Qual é a essência do Sobrevivencialismo?

Recentemente publicamos um pequeno vídeo mostrando a história de um dos candidatos da Oficina de Desgaste e Resiliência (ODR) que realizamos nos dias 28 e 29 de Abril deste ano e uma série de dúvidas surgiram, inclusive alguns questionamentos sobre a real validade deste tipo de abordagem dentro do Sobrevivencialismo. Então… Vamos conversar.

Para entender melhor a discussão é importante que você veja o vídeo (clique aqui). 

Antes de tudo, aqui vão alguns questionamentos que me deixaram inspirado a escrever este texto.

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Vale lembrar que estamos aqui não para agredir ou ofender, apenas para discutir visões. As pessoas acima estão sim muito certas em questionar nossas iniciativas, então vamos respondê-las de maneira bastante clara.

Para quê somos sobrevivencialistas?

Depois de todo esse tempo produzindo conteúdos aqui achamos que o propósito estava claro, mas se questionamentos surgem, eles devem ser respondidos. Comecemos com o básico:

Um sobrevivencialista se prepara para situações de dificuldade, geralmente causadas por desastres naturais ou crises sociais.

Não, Sobrevivencialismo não se trata de saber acampar, nem mesmo de fazer fogueira. Isso é apenas um pequeno escopo de uma prática muito maior, que abrange as mais diversas áreas da vida. É claro que a frase acima nos leva a uma conclusão bastante óbvia: para nos preparar para o pior nós dedicamos boa parte de nosso tempo para aprender e dominar várias técnicas de sobrevivência, preparação, sustentabilidade e defesa.

Isso significa que qualquer habilidade que possa lhe manter mais autossuficiente em situações complicadas é válida para o nosso repertório. Mas… Pra quê? Simples:

Manter a saúde física e mental de nossa família e de nós mesmos, para defender a liberdade e o direito de existir mesmo em situações extremas.

Dito isso, acredito que podemos seguir em frente.

A habilidade mais importante é também a mais difícil de ser treinada

Mais do que habilidades de selva, manuseio de armas ou semelhantes, o equilíbrio mental é o fator que deve ser levado em consideração como prioridade em nossas preparações. Um indivíduo mentalmente frágil nunca conseguirá usar suas habilidades ou ter alguma utilidade quando um cenário hostil se apresentar à sua frente.

Talvez eu veja isso de forma tão enfática por ser Psicólogo, mas por outro lado basta ler alguns relatos de sobreviventes e perceber o padrão bem claro: Sobrevive o que tem esperança, o resiliente, o criativo.

Logo, nada mais justo do que começarmos a atuar presencialmente justamente neste ponto crítico de nossa prática. Por isso surgiu a Oficina de Desgaste e Resiliência, que tem como proposta simular um ambiente hostil e desafiador para levar os candidatos aos seus limites físicos e mentais, porém sempre em completa segurança (coisa que não é possível em situações reais).

Ok, mas usar métodos militares é realmente necessário?

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Os métodos militares de treinamento são talvez a forma mais antiga de levar seres humanos ao ponto extremo de resistência, isso é indiscutível. São nos moldes militares que é possível transformar um “zé” em um soldado preparado para defender os ideais de sua corporação e nação – e isso é REALMENTE complexo de ser feito.

Escolhemos esta abordagem especialmente pelo efeito que ela pode causar no comportamento humano. A combinação de uma condução autocrática (onde o instrutor é quem manda e não há espaço para contestar) e a implementação de uma disciplina rígida são capazes de gerar um grande estresse emocional nos candidatos, que em sua maioria nunca se viram em uma situação de tamanha vulnerabilidade.

Na crise não há espaço para uma conduta democrática – não é uma verdade que eu goste, mas senti na pele. Em uma situação de necessidade extrema ações duras precisam ser tomadas e só sobrevive quem se mantém operacional e prático. O que devaneia sobre um mundo melhor e se recusa a entender a realidade a sua frente está fadado a ter problemas (vide textos do Selco).

Além disso, hierarquia não se trata apenas de imposição de poder. Se trata de respeito. Se você está em um projeto onde está tendo o privilégio de ter instrutores altamente qualificados conduzindo você para uma versão melhor de si mesmo, por que não chamá-los de “senhor”? Eu venho de um tempo onde aprendi que todos mais experientes que eu devem ser tratados desta forma.

E o que diabos é essa tal ODR? Qual seu objetivo?

ODR não é um curso feliz e amigável. Ela foi construída para lhe receber com hostilidade e mostrar que você é quebrável como qualquer outro ser humano. Os instrutores são focados em se mostrarem duros e desafiadores com o único intuito de tirar seu equilíbrio emocional de maneira gradativa e controlada, e isso não se faz de maneira moderna e “nutella” (como diriam as gírias atuais).

Como dissemos mais acima, a proposta é levar você até o seu ponto de quebra para que a partir daí você consiga desenvolver estratégias de fortalecimento para a área que te derrubou. Por exemplo, nesta edição piloto tivemos um candidato que desistiu pois não aguentou passar a fase dos testes físicos alegando que sentiu o preço que o cigarro estava cobrando em seu corpo. Resultado? Já está há duas semanas sem fumar para se preparar melhor para a próxima edição.

Na vida nós só mudamos por duas razões: amor ou dor. Na ODR vimos os dois casos, onde pessoas se mantiveram focadas até o final para orgulharem seus familiares e outros que seguiram até o final pois estavam cansados da vida que levavam.

Concluindo…

Sei que posso estar soando um pouco amargo demais, mas confesso que me decepciona e também me preocupa ver pessoas com abordagens que parecem estar fora da realidade do que é um cenário de crise. Fico me questionando… Será que eles não entenderam o que é o Sobrevivencialismo (menos mal) ou acreditam serem indivíduos superiores que nunca passarão por situações de necessidade extrema? Em todo caso, ambos são preocupantes.

Aqui no portal nós já passamos pelo básico, agora é hora de puxar as coisas para cada vez mais próximo da realidade. Chegou a hora de realmente sujarmos as mãos.

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Até.