Como se preparar para um desastre como o de Mariana?

Deixando um distrito completamente destruído, muitas mortes e um incalculável dano ambiental que se arrastará por muitos anos, o rompimento da barragem de Fundão se configura como o maior desastre ambiental da história do Brasil. A grande pergunta para aqueles que acompanharam o evento pelos noticiários é… Como se preparar para um evento como esse?

A primeira resposta que vêm em nossa mente é um grande “NÃO É POSSÍVEL”. Quando uma massa de lama de 50 milhões de metros cúbicos vêm em direção à sua cidade sem aviso prévio, as chances de lidar com a ameaça são bem restritas. Por isso, vamos ser realistas e entender que grande parte do que vamos abordar neste texto vêm como forma de prevenção, ou seja, antes do desastre acontecer.

Importante: O objetivo aqui não é refletir sobre o desastre e suas possíveis causas, e sim fornecer possíveis saídas para eventos futuros. Para aqueles que não estão cientes do evento e suas particularidades, recomendo que leiam este artigo de perguntas e respostas que esclarece a situação de maneira bem simples e direta.

Tudo começa pela análise de risco

A análise de risco é a base para qualquer preparação contra crises. Independente de estar procurando um novo local para morar ou se reside a décadas na mesma cidade, você precisa compreender quais são os possíveis riscos em sua região. Muitas pessoas se perdem em manchetes mundiais (guerras e crises econômicas) e não sabem sequer quais os riscos imediatos próximos de sua casa.

Comece anotando todos os pontos de atenção, como:

  • Indústrias;
  • Represas/Barragens;
  • Rios com muita variação de nível;
  • Bases militares;
  • Lixões e depósitos de dejetos.

Ao fazer isso, você já consegue “marcar no mapa” grande parte das estruturas ou sistemas que podem oferecer risco para você em caso de falha humana ou desastre ambiental.

Recomendo que você assista este vídeo que fiz em 2012 onde abordo o assunto de maneira mais completa. Apesar de possuir edição e qualidade inferior, seu conteúdo cabe perfeitamente nesta discussão:

Já sei quais as principais ameaças à minha volta… E agora?

De nada adianta conhecer as ameaças se você não pensar em maneiras de como lidar com elas. Infelizmente temos a tendência de pensar “isso nunca vai acontecer” e apagar a preocupação de nossa mente, porém isso não elimina o fato de que a ameaça continua ali.

Todos residentes do distrito sabiam da barragem, porém nunca consideraram a possibilidade dela estourar. Por isso, acredito que grande parte dos moradores não tinham planos para reagir a este tipo de cenário e recorreram ao pânico e fuga sem estratégia. Não os culpo por isso, afinal, nós brasileiros não temos a mesma cultura de prevenção como outros países (Ex.: Japão).

Enfim, para que você possa criar um plano de ação efetivo para lidar com as ameaças que detectou você precisará saber quais são os recursos que você têm à disposição. Sim, aqui estamos falando da análise SWOT, que permite que você estude suas forças, fraquezas, oportunidades e ameaças.

Neste vídeo (também antigo) explico passo a passo como realizar esta análise:

Agora, hora de criar rotas de fuga

Quando falamos de desastres naturais, dificilmente você terá a escolha de ficar em sua casa. Seja em um caso como o desastre de Mariana, uma enchente ou qualquer outro problema do tipo, o mais inteligente é deixar a região de risco o mais rápido possível.

Para tal, você não pode simplesmente entrar em seu carro e acelerar pela primeira estrada que ver pela frente. Agir de maneira irracional ou guiada pelo pânico só lhe colocará em situações piores do que as iniciais. Para evitar isso, você precisa criar uma rota de fuga.

Pegue o mapa de sua região e comece a estudar as estradas disponíveis. Determine quais são as de maior tráfego e quais são as estradas secundárias/vicinais. Alguns pontos que você precisa se atentar ao criar sua rota de fuga:

  • Crie um ponto de encontro para sua família: Ter uma forma de se comunicar e um local pré estabelecido para encontrar todos os familiares em caso de urgência é imprescindível. Muitas pessoas se perdem de seus familiares e podem demorar meses até conseguirem se reencontrar em cenários de desastre;
  • Separando recursos de sobrevivência: O que você levará? Tenha em mente que possivelmente você precisará de pelo menos três dias de suprimentos até qualquer ajuda chegar na região. Para isso, vale montar uma mochila de fuga;
  • Escolhendo o meio de transporte: O seu carro está operacional? Quais obstáculos ele conseguirá passar? De nada adianta escolher uma rota e atolar em um lamaçal no meio de uma estrada rural. Se você tiver condições, pode ter um veículo de fuga pronto para partida;
  • Definindo a rota de fuga: A rota que você escolheu não estará engarrafada? Se todos quiserem fugir pelo mesmo caminho você corre o risco de ficar preso em um engarrafamento e colocar sua vida em risco. Opte por estradas secundárias e menos trafegadas;

Se você está em uma zona de risco como o caso de Mariana, vale priorizar estradas que o levam para regiões mais altas em menor tempo possível.

E se eu não conseguir fugir? 

No caso do desastre de Mariana a mineradora não disparou nenhum alarme sonoro para alertar os moradores sobre o rompimento, apesar de tal sistema estar previsto em lei. Isso quer dizer que, mesmo que você esteja preparado, talvez seja pego de surpresa pela situação e não tenha tempo de reação nenhum.

Caso você não tenha mais tempo de fugir, suas alternativas ficam muito mais restritas, lembre-se que sobrevivência e tempo de reação estão intimamente interligados. Ainda assim, existem algumas maneiras de proceder:

  • Armazene suprimentos no forro de sua casa: Em muitos cenários de enchente o único local de refúgio para as vítimas é o telhado de suas próprias casas. Com todo o resto embaixo d’agua, as pessoas se vêem sem roupas secas, comida ou água potável. Para evitar isso, você pode colocar alguns recipientes com recursos para pelo menos três dias no forro de sua casa, preferencialmente lacrando estes para que fiquem à prova d’agua. Itens como água, uma lona (para evitar o sol), comidas que não precisem de preparo e roupas contra o frio são imprescindíveis;
  • Tenha um pequeno rádio PX: Celulares são os primeiros itens a falhar em um cenário de desastre. Ter um pequeno rádio de mão que opere na faixa do cidadão vai lhe permitir pedir socorro. Apesar das equipes de resgate geralmente utilizarem as frequências VHF/UHF, ter um PX vai aumentar suas chances de ser ouvido por alguém e então ser resgatado;
  • Não assuma riscos: Se você estiver no telhado de sua casa (por exemplo) e estiver relativamente seguro e estável, não tente se deslocar. Você deverá se deslocar somente em caso de risco iminente caso continuar no local onde está.

Uma simples conclusão

O grande problema de nossa mente é sempre assumir que quando uma probabilidade é baixa, ela não existe. Não podemos ficar paranóicos e fóbicos vivendo nossos dias com medo, mas precisamos criar uma consciência de preparação e reação contra desastres. Sim, é obrigação do governo e do Estado te ajudar, mas você não pode contar que ele será capaz de fazer isso de forma eficiente ou rápida (ainda mais aqui, no Brasil)… Então, não seja uma vítima, não exponha sua família à riscos desnecessários, seja um sobrevivencialista.

Até.

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13 comentários

  • Murilo Almeida

    Infelizmente é muito triste ver uma tragédia (anunciada) como a de Mariana que foi soterrada pela lama e provavelmente ira desaparecer do mapa… Fora os danos imediatos, ainda iremos ver uma cascata de ocorrências decorrentes deste desastre… Foi um altíssimo preço que se pagou por viver na Síndrome de Avestruz ou mesmo desconhecer (por ignorância ou baixa escolaridade ou por descrença) os perigos que rondavam as barragens porcas que seguravam esta lama toda… Eu jamais viveria em Mariana ou em outra cidade com este perfil topográfico que aponta ao desastre…

    Já fiz vários cursos da Defesa Civil, sendo membro da RENER (radioamadorismo), e, inclusive, sugiro que façam o Curso de Capacitação Básica em Defesa Civil (gratuito e oferecido na modalidade de educação a distância) que esta acessível pelo http://www.defesacivil.cursoscad.ufsc.br ou pelo menos leiam as apostilas dos cursos…

    Obrigado Julio, muito bom texto e excelente vídeo… Sempre existirá algo a aprender… Até mesmo numa releitura, encontramos enfoques diferentes… E certamente a melhor forma de aprender é ensinar ou compartilhar informações… Avante !

  • O mais básico é se tem chance de acontecer uma crise(qualquer) no local onde você mora não more ai e ponto eu não moraria em um local abaixo de uma barragem meia boca de uma empresa com históricos nada bons e sem preparação pois minha vida estaria em risco.

  • Pessoal, eu sei que nossos governos não funcionam a contento em nenhuma esfera, mas vale a pena se informar sobre o funcionamento da Defesa Civil e participar quando possível, especialmente quem vive em pequenas cidades. O Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil é regido pela lei 12.608/2012. Alguns estados possuem sistemas úteis de Defesa Civil, como SC, que está implantando seu terceiro radar metereológico e um sistema de alarme prévio de tempestades e tornados. O site da Defesa Civil de SC tem MUITAS informações úteis. Por exenplo, no dia 01 e 02 de dezembro ocorrerá o VII Fórum de Prevenção aos Riscos de Desastres na Bacia do Rio Itajaí, em Blumenau/SC. Vale participar! Agrega conhecimentos e faz contatos. Conseguir um whatsapp do pessoal responsável pela Defesa Civil do seu estado pode te proporcionar informações muito valiosas. Muitos municípios também possuem um Conselho Municipal de Defesa Civil, que muitas vezes é esvaziado, por falta de participação. Um pessoa pró-ativa, como nós, pode fazer a diferença nas preparações da comunidade. Lembre-se quanto mais resiliente, organizada e ordenada for sua comunidade, maior sua chance de sobrevivência e de sua família!!!

  • Gustavo Lanes

    Deixei de comprar uma BOB próxima à Alegrete em função da proximidade com o exército, é praticamente uma cidade militar. Agora tenho que recalcular muita coisa, pois estou de mudança para Santa Catarina, e uma plano de evacuação mudaria completamente sua estrutura de acordo com o local. Além disso minha família estará distribuída em três estados, o que pode ser um problema. Tirando o problema de mobilidade, o jeito é replanejar baseado na estratégia antiga, uma espécie de plano de contingência adequado ao novo cenário.

    Você tem alguma consideração relevante relativa à estabelecer um plano de evacuação no litoral?

    • Gustavo, sei que vc perguntou para o Júlio, mas vou dar um pitaco: litoral de SC é onde os ciclones extratropicais do Atlântico tocam a costa, portanto estude o Furacão Catarina e os tornados que atingem a região, especialmente no Sul do Estado, bem como as frequentes tempestades e deslizamentos de terra. Algumas buscas na internet te darão muitas informações sobre o histórico da região onde você está indo morar. Outra coisa importante é que a BR101, principal via da região vive congestionada, em dias normais, imagine quando acontece problemas! Espero ter colaborado! Valeu!

      • Gustavo Lanes

        Acho que terei que adquirir outro veículo, acredito que seria um problema evadir de moto em meio à uma tempestade, embora seja o veículo mais dinâmico no caso. Talvez um jipe fosse mais adequado, dessa forma também poderia aprender à manusear um rádio comunicador.

    • Murilo Almeida

      Ter um carro de tração nas 4 rodas (4×4 ou 4HD ou WHD) é ao meu ver o mais adequado,para empreender uma fuga, muito embora uma moto de trilha seja bem mais ágil, porem se você estiver carregando a família e equipamentos, vai precisar de espaço e fatalmente cairá num offroad…

      Aprender à manusear um rádio comunicador tipo o “Rádio Cidadão” ou mesmo “Radioamador” é fundamental então sugiro procurar a LABRE (www.labre.org.br) mais próxima ou a ANATEL ( http://www.anatel.gov.br )…

      Para montar um bom plano de evacuação no litoral onde você mora, baseie-se nos vídeos do canal e dê uma estudada na topografia e estrutura viária da sua região, procurando rotas alternativas (pouco usadas)…

  • Carlossilvapb eu sou morador de Colatina no ES que foi atingida pela lama!!! Cara quando os caminhos vao entregar agua no meu bairro e nos adjacentes esta uma jona de guerra!!! O pessoal se atraca e sai na porrada pra conseguir, o prefeito da cidade ta deixando por debaixo dos panos quando fala na tv, mais a situaçao esta tensa!!! A minha sorte e que desde pequeno meu avo me ensinou a andar pelos matos que tem aqui perto da minha casa e eu conheco algumas nascentes!!! (Eu com a ajuda dos meus visinhos limpamos a area onde esta a nascente, e aonde estava cheia de lixo!!!)

    • SHTF way of life.

      SHTF sem dúvida.

      Para qualquer pessoa que esteja nestes lugares e tenha preparação eu sugiro que mesmo se você tiver água em casa, que vá para a fila de água e mostre desespero. Se houver tumulto por água, participe do tumulto, mas não muito, apenas aparente estar.

      Não fique com cara de “Sou preparado, estas coisas não ocorrem comigo, haha, otario! ”

      Aqui em casa mantenho sempre 4 garrafões, moro só. Acho que vou aumentar para seis. Além disto há o filtro de mesa da purifique que é de onde costumo beber água.

  • carlossilvapb

    Outro ponto terrível nesta tragédia: Vejam as reações das pessoas, principalmente nas cidades onde o fornecimento de água foi cortado. Brigas por água, comerciantes inescrupulosos praticando sobrepreço, entre outros absurdos…

    • É o preço que se paga por viver na negação. Obviamente muitos dos sobrevivencialistas mais atentos dessas cidades nunca teriam imaginado esse desastre, mas há vários outros motivos para estocar víveres. Só resta esperar aue isso sirva de lição para essas pessoas.

  • Principal: Não more à jusante de uma enorme barragem meia boca, de terra….

  • paulo américo

    Julio, as pessoas terem cópias de suas fotos e documentos em um pen drive ajuda, não? e a comunidade reclamar uma simulação periódica de evacuação (isso reduz o pânico se houver desastre, vide Angras I e II que têm treinos com o pessoal do entorno), cobrar os tais sistemas de alarme ANTES do desastre. Ter um time pequeno de moradores nos moldes de uma brigada de incêndio, incluindo os líderes comunitários, professores, agentes de saúde… Existiria no local uma torre de observação (precisaria de dois ou três funcionários, custo baixíssmo) ou câmeras de vigilância ligadas na internet, acessíveis ao povo rio abaixo? um monitorzinho de TV com as imagens full time, estrategicamente colocado, custaria uma merréca. Porque não tiraram os moradores do vale, mudando suas casas para os morros?

    ótima matéria a sua, nesse que já está sendo classificado como um dos cinco maiores desastres ambientais da história!

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