SHTF School: Alguns pensamentos sobre comida

 

Bom, hoje eu vou olhar para algo bastante específico. Como você sabe, eu gosto de pensar sobre os aspectos da “visão de sobrevivência” e acho que esta é a parte mais importante quando falamos de situações muito extremas, mas sim, eu também acho que mesmo que você tenha a mente de um guerreiro você ainda assim precisará de alguns itens básicos, e a comida é uma delas.

Comida

Comida é algo que você não tem como viver sem, e como qualquer outro tópico de sobrevivência existem um monte de livros escritos sobre como comprar, guardar e preparar suas refeições.

Aqui eu não vou escrever um livro sobre comida, mas vou mencionar algumas coisas básicas que você precisa considerar, me baseando na minha experiência de crise.

Tenha o que você gosta de comer?

Sim, faz sentido guardar comida que você prefere comer. Mas pensando de outra forma, se você odeia sardinha enlatada, por exemplo, e de repente há um grande desconto desse produto, porque não comprar e armazenar? Você poderia trocar ou simplesmente comer se precisar (confie em mim). Não perca um grande desconto só porque você não gosta de uma determinada comida.

Outro ponto aqui é que um cenário de crise gera muito estresse para o seu corpo (e mente), um grande estresse.

Seu corpo vai precisar de comida que seja balanceada e saudável mais do que nunca. Então se você já tem maus hábitos, come apenas comida não saudável… Talvez seja hora de mudar seus hábitos, aprender coisas diferentes, começar a comer bem e também a armazenar comida.

Quando uma crise acontecer você precisará de sua força máxima e, já que somos “aquilo que comemos”, você pode concluir que a comida que está na sua dispensa terá um grande papel nas suas chances de sobrevivência durante uma emergência.

Que comida?

Temos que pensar de forma prática e ter bom senso.

Você está guardando comida para uma crise, então faz sentido pensar em alguns pontos que a comida precisa “cobrir”:

  1. Precisa estar em quantidade suficiente para cobrir as necessidades suas e de sua família por um certo período de tempo, então faça alguns cálculos para ter uma visão clara da quantidade de comida que você precisará para X tempo que pretende se preparar;
  2. Precisa estar armazenada de uma forma que lhe dê opções de mover ela de maneira rápida ou escondê-la em lugares diferentes. Pacotes pequenos, latas, garrafas, rações militares, baldes selados… Tudo isso pode também lhe dar a vantagem de evitar que os itens estraguem rapidamente ou por conta de algum problema (enchente, pragas e semelhantes);
  3. A preparação da comida que você decide armazenar precisa ser a mais simples possível e não consumir muito tempo, além de ter o menor impacto possível em outros recursos (por exemplo, gás do seu botijão). Comidas liofilizadas e semelhantes são ótimos exemplos de alimentos que requerem mínima preparação.

Em muitos casos você terá tempo suficiente apenas para engolir algo rapidamente, não poderá dedicar horas para preparar refeições complicadas.

Itens “chiques”

Sim e não. Se você está se preparando com um orçamento apertado esqueça coisas como doces e semelhantes.

Contudo, se você já cobriu todos os pontos básicos de maneira satisfatória, porque não? Ter itens que você pode usar para trocar é sempre válido, até porque em qualquer situação haverão pessoas com mais recursos e dinheiro querendo gastar em coisas “chiques”.

É claro que também temos de pensar nas “comidas de conforto” para você e sua família, então tenha elas guardadas no seu estoque também. Haverão dias em que um pedaço de chocolate poderá causar uma imensa diferença em sua moral.

Preciso manter algo claro aqui. Tenha certeza de que todos os seus pontos básicos estejam cobertos antes de adicionar itens fúteis aos seus estoques.

“Está tudo na sua cabeça”

Ainda assim, não esqueça dos aspectos mentais de tudo.

Aqui está uma pequena memória da guerra que vivi. Ela vem do primeiro período onde eu estava me “adaptando” a ela, não é uma memória boa mas eu não tenho como apagá-la, então vamos usar ela aqui para tentar tornar meu argumento mais compreensível para você:

Eu estava visitando meu amigo, seu pai tinha quebrado algumas costelas por ter sido parcialmente soterrado em um desabamento causado por um bombardeio.

Depois de chegar as costelas e ter dado alguns conselhos eles me ofereceram uma refeição e é claro que eu aceitei.

Eu e meu amigo saímos no pátio com duas tigelas de macarrão, sentamos no completo breu com nossas costas para a parede da casa e ficamos olhando para a cidade que hora ou outra apresentava explosões e fogo em alguns pontos.

No momento eu ainda tinha meu rifle Czech 22. Estávamos tentando ver algo no escuro – sem sucesso – mas mais que isso estávamos apenas comendo e conversando, uma espécie de pausa estranha no meio da tempestade.

Era um verão quente e quando você fechava seus olhos e conseguia pegar uma pausa entre as explosões e tiroteios você conseguia quase imaginar o churrasco e a cerveja.

Então eu senti algo estranho na minha boca, fiquei paralisado por um segundo, me movi para um canto do quintal para me esconder e acendi o isqueiro para ver o que realmente havia na tigela. 

Ela estava quase completamente vazia, tinha algum macarrão ainda na água mas junto com ele haviam muitas larvas flutuando junto. Eu olhei novamente e sim, havia uma quantidade enorme de larvas cinzas e muitas ainda pareciam vivas.

Eu senti a imediata necessidade de vomitar. Eu fechei meus olhos e lembrei que eu não tinha comido nada o dia todo, aquele macarrão foi a primeira e única refeição que eu tive e então comecei a repetir para mim mesmo: “não vomite, não vomite, eu preciso do meu estômago cheio….”

E no próximo segundo eu vomitei tudo.

Eu fui até meu amigo e perguntei “que mer… Você me deu para comer, está cheio de larvas?” e ele me respondeu?

“Eu sei cara, está tudo infestado com esses bichos, tem sido assim por semanas. Eu não me importo e pensei que você não ia perceber no meio do escuro”

Eu fiquei chateado, por um momento eu tive vontade de atirar na cara dele, depois eu fiquei bravo comigo mesmo por não ter checado a comida.

Um minuto depois eu estava bravo comido mesmo por que eu havia visto as larvas e agora meu estômago estava vazio. O ponto de ênfase aqui era que meu estômago agora estava vazio de novo.

Isso aconteceu na fase de “adaptação” no meu período de crise.

Mais tarde eu aprendi a comer o que estava disponível. Comida vencida, infestada, crua, estranha… Tudo. Depois de certo tempo você só quer encher sua barriga com alguma coisa, a fome entra em todos seus poros e de alguma forma você para de se importar com isso.

Muitas vezes eu ia comer no escuro exatamente para não poder ver se alguma coisa estranha demais estava dentro dele. Eu posso te garantir que conforme a situação vai se deteriorando você irá comer muitas coisas que não come normalmente.

Texto adaptado e traduzido do blog SHTF School.