo desejo de viver de forma simples e autossuficiente na natureza selvagem, subestimou os riscos e superestimou suas próprias capacidades. Ele tinha o espírito aventureiro e o equipamento básico, mas não o conhecimento necessário para sobreviver nas condições que enfrentou.

Essas histórias são lembretes poderosos de que, no estilo de vida sobrevivencialista, é essencial equilibrar o desejo por aventura com a responsabilidade de se preparar adequadamente. Conhecimento, experiência e a capacidade de reconhecer os próprios limites são, muitas vezes, mais valiosos do que qualquer equipamento moderno.

Hoje, tenho um checklist rigoroso antes de adquirir qualquer equipamento, que se concentra nas habilidades necessárias para usá-lo efetivamente. Pergunto-me:

  • – Antes de comprar uma barraca, já escolhi bons locais para montá-la?
  • – Antes de investir em uma roupa de mergulho, conheço minhas habilidades e limitações na água?
  • – Antes de adquirir cordas, sei usar nós e tenho experiência em escalada?
  • – Antes de estocar alimentos, estou familiarizado com o preparo e consumo dos alimentos que gosto?
  • – Antes de comprar luvas de boxe, tenho parceiros para treinar e aprimorar minhas técnicas de combate?
  • – Antes de adquirir um torniquete, fiz um curso de primeiros socorros e sei que, embora útil, bandagens e álcool são igualmente essenciais?

Esse processo garante que minha preparação não se limite apenas à aquisição de equipamentos, mas se concentre profundamente no desenvolvimento das habilidades essenciais para utilizá-los de maneira eficaz. Em vez de simplesmente acumular ferramentas e recursos, eu me asseguro de que estou adquirindo e aperfeiçoando as competências práticas necessárias para tirar o máximo proveito de cada item.

Isso significa que, antes de comprar qualquer equipamento, eu investigo e treino para dominar as técnicas e conhecimentos que vão além da teoria, garantindo que minha preparação seja robusta e realmente funcional em situações práticas. Dessa forma, o foco não está apenas na posse de equipamentos, mas na capacidade de usá-los com competência e segurança, o que é crucial para a eficácia em qualquer situação desafiadora.

Contudo, é importante lembrar de casos como o do amigo que comprou uma esteira e hoje ela serve apenas como um cabide de roupas, ou do colega que justificou a compra de um veículo 4×4 apenas para uso urbano, pensando no “e se um dia eu precisar?”, embora nunca tenha utilizado o veículo para o propósito para o qual foi adquirido. Esses exemplos ilustram bem como a posse de equipamentos por si só não garante que serão utilizados de maneira eficiente ou que atenderão às nossas reais necessidades.

O mesmo se aplica àqueles que acreditam que possuir uma câmera ou um drone os transformará automaticamente em grandes youtubers ou influenciadores. A realidade muitas vezes revela que, apesar de ter o equipamento certo, a verdadeira diferença está na criatividade, no planejamento e na execução da ideia. Como dizem os produtores de cinema, “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” são mais valiosos do que simplesmente ter o equipamento. O sucesso vem da capacidade de transformar uma ideia em conteúdo valioso e não apenas da posse do hardware.

Por fim, acredito que adotar a mentalidade de priorizar habilidades antes de adquirir equipamentos pode ajudar a evitar o desperdício de recursos. Ao focar no desenvolvimento das competências necessárias para utilizar cada ferramenta de forma eficaz, você não só garante que o investimento em equipamentos seja mais bem planejado e justificado, mas também maximiza a utilidade e o retorno de cada compra. Dessa maneira, evita-se a aquisição de itens que podem acabar se tornando supérfluos ou pouco utilizados, promovendo uma abordagem mais consciente e eficiente em relação aos recursos e às necessidades reais.

Texto escrito por Felipe, membro do portal SV.

um comentário

  • Avatar de Edlipe

    É um tema sensível, pois trata sobre o recurso mais escasso do ser humano, tempo, o tempo dispendido no ganho de dinheiro para comprar os equipamentos, não compensam a falta de tempo no treinamento e preparo com os mesmos! Encontrar esse equilíbrio é sempre um desafio, quando se acha muito capaz, peca nos equipamentos, quando se acha muito equipado, peca no preparo físico e aptidão!

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