Post do Leitor: Produção de cerveja e sobrevivência

Você já parou para pensar na produção de cerveja como uma prática interessante para suas preparações ou jornada em busca da autossuficiência? Sabia é possível fabricar cerveja em sua casa com poucos equipamentos e insumos?

Por que produzir cerveja em casa pode interessar ao sobrevivencialista?

Na minha concepção existe uma dupla relevância em aprender e praticar essa técnica. A primeira é ampliar os horizontes da autossuficiência, já a segunda é o valor material e moral que bebidas alcoólicas tendem a desempenhar em cenários de crise.

Do ponto de vista da autossuficiência, toda técnica que promove o acesso a um determinado recurso que compõem seu bem estar é bem vinda. Não obstante, uma das preocupações centrais de qualquer sobrevivencialista é a alimentação e, neste caso a cerveja pode desempenhar – ao menos para os adultos – um complemento nutricional valiosíssimo.

Isso porque se trata de um alimento altamente calórico e que também é nutritivo (obviamente não estou me referindo a cervejas de massa vendidas nos grandes mercados). É um alimento rico em minerais, fibras, proteínas e vitaminas do complexo B. Historicamente os monges católicos na época de quaresma, usavam basicamente cerveja como alimento para suportar os longos períodos de jejum, sendo essa a origem da expressão “pão líquido”.

Pensando em cenários de crise temos pelo menos três instancias onde a cervejinha pode salvar o dia: seu valor de troca, seu valor nutricional e seu valor moral.

Com relação a utilização dela como moeda de troca não me estenderei, creio ser bastante intuitivo a qualquer um nesse meio. Com relação ao valor nutricional apenas um adendo ao que já foi explanado acima: numa hipotética situação onde seja inviável o acesso a água potável (penso no que ocorreu recentemente em Mariana/MG) a cerveja cumpre perfeitamente esse papel de hidratante.

Historicamente, durante a Idade Média haviam péssimas as condições higiênicas e o jeito mais seguro de se hidratar fosse consumindo cerveja, cujo processo de fermentação livra o líquido de qualquer bactéria nociva e, justamente por isso, era oferecida até mesmo às crianças (obviamente não se sabia à época o quão nocivo o consumo de álcool é para o desenvolvimento infantil, então não embebedem seus filhos!).

Com relação ao valor moral, creio ser bastante intuitivo também, só gostaria de puxar anedoticamente um memória que quase todo adulto têm: um dia daqueles onde tudo deu errado, você está por um fio de tanto estresse e então você resolve tomar um trago e sente aquele alívio na pressão. Um pouco mais relaxado sua mente volta a funcionar bem e você está pronto para seguir caminho.

Entendendo as Bebidas Fermentadas

Ainda que pareça óbvio é bom lembrar que a Cerveja é uma bebida fermentada (diferente da cachaça, por exemplo, que é do grupo dos destilados) e que precisamos entendê-la como tal.

A fermentação é um processo bioquímico onde uma determinada bactéria ou fungo (o fermento) age sobre o material orgânico transformando-o. Dentre as bebidas fermentadas temos dois grupos principais: a cerveja e o vinho. Em ambos os casos temos a matéria básica (malte de cevada e uva, respectivamente), seus respectivos fermentos e um processo bastante parecido, onde através do cozimento das matérias primas obtemos um caldo rico em açúcares, sendo que o levedo (outro nome para fermento) se alimentará justamente destes açúcares.

Na medida em que o fermento se alimenta desses açúcares ele o metaboliza e o transforma principalmente em álcool e gás carbônico. Dentro dessa lógica transformamos a matéria prima em uma bebida fermentada, ou seja, que passou a ser alcoólica pela ação do fermento.

Vale ressaltar que muito embora essa pequena contribuição diga respeito à cerveja, existem outros fermentados relativamente fáceis de produzir e que mesmo não sendo populares no Brasil, normalmente agradam a todos os paladares. Deixo como sugestão de pesquisa o Hidromel (fermentado de mel) e a Cidra (fermentado de maçãs).

Visão Geral do Processo

O processo de fabricação da cerveja é razoavelmente simples, mas requer atenção e algum estudo. De forma resumida, gastasse no dia da produção uma média aproximada de 8h de trabalho, sendo indicado fazê-la nos finais de semana ou nos dias de folga.

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Insumos usados na produção

Tendo os equipamentos básicos e insumo procede-se por higienizar todo o local e equipamento. Depois se moem os grãos enquanto aquece a água para o cozimento. Passam-se os grãos moídos para a panela e se realiza seu cozimento (chamado mosturação).

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Grãos sendo moídos
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Cozimento (mosturação) dos grãos

Terminado o cozimento inicia-se o duplo processo de clarificação e lavagem: consiste em retirar o máximo de maltose (o açúcar da cevada) dos grãos e separar o líquido (mosto) dos resíduos sólidos.

Tendo apenas o caldo, parte-se para a fervura. É nessa etapa que se adiciona o lúpulo (planta responsável pelo amargor da cerveja) e processo imprescindível para a esterilização do mosto. Terminada a fervura resfria-se o mosto (existem diversas formas de fazer isso) e quando ele estiver em temperatura apropriada (que vai depender do fermento e receita escolhida) transfere-se esse líquido da panela para o balde fermentador e adiciona-se a levedura (processo chamado de inoculação). Depois disso é esperar.

Em média a cerveja levará de 5 a 7 dias para terminar a fermentação. Depois se aguarda mais um período de 10 a 20 dias para a cerveja maturar (melhorar seu sabor e aroma). Tendo encerrado a maturação é momento de passar a cerveja do balde fermentador para outro balde (preferencialmente com torneira na base), adicionar um pouco de açúcar e então envazá-la. Esse açúcar adicional vai fazer com que o fermento remanescente gere mais gás carbônico fazendo com que a cerveja fique gaseificada.

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Envasando a cerveja

Uma vez envasada aguarda-se outro período que varia de 7 a 14 dias para que a cerveja incorpore adequadamente o gás carbônico. Desta forma, num prazo médio de 30 a 60 dias, temos nossa cerveja pronta.

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Resíduos valiosos

A produção artesanal de cerveja produz dois resíduos valiosos: grãos cozidos e fermento. Os grãos obtidos após a mosturação são excelentes para inúmeras coisas: fabricação de pães (principalmente os doces), compostagem, alimentação familiar (fica ótimo no arroz) e alimentação de animais (cachorros e coelhos em especial adoram os grãos). Pode ser congelado e nessa condição pode duraram até 2 meses. Sem congelamento dura pouco tempo.

O fermento por sua vez, separado da cerveja ao final da maturação serve para fazer outras levas (o que requer alguns cuidados, mas nada muito complicado), ou pode ser usado para a fermentação de pães. Li alguns relatos de estadunidenses que usam esse fermento cervejeiro para a produção de iogurtes e queijos, mas sinceramente nunca tentei de não conheço esses processos.

Observações gerais

Como qualquer processo de produção de alimentos, a parte principal é o cuidado com a higiene. O principal erro que se comete ao produzir cerveja é a contaminação dela com outras bactérias e fungos que superem a levedura cervejeira na fermentação. Sendo limpinho, não tem erro.

Os equipamentos necessários variam muito dependendo do seu propósito e da quantidade de cerveja que se quer fazer. Como qualquer hobby há algum custo envolvido. De forma simplista, em média gastasse de R$ 700 a R$ 1500 reais em equipamentos iniciais para se produzir com segurança. O custo médio de produção de 20 litros de cerveja é em torno de R$ 120 reais, entre água, gás e insumos.

Existem muito sites brasileiros especializados no assunto, incluindo bancos de dados com receitas e artigos esmiuçando cada aspecto da produção, desde para novatos até para cervejeiros de longa data e experiência. Também existem diversas lojas online que vendem tudo necessário para se produzir, desde equipamento até especiarias para dar aquele gostinho diferenciado para sua produção.

Deixo como recomendação a quem se interessar uma web série desenvolvida pela cervejaria Eisenbahn sobre a produção caseira de cerveja, facilmente encontrado no youtube (Clique aqui) e o livro do John Palmer “How to Brew”, que é de domínio livre atualmente e possui versões traduzidas para o português (Clique aqui) para aqueles que têm dificuldade com o idioma inglês.

Estejam preparados.

Post escrito pelo leitor Gibran Moraes.