SHTF School: Caras velhos…

Meu tio era um homem que gostava de beber. Ele bebia pesadamente do momento em que acordava até quando ia para cama, mas eu não lembro de vê-lo tropeçando, andando estranho ou tendo problemas com a sua fala.

Quando ele estava em casa o seu lugar favorito era um sofá no canto da sala, próximo a um fogão a lenha que sempre estava ligado, exceto em dias muito quentes. Ele bebia em copos pequenos e a garrafa nunca estava visível (sempre escondida atrás do sofá) e na mesa ele tinha uma caixa de metal com papel e tabaco para fazer seus cigarros.

A mesa era antiga e tinha sempre um prato decorativo, e embaixo dele havia um papel do governo dizendo que o reconhecia como membro e organizador dos movimentos de resistência contra a ocupação alemã e italiana durante a Segunda Guerra Mundial.

Essa mesa, os cigarros e tudo mais estava fora dos limites para nós, crianças. Ele morava com meus avós, nunca se casou e nunca teve filhos.

Na verdade minhas lembranças agora deixam claras que ele mesmo era bastante fora do nosso alcance. A única pessoa que tinha influência sobre ele era a irmã da minha vó. Ela era a única que conseguia dizer para ele fazer alguma coisa que era necessária.

Ele era um cara velho, duro e perigoso, sentado no quarto. Bebendo e olhando para um canto onde a parede se encontra com o teto.

Algumas vezes nós entrávamos no quarto escondidos, pedindo para ouvir histórias, algum dinheiro… Tudo em troca de alimentar o fogão a lenha dele que nunca parava de funcionar.

Ele nos dava dinheiro da sua grande “pensão para veteranos”, mas as histórias era raras. A maioria das vezes as crianças só ficavam lá falando alguma coisa e ele soltava alguns “uhm” e “ahm” enquanto olhava para o vazio.

Ele não saía muito, exceto quando ia se encontrar no salão comunitário para jogar xadrez. Era uma espécie de reunião de veteranos da guerra onde todos fumavam e bebiam muito, era um lugar conhecido como “meia perna” pois a maioria dos frequentadores tinham membros faltantes.

E eu era uma criança que ia muitas vezes lá, minha vó me dizia para acompanhar e esperar por ele. Acho que ela só ficava preocupada com meu tio. O lugar era um salão grande com vários tabuleiros de xadrez, e o meu tio sempre sentava com os mesmos caras, os companheiros veteranos de guerra dele.

Eles jogavam xadrez, bebiam muito e depois de algum tempo geralmente esqueciam que eu estava por ali.

Naquele tempo eu era ensinado na escola que estávamos vivendo em uma sociedade socialista e comunista onde todas as pessoas eram iguais, que nós havíamos chegado nesse ponto por conta da luta heroica e nobre da classe trabalhadora durante a Segunda Guerra Mundial.

Guerra e lutas eram coisas nobres, heroicas e cheias de sacrifício. Nossos veteranos eram “limpos”, eram pessoas que haviam se sacrificado pela nossa terra mãe – pela sociedade socialista.

Eu fui ensinado assim, então na minha mente jovem era tudo preto no branco.

Depois de certo tempo eu comecei a perceber que aqueles caras sentados na mesa com meu tio tinham uma visão bem diferente sobre a guerra, lutas e honra. Eles falavam sobre tudo, mas sempre com muitas gírias e que para mim naquele tempo parecia como uma forma de código. Coisas como “lembra da Mora (montanha) e como comemos sapatos?” e a resposta seria algo como “sim, que mer$#, quantos corpos estavam lá”.

A maioria eu não entendia, mas todos eles balançavam suas cabeças.

Um desses jogos de xadrez ficou na minha mente por várias décadas depois do que eu ouvi na mesa. Um homem que jogava xadrez com meu tio tinha pedaços de munição em seu corpo e não era uma opção retirá-los por conta do risco da operação. Por conta disso  ele ficou com pequenos estilhaços no seu braço e dedos. Quando era sua vez de jogar ele apertava suas mãos e era possível ouvir o barulho dos estilhaços raspando no osso, como se fosse um barulho de trituração.

Era algo fascinante para mim naquele tempo.

O que eu entendi da história deles era isso:

Ele e meu tio estavam em uma luta pesada durante a Segunda Guerra Mundial. A unidade deles estava carregando muitos soldados feridos e civis que estavam fugindo das forças Alemãs. De repente, acontece um ataque não esperado e o caos começa, deixando-os separados da unidade.

Eles conseguem sair do estrangulamento e se escondem dentro de uma caverna por alguns dias. Eles comeram cascas de árvores. Dias depois eles saíram andando pela floresta tentando encontrar um território seguro, até que encontraram membros da unidade deles.

Uma pilha deles.

Em uma pequena clareira no meio da mata haviam centenas de corpos em uma pilha enorme, e o cara dos estilhaços disse que nunca havia visto algo como aquilo.

Soldados e civis eram mortos a tiros e colocados nesta pilha de corpos no meio do nada, alguns ainda gravemente feridos mas vivos… Eles eram jogados nesta mesma pilha para sofrer antes da morte.Eles encontraram algumas mulheres amarradas em árvores…Também mortas.

Eles fugiram rapidamente, amedrontados.

Naquela mesma noite enquanto estavam descansando eles ouviram alguns barulhos. Levantaram para checar e descobriram um soldado alemão sentado enfaixando sua perna, provavelmente perdido e separado de sua unidade.

Eles o mataram com a baioneta, e pelo que entendi fizeram isso de forma bem lenta.

Essa história me aterrorizou até os ossos, e eu acho que eu a ouvir porque eles estavam muito bêbados e nem lembravam que eu estava com eles. Meu tio morreu a algum tempo atrás. Ele foi um alcoólatra até seu último suspiro. No seu funeral haviam bandeiras, um discurso de honra e até mesmo medalhas.

Nós nunca encontramos a metralhadora do tempo de guerra dele, a “smajser” (MP-40) que ele escondeu em algum lugar depois da guerra e nunca disse para ninguém onde estava. Agora, mais velho, me arrependo de não ter ouvido mais sobre suas experiências.

Eu tenho certeza de que ele se importava mais com a metralhadora do que com discursos, bandeira e medalhas. Eu não lembro dele como um herói de guerra e eu tenho certeza de que ele não se via assim também. Ele estava constantemente com medo durante todos esses acontecimentos, fez coisas que não queria fazer, não era invencível e estava pronto para encarar mais problemas.

Ele era um sobrevivencialista.

O ponto de todo esse texto é (como todos meus artigos) lembrar de algo, e neste caso a memória do meu tio. Mais um ponto importante:

Fale com pessoas velhas, com veteranos. Não existe nada como experiência real. Seja paciente, as melhores (ou piores) histórias são as mais difíceis de conseguir, mas são conhecimentos preciosos. O melhor investimento para se preparar é ouvir como comer cascas de árvore (e quais) do que comprar 10 rações militares.

Muitos anos depois das experiências do meu tio eu vivi algo parecido… Fome, violência e pilhas de mortos. É a natureza humana, as coisas sempre se repetem e vão se repetir novamente.

Texto traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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5 Comentários

  • Lendo este texto lembrei que por alguns anos e momentos cheguei a presenciar por 03 vezes, uma reunião anual de um grupo de veteranos brasileiros da Segunda Guerra Mundial chamado de “pracinhas” no 24º Batalhão de Caçadores. Também como você Selco, mais velho, arrependo-me de não ter ouvido suas experiências. Achava aquilo chato e queria que terminasse logo aquele evento.
    Hoje, estando no universo sobrevivencialista, perguntaria a eles como foi suportar o frio e a fome em território desconhecido contando com apenas coragem. Será que realmente teriam orgulho das batalhas de Montese e Monte Castelo? O que faziam nos momentos de tédio e medo?
    Perguntas sem respostas, como é impressionante não ter sabido dos feitos destes homens, experiências ricas e reais. Pena que não dá para voltar no tempo.

  • Gabriel Alves

    Não existe preparação melhor do que o conhecimento. E ele só pode ser obtido por meio de experiências, nossas ou de outros. Seja por meio de um livro ou de histórias de pessoas mais velhas, nós temos que correr atrás do conhecimento.

  • Esse texto me lembrou do “Projetos Humanos”, histórias reais sobre pessoas reais.Para quem curte Podcast, procura aí.

  • qual a fonte do texto?

    • Editado! Havia esquecido de adicionar, porém os textos do blog SHTF School são todos traduzidos para o portal visto que são escritos por um sérvio chamado Selco, sobrevivente de um cenário de guerra bastante complicado na década de 90. Temos a autorização dele para tais traduções.

      Abraços.

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