Emergência: Antes de socorrer uma vítima, saiba como não se tornar mais uma.

Você já parou para pensar que ao tentar socorrer alguém em risco você pode piorar a situação ou se colocar em risco também? Hoje vamos refletir sobre como não se tornar mais uma vítima em um momento de emergência.

Imagine a seguinte cena:

“Você está saindo de uma festa, seu filho pequeno te pediu a chave do seu carro, e está indo em direção a ele, poucos metros à sua frente, bem no seu campo de visão. Ele ainda é uma criança, mas já demonstra grande interesse por carros, e sabe destravar as portas do carro sozinho. Assim que ele entra no carro e começa a fechar a porta, um fio de um poste que estava acima de vocês, e nem havia sido notado, se rompe, e atinge o carro.

Você sabe vagamente dos riscos de se envolver com eletricidade, mas isso não tem mais nenhuma importância, afinal, é seu filho! Seguindo seu instinto protetor, você se lança na direção dele com toda a velocidade de reação que tem, e quando toca na porta metálica do carro tentando tirá-lo de lá, sente um arrepio insuportável percorrer seu corpo e se sobrepor a todos os seus outros sentidos. Também percebe que seu corpo deixou de responder aos seus comandos, e você não consegue se afastar do carro. Pior, você não consegue alcançar seu filho.”

Pausa para a explicação fisiológica: Isso tudo é efeito da eletricidade que se apodera de seus nervos. Em situações normais, existe um equilíbrio delicado nas cargas elétricas dentro e fora dos neurônios que formam os nervos. As cargas são da ordem de centésimos de volts.

Quando uma descarga elétrica de milhares de volts percorre um nervo, esse equilíbrio delicado é brutalmente desfeito, o que provoca a dor insuportável, e impede que eles sejam utilizados para conduzir os comandos que seu cérebro tenta desesperadamente enviar ao seu corpo, para que você se afaste do perigo.

De volta ao momento do acidente:

“Só então você percebe que seu filho se encontra em segurança dentro do carro, e entende tudo: Claro! As rodas do carro são de borracha, e impedem que a eletricidade siga até o solo. Ou IMPEDIAM, porque você acaba de se tornar o elo final nesse processo, o atalho de que a eletricidade precisava para seguir da lataria do carro até o chão”.

Quando o assunto é Medicina e saúde, sempre vem à mente de um bom sobrevivencialista os primeiros socorros. Mas é preciso cuidado para evitar a afobação, e não pular etapas. Por isso, existe uma premissa básica de todas as ações de atendimento imediato a vítimas:

Não se exponha ao risco de virar mais uma vítima.

Pode parecer uma informação óbvia demais para sequer ser citada, quem dirá ser alvo de um post, mas acredite, esse é um ponto chave no qual poucos pensam, e eu espero ter comprovado isso pela dramatização escrita acima. Basta fazer uma pesquisa rápida em sites de notícias para constatar os vários casos de pessoas que, ao tentarem socorrer outras vítimas de acidentes, sejam eles automobilísticos, de trabalho, domésticos, entre outros, se tornaram também vítimas – algumas vezes fatais.

Infelizmente, um caso muito semelhante ao escrito na introdução desse post ocorreu com vários membros de uma família no começo desse ano, em São Gonçalo. Também em outro post aqui nesse site, traduzido do blog SHTF School (Shit Hits the Fan School), Selco cita a situação da esposa de um homem que havia acabado de perder um braço devido a um ferimento a bala. Nessa situação, ela era o socorrista em potencial. Apesar de dispor dos equipamentos necessários para conter o sangramento com um torniquete, ela “congelou”, devido ao choque que a situação provocou, e assistiu o marido morrer por hemorragia.

Esse é um risco do qual nem os socorristas estão completamente a salvo, e por esse motivo, na introdução de todos os cursos de primeiros socorros, sejam eles avançados ou para leigos, esse mantra é repetido: “não se torne mais uma vítima, não se torne mais uma vítima”.

A explicação por trás desse grande risco que corre qualquer um que queira socorrer um acidentado é simples, e deve ser vista sob dois aspectos: Estresse e falta de hábito.

Sob situações de estresse o hormônio cortisol é liberado. Esse hormônio, entre outras ações, leva à liberação de adrenalina, e a atuação em conjunto desses dois hormônios pode obscurecer perigosamente a capacidade de raciocínio.

Ainda sobre a dramatização, uma observação importante: O personagem que foi colocado numa situação de perigo é filho da pessoa que tentou prestar o socorro não por sadismo ou crueldade minha, e sim por um motivo extremamente relevante: O sofrimento ou as situações de perigo em que um ente querido pode se encontrar requerem atenção e autocontrole redobrado, porque as emoções também têm o poder de ativar a via de liberação de adrenalina e cortisol, impedindo qualquer racionalidade.

O outro fator que deve ser levado em conta é o hábito, ou memória muscular. Aqui no Brasil raramente são feitos cursos de Primeiros Socorros, e a pequena parcela da população que tem acesso a esses cursos raramente continua praticando e se atualizando, o que faz com que rapidamente se esqueçam de premissas importantes que aprenderam, e acabem, por exemplo, pulando essa primordial etapa de analisar os riscos do ambiente antes de proceder ao socorro propriamente dito.

Para evitar esse erro é preciso prática, ou então, no caso de pessoas que não lidam com situações semelhantes todos os dias (é o caso dos leigos), exercícios de memorização, fixação, e principalmente, reconhecer a importância e a gravidade dessa etapa. Isso a neurologia explica: situações ou fatos que provoquem algum tipo de surpresa, ou que impressionem, e sejam considerados sérios e graves são mais fortes, e portanto, mais fáceis de memorizar, enquanto situações banais do dia a dia são rapidamente esquecidas pelo nosso cérebro.

No caso da situação exemplificada ali acima, bastaria ligar para a companhia de energia local, e instruir seu filho a permanecer dentro do veículo, sem tocar nas partes metálicas dele, enquanto a rede elétrica não fosse desligada.

Finalmente, reside nisso a importância desse post: É imprescindível manter a calma e o controle para proceder em qualquer resgate. Somente quando temos plena consciência da existência e da extensão dos riscos, podemos controlar nosso nível de estresse, fazendo com que a nossa capacidade de raciocínio não seja prejudicada, e permitindo então que pensemos racionalmente numa maneira segura, tanto para nós quanto para a vítima a ser socorrida, de proceder com o socorro.

Um passo de cada vez sobrevivencialistas, e lembrem-se: o conhecimento em Medicina e técnicas de primeiros socorros, utilização de fios, suturas, bandagens, ataduras, soluções e remédios é de extrema importância em qualquer situação de emergência, mas de nada adianta dedicar tanto esforço a aprender sobre esses assuntos se na hora H você não tiver suporte emocional e psicológico para cuidar da própria segurança, e assim se manter em condições de ajudar uma pessoa no momento em que ela mais precisa.

Por isso, convido todos a refletir sobre o post. É uma questão muito séria. Entendam a importância de manter a mente saudável, a racionalidade, para só então passarmos às outras etapas de um socorro ou de qualquer procedimento médico.

E aí, o que achou do post? Muito técnico, ou acharam as explicações interessantes? Caso tenham gostado do post, gostaria de pedir sugestões de temas e assuntos para serem abordados em posts futuros.

Texto escrito por Gabriel Abe, acadêmico de medicina e leitor do Sobrevivencialismo.com.