Sobreviver ou hiperviver? Cinco argumentos para os anti sobrevivencialistas

Algumas pessoas devem ter problemas de relacionamento com os dicionários: elas procuram uma palavra e ficam satisfeitas com a primeira ou a segunda descrição.  Muitos sobrevivencialistas, assim como eu, já devem ter ouvido de alguém o questionamento acerca do nosso interesse pelas questões que envolvem a sobrevivência.

E parece incrível, mas há tipos que refutam o sobrevivencialismo apenas por causa de duas palavras: viver e sobreviver. E o argumento não poderia ser o mais raso: “eu não quero sobreviver, eu quero viver!”. Dito assim parece até que o verbo sobreviver é contrário a viver, ou que significa “menos do que viver”. Que sobreviver é algo fora do comum, afinal, já não estamos todos VIVOS? Ou parece que sobreviver é algo bestial, animal, inumano, ao contrário de viver que é algo ‘natural’. Fazem uso inclusive da lei para dizer que viver é um direito, portanto, na mente dessas pessoas, sobreviver seria considerado como se fosse uma obrigação desnecessária (oi?). Para os que já se depararam com essas falácias, segue um passo a passo para você contra argumentar usando apenas o conhecimento da língua portuguesa.

1) Acho que algumas pessoas imaginam-se muito filósofas ou muito poetas. Adoram fazer trocadilho com palavras que não necessariamente são antagônicas ou fazem rima pobre para enganar os ouvidos mais desatentos. Manter-se, perdurar, permanecer, durar, persistir, resistir, subsistir, escapar, suster-se, conservar-se, são alguns sinônimos de SOBREVIVER. Não vejo ninguém fazendo gracinha com essas. 

2) Ok, viver, além de significar “ter vida” ou “estar com vida”, traz um conceito maior de “aproveitar”, de “gozar a vida” e “passá-la bem”. Acredito que a imagem que as pessoas têm a respeito dos sobrevivencialistas seja a de que somos pessoas angustiadas, que nunca se divertem, estão sempre em alerta, cheias de adrenalina e nunca relaxam. E isso 24h por dia, sete dias na semana.  Pode até ser que existam sobrevivencialistas assim, mas existem pessoas não sobrevivencialistas que também são assim. Para todas elas indico buscar apoio psicológico. Urgentemente!

3) A palavra sobreviver vem do latim supervivens, superviventis, do particípio presente de supervívo (supervivis, supervixi, supervictum, supervivère). Daí que para sobreviver você precisa estar super vivo, manter-se invicto (supervictum – aquele quem mantém o animo, a coragem, não se abate, não se deixa derrotar), enfim, ser um super vivente. Sobrevivente = ‘supervivente’. Falando assim ninguém vai achar que ser sobrevivencialista é algo de menor valor, não é? Cuidado para não exagerar e botar super homem/super girl no meio do discurso.

4) E está lá no dicionário também, não tô inventando! O adjetivo supérstite é referente àquele que sobrevive. Uma pessoa supérstite é aquela para o qual não basta viver ou estar vivo, é aquela que salva a si mesma, que dura além, que escapa, que é abundante, que vence algo, que é conservada/preservada, que fica sã e salva. E acho que isso é o que todo mundo quer para si mesmo, não?

5) A preposição SOBRE vem da palavra latina super que significa “em cima de”, “além de”, “por meio de”, “demais”. Essa partícula está morfologicamente conectada ao termo grego hupér/hipera – ou seja “super” tem o mesmo sentido de “hiper”. Se passássemos a usar a palavra hiperviver em vez de sobreviver estaríamos dizendo a mesma coisa. Será que as pessoas continuariam achando que hiperviver seria menos que viver?

Enfim, a vida é um eterno jogo, tem sempre alguém ou alguma coisa nos desafiando. O segredo é não deixar passar a chance de mostrar a real, encarar e mandar a letra. Afinal de contas, perder o tempo de resposta pode significar a vida ou a morte em vários momentos, inclusive em debates acalorados. Sobreviver às palavras é fácil, sua arma são os argumentos! Sobreviva, se for capaz!

Moni Abreu, a sobrevivencialista, ex professora de português fazendo bom uso de seus conhecimentos linguísticos para o benefício da nação sobrevivencialista.

Esse texto é uma publicação simultânea com o blog A Sobrevivencialista.

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22 comentários

  • Pingback: Sobreviver ou hiperviver? 5 argumentos para os anti sobrevivencialistas – A Sobrevivencialista

  • João Louven

    O melhor argumento é na hora H. Quando vc fizer a diferença num momento onde os outros não saberão o que fazer. Valeu.

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  • Se vierem com esse papo pra cima de mim, digo simplesmente que sobrevivencialismo não é mera questão de semântica.

    • Boa! kkk Curtíssimo e super prático. Adorei!
      Obrigada pelo comentário!

      • existe falácia gramátical:? kkkk

      • KKk Cara, por ‘gramatical’ vc estava querendo dizer “semântica”, ou no mínimo “sintaxe”, certo? Se vc estiver tentando exprimir algo como “construção escrita com aparência de lógica, mas sem fundamento” ou “um texto de raciocínio errado com aparência de verdadeiro’… olha que até pode, mas ai vc estaria duvidando da minha genialidade! E eu espero que não! kkkkk
        Valeu pelo desafio. Vc tentou… :p
        .
        Inté!
        Moni Abreu

  • Murilo Almeida

    “Sobreviva, se for capaz!”… Excelente texto… Então… Existe uma lenda, atribuída a nada menos que Albert Einstein, na qual “ele” conta que dois irmãos (crianças) estavam patinando num lago congelado quando uma delas, a maior, teve o gelo quebrado a seus pés e ficando com o patins preso na fenda que se formou. A outra criança (a menor), vendo seu irmão sento puxado para baixo, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo, por fim, quebrá-lo e libertar o seu irmão mais velho… Até aqui nada de novo, porem quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino franzino como ele havia conseguido fazer aquilo para salvar o irmão. Todos ficaram ansiosos pela resposta, mas o pequeno menino nada dizia. Foi ai que um sábio ancião que passava pelo local, comentou: “Ele conseguiu porque não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não seria capaz”…

    • Bem isso, Murilo! Somos mais capazes quando não damos bola para os julgamentos alheios. E para detonar alguns pré conceitos das pessoas, bons argumentos ajudam tb o nosso moral! Grata pelo comentário!

  • O verdadeiro sobrevivente é aquele que se mantém com 880 reais por mês.

    • Murilo Almeida

      Um amigo estrangeiro, casado com uma brasileira, me disse uma vez que não entendia como o Brasil, país extremamente rico, não era uma das maiores potencias mundiais sobrepujando inclusive os EUA… Bem, simplesmente não somos uma potencia econômica, pois a índole (comodismo) do povo brasileiro sempre atravanca o progresso, pois sempre existe alguém pra dizer que “você não é capaz” ou pra dizer que “você não precisa ser capaz” ou ainda pra dizer que “pra que você quer ser capaz”…. Por isso que até hoje, depois de ter lido alguns pensadores como Jean Jacques Rousseau, Judith Balso, Bruno Bosteels, Karl Marx, Susan Buck-Mors, Jodi Dean, Terry Eagleton, Jacques Derrida, Jean-Luc Nancy, Toni Negri, Michael Hardt, Alain Badiou, Jacques Rancière, entre outros, que sou contra esta cultura comunista e socialista apregoada pelos partidos “esquerdistas” do Brasil… (NÃO SOU CONTRA AOS PROGRAMAS ASSISTENCIALISTAS, MUITO PELO CONTRARIO) faço um parêntese, mas eu saio todo santo dia de casa a fim de matar o leão pra fazer a paçoca… Isso sim eu acredito… aplaudo TAMBEM o verdadeiro sobrevivente que se mantém com seu SM (atualmente 880 reais) por todo mês…. E se você não quer ir matar o leão, por preguiça, vá ao menos pescar…

      (PS: desculpem o prólogo político)

      • Murilo, aqueles que “matam leões” diariamente, como os que vivem de “salário míínniiimo”, com certeza já devem ter passado por situações que, se tivessem mentalidade sobrevivencialista, talvez tivessem se saído melhor. Acho que tudo é a forma como vemos e reagimos às nossas desgraças. E viva nós, que sabemos fazer o pouco virar muito! Grata pelo comentário!

    • Marcos, esse já não é só sobrevivente, é HERÓI mesmo! Obrigada pelo comentário!

  • Faça um orçamento de quanto vc é sua família gasta.
    Lembre-se que em crises
    Pode faltar por exemplo água
    Considere que será necessário além da água de beber
    Água para higiene e cozinhar
    Estabeleça uma situação
    Pense nos detalhes
    Pesquise no fórum aqui tb
    Abraço

  • É bem comum as pessoas tratarem sobreviver como algo abaixo de viver… creio que por esse termo sempre estar relacionado a eventos catastróficos/tragedias, onde as pessoas estão simplesmente lutando pela vida. Logo, quando querem insinuar que estão apenas existindo, seja em algum momento difícil da vida ou outrem, utilizam o termo “sobrevivendo”. Não chega a ser um erro utilizar-se desse termo para tal insinuação, porém é interessante refletir sobre o real significado do termo… sobreviver está mais para um “boost”, pois se está sobrevivendo é porque está persistindo de alguma forma. Feio é desistir, se entregar ao fracasso.

    • Bem isso, Rodrigo! Parece que é uma tentativa de dar uma menor valor no “esforço” natural que é sobreviver. Isso é interessante para os que gostam de dominar, pois os que preferem as ‘facilidades’ são facilmente cooptados pelo sistema! Grata pelo comentário!

  • Muito bom texto. Esclarecedor. Obrigado!

    • Valeu, Hwidger! Grata pelo comentário!

  • Demóstenes Jr.

    O analfabetismo funcional atormenta até o sobrevivencialismo. Assim é fácil entender a postura radical de alguns sobrevivencialistas que chamam a maioria de ovelhas, desde que estas acham que sobreviver é sinônimo de estar preso a uma cama de UTI ao contrário de superar os reveses da vida.

    • kk Cara, é bem isso mesmo! Tem muita gente que sabe ler… mas SQN! KKK Os poderosos adoram esse analfabetismo funcional, facilita muito dominar! Grata pelo comentário!

  • Geraldo Cestarioli Cestarioli

    Boa tarde! Para sobreviver de 3 a 15 dias sem sair de casa, pode me relacionar o que seria importante ter?

    Enviado do meu iPhone

    >

    • Oi Geraldo,
      A sobrevivência está diretamente relacionada ao fato gerador de sua necessidade, o que amplia muito as possibilidades: Se catástrofe natural e seu tipo; convulsões sociais; agressões armadas; epidemias; fuga temporária, etc.
      Em dicas gerais, indico: discrição, para não se tornar alvo; comunicação, seja noticiário ou rede de contatos; segurança necessária; kit médico básico; hidratação e alimentação; entretenimento.
      E lembre-se: O pânico é seu maior adversário, mas sobrevive quem consegue afastar do ambiente hostil rapidamente.
      Então, seja prevenido, emocionalmente estável e busco um local seguro com a urgência possível.

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