Um susto em Cuba: Como virei Sobrevivencialista

Até o ano de 2001 eu não poderia me classificar como um sobrevivencialista nato, sequer era curioso sobre a matéria. Apenas tinha respostas rápidas para emergências, o que fez com que me distinguisse no serviço militar, ao salvar um civil após grave acidente automobilístico ocorrido nos muros do quartel onde eu servia, isso no longínquo ano de 1973.

Mas passei a olhar a questão de outra forma justamente no fatídico dia do ataque às torres gêmeas edificadas em Nova Iorque(USA), exatamente no dia 11/09/2001. E, mesmo à distância dos fatos, pude comprovar o quão poderoso pode ser um fato, de cunho humano ou natural, na vida das pessoas comuns.

Nesse exato dia, às 08:50 horas, desci para tomar café da manhã no hotel onde estava hospedado passando férias, na cidade de Varadero (CUBA). No lobby do hotel, onde estava instalada uma enorme televisão, muita gente olhava para a tela com cara de espantada… De pronto não entendi o que se passava e ao olhar a tela, de relance, vi umas cenas de fogo num prédio que me pareceu conhecido, mas não imediatamente identificado e pensei que era um filme qualquer de Hollywood, coisa bem rara em Cuba, daí o interesse daquele amontoado de gente.

Mas minutos depois veio a gritaria histérica, quando o segundo avião (que depois viríamos a saber que ambos aviões estavam sequestrados….) bateu de forma frontal e clara numa das torres gêmeas, explodindo em fogo e deixando evidente que aquilo não era filme e muito menos um acidente.

Engoli o café e corri para o quarto para chamar a minha esposa: uma ansiedade, misturada com o mais profundo receio abateu-se sobre a minha pessoa, pois naquele momento, sem maiores informações, meu maior medo é que os responsáveis sobre o evidente ato terrorista na colisão dos aviões com os prédios (segundos depois identificados como as torres gêmeas de Nova Iorque) fossem de nacionalidade cubana… Eu estava certo que que os EUA iriam retaliar e se Cuba estivesse envolvida com certeza os americanos iriam fazer a ilha desaparecer do mapa.

O pior é que na minha carteira (minha esposa foi contra, mas cadê que eu a ouvi?) só tínhamos dólares e um cartão de crédito VISA porque para conseguir um câmbio bom eu trocava dia-a-dia as notas necessárias, conforme nossas necessidades imediatas. Além disso usava o cartão com parcimônia, pois o câmbio era super-complicado. Naquele exato momento, sequer tínhamos dinheiro para comprar um cafezinho com pesos cubanos.

Corremos para a rua e nos dirigimos até uma casa de câmbio pequena cujo dono ainda não parecia saber das notícias e nos trocou 100 dólares (o máximo que ele tinha em caixa, naquela hora da manhã)… Depois fomos até o supermercado e compramos comida e bebida suficientes para dois dias, pagando com o cartão de crédito.

Depois disso tentamos entrar em contato com a companhia aérea para saber sobre o nosso voo, previsto para dali a quatro dias, mas já não conseguimos contato. Com o resto da família no Brasil, a mesma coisa: os telefones já não completavam sinal, talvez por excesso de ligações.

Já na parte da tarde as autoridades americanas bloquearam todos os voos internacionais para os EUA, afetando inclusive os voos para Cuba (mesmo não existindo trânsito aéreo direto entre os dois países), pois as aeronaves partiam do Panamá para Cuba e grande parte dos aviões da companhia aérea panamenha ficaram presos em solo americano, em outras rotas, estabelecendo o caos na logística da citada companhia. Os cartões de crédito de bandeira americana passaram a não ser aceitos em estabelecimentos cubanos e o presidente cubano determinou que as forças armadas ficassem mobilizadas.

Já à noite podíamos ver a diferença de tratamento dos funcionários do hotel e dos estabelecimentos comerciais da região, cordiais, mas muito nervosos e negando-se a receber dólares. Até mesmo nas ruas a diferença era visível: onde antes se via alguns policiais de trânsito, agora via-se militares e seus veículos blindados.

Foram 48 horas de tensão até que os americanos conseguiram descobrir, de forma cabal, que terroristas árabes eram os responsáveis sobre tudo aquilo, não existindo a mínima possibilidade de envolvimento cubano no caso. A partir daí comecei a entender a verdadeira necessidade de um plano mínimo de sobrevivência para as primeiras 72 horas após algum acontecimento extraordinário, natural ou não.

Se acaso, por exemplo, não tivéssemos trocado os 100 dólares naquela manhã, não teríamos dinheiro nacional cubano para as necessidades básicas, uma vez que o dólar americano virou, de uma hora para outra, papel pintado sem qualquer valor. Ninguém, ninguém mesmo, o aceitava. Quanto ao cartão de crédito, até a nossa saída de Cuba, não foi reativado tornando-se um plástico que nada valia.

Em suma, hoje mantenho em casa uma mochila com alimentos, bebidas, produtos de primeira necessidade, remédios e ferramentas básicas para atender até duas pessoas, para um período de 72 horas, na esperança de que NUNCA tenha que precisar usá-la, mas se houver necessidade espero estar pronto para tentar sobreviver nas primeiras horas de uma situação adversa.

Texto escrito por Wagner Lima