Texto do Leitor: Minha crise financeira

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Aqui você não encontrará sensacionalismo de modo algum! Aqui eu quero falar sobre uma crise real que de forma furtiva se apoderou da minha vida e da minha família nos colocando em uma situação deplorável e alertar que praticamente todo brasileiro está sujeito. S​im cara você está em risco, todos estamos.

Eu sou um cara comum, tenho por volta dos 30 anos, sou Mecânico Industrial, minha esposa é um ano mais jovem que eu e temos uma filha de nove anos, no momento desta crise ainda morava conosco uma amiga e seus dois filhos. Trabalhávamos todos em uma empresa do setor do petróleo e juntos tínhamos uma receita de 10 a 15 mil reais mês prevendo oscilações por conta de horas extras que frequentemente fazíamos.

No começo de 2014 começamos a ouvir boatos de paralisação do complexo petroquímico do Rio de janeiro por conta de falcatruas na Petrobras, bom, na ocasião ficamos alguns dias apreensivos pois seria um problema sério. Mas… Os dias passaram e fui pego pela cultura de falta de memória do brasileiro. NÃO TOMEI NENHUMA ATITUDE.

Deixe-me apresentar alguns dados: o COMPERJ trata­-se de um investimento de aproximadamente R$ 32 bilhões e é administrado pela PETROBRAS, onde várias empresas de renome tratavam da construção das plantas da refinaria que seria a maior refinaria do BRASIL e ainda contando com as empresas de beneficiamento de derivados. Inicialmente o COMPERJ visava gerar 25 mil postos de emprego.

Conhecendo estes dados todos pensamos “Claro que não vão parar uma obra deste tamanho”… Ledo engano.​ Assim trabalhamos normalmente e seguimos nossas vidas até o recesso de fim de ano de 2014 onde algo muito estranho aconteceu! Nossos salários atrasaram.

​”Como assim? Porque não nos pagaram??”

A empresa com respostas duvidosas simplesmente sumiu, a operação lava­ jato estava divulgando listas de empresas envolvidas e quando verificamos, TODAS AS EMPRESAS do empreendimento (onde eram mantidos mais de 55 mil postos de trabalho) estavam nas listas.

Então a empresa informou extra oficialmente que efetuaria nossos pagamentos até o dia do fim do nosso recesso em 03 de janeiro de 2015. Até aí tudo bem, iria ser um fim de ano ruim mas aguardamos isto, um tanto apreensivos mas aguardamos. Alguns dias depois – uns três dias antes do fim do recesso – recebemos um comunicado que não haveria transporte para nos levar até o trabalho (o transporte é provido pelas empresas, pois o acesso ao empreendimento é restrito).

Pronto… “​SHTF”. Os ônibus só circulariam após os nossos pagamentos serem efetuados, esta medida foi imposta pela Petrobras visando garantir a segurança do empreendimento pois os trabalhadores poderiam de alguma forma depredar os equipamentos em ato de revolta contra os salários atrasados.

Neste contexto pensamos “Eles devem nos pagar porque se não o fizerem a obra toda vai parar!” e esperamos mais uma vez. Logo pude perceber que a situação estava piorando em uma escala distópica, pois nunca haviam atrasado nossos salários e eu e minha família estávamos usando alguma reserva financeira que durou alguns meses.

Infelizmente vários colegas de trabalho estavam a míngua, pessoas foram despejadas, outros tiveram que voltar pra suas cidades de origem, alguns tinham que voltar mas não tinham dinheiro pra isso… E rapidamente os nossos recursos acabaram e não havia o que fazer.

Em um prazo de três meses vi o setor do petróleo onde eu trabalhava e era muito bem pago minguar, me vi frente a frente com o meu maior medo: a ​falência financeira.​

Eu tinha uma despesa de cerca de seis mil reais por mês e havia três meses que não arrecadava nada. Me questionava “O que eu teria feito de errado? Em que ponto eu teria feito alguma coisa pra colocar a minha família naquela condição? “A resposta era simples NADA.

Eu e a grande maioria sempre ouviu e acredita que se estudarmos, nos esforçarmos, conseguiremos bons empregos de carteira assinada e que dependendo da área/setor estaremos seguros pois os direitos trabalhistas são garantidos por lei…

Bom, três meses sem receber e sem dar baixa nas nossas carteiras nos víamos limitados a súplicas para o governo, o poder legislativo ou o sindicato para tentar garantir aquilo que é visto como direito vinculado. Eu me perguntava “Onde está a Lei?”

Houveram manifestações onde a ponte Rio Niterói foi fechada, que inclusive foram veiculadas em TV de rede nacional para mostrar absurdo que vivíamos e nada foi feito.

Trabalhadores fecham a ponte Rio Niterói

Enquanto isso eu e minha família passamos a vender objetos pessoais para comprarmos comida, já não pagávamos as prestações da casa nem a luz eu fiquei em pânico quando as últimas econômicas foram usadas pra comprar comida, sabendo que quando ela acabasse eu teria a fome como palavra de consolo enquanto meus empregadores simplesmente se negavam a pagar o que me deviam. Durante esse período o ministério do trabalho em caráter de “Urgência” iria avaliar em duas semanas se poderia fazer um acordo para que a empresa que me contratava e a Petrobrás poderiam finalmente começar as nos pagar.

Neste ponto vendi nosso carro, um opala SS 1973 que eu adorava de tinha gasto uma quantia considerável para refomar.

Formaram uma comissão que foi a Brasília cobrar do ministério do trabalho uma intervenção. Foi marcada uma reunião para a semana seguinte e eu acreditei que finalmente o que era meu por direito seria garantido e pagaria as contas , que eu teria a carteira liberada para procurar outro emprego. Então, tomei dinheiro emprestado pois o ministro do trabalho disse que viria pessoalmente ao rio de janeiro resolver a questão.

​No entanto, ele veio… Esperamos no hall do prédio até a reunião acabar e logo veio a notícia: o ministro do trabalho veio ao Rio de janeiro e participou de uma Reunião por quase quatro horas onde chegou a conclusão que ele deveria buscar mais informações com o ministro de minas e energias e precisava entender se a Petrobras detinha algum valor em débito com a terceirizada onde eu trabalhava para a partir daí buscar um acordo de como pagamento poderia ser feito.

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Quer dizer, o então Sr. Manoel Dias, Ministro do Trabalho, veio até aqui sem nem ter se dado o trabalho de se colocar a par da situação?

Não existe uma verba que é destinada a gabinetes e a ministérios que paga assessores para este tipo de coisa? Será que uma secretária ou um assessor não poderia ter buscado esta informação antes da reunião? A minha família a beira de passar fome e o ministro do trabalho pedindo para que aguardássemos mais duas semanas para recebermos o que a empresa nos deve? Somos 3.500 trabalhadores de carteira assinada que tem um pedido de calma enquanto nossas famílias passam fome, são despejadas e se vêem marginalizadas sem nem mesmo encontrar outro emprego porque as carteiras ainda estavam em aberto.

Sim era essa nossa condição, foi quando finalmente eu pude ver o meu erro.

Captura de Tela 2015-11-04 às 12.56.47Matéria do G1

TUDO QUE NOS DIZEM SOBRE DIREITO É MENTIRA E EU CONFIEI NISTO!
Sobrevivi e minha família também, até hoje – um ano depois – ainda não fomos pagos, foi aberto um processo e nossas carteiras foram liberadas depois que ocupamos o prédio do ministério do trabalho. Encontrei outro emprego e minha esposa também.

Tiramos uma lição muito importante disto tudo: estamos sozinhos. Nós brasileiros não temos direito algum garantido e no que depender dos três poderes, a fome a necessidade de moradia e de receber salários atrasados e direitos trabalhistas podem esperar por mais de um ano que é o tempo que espero.

Hoje substituí minhas roupas por roupas de trekking de material Leve e de secagem rápida, uso botas de EPI como calçado principal, minha mochila do dia a dia é uma mochila tática padrão molle, carrego um kit de edc que abrange os quatro princípios – abrigo, água, alimentação e fogo -, montei uma mochila igual para o dia a dia para minha esposa, estoco bastante suprimento para um período de seis meses e contínuo aumentando essa reserva que incluí tudo, de papel higiênico a água mineral, passando por dinheiro e suprimentos médicos.

Tirei os passaportes de todos da minha família e mantemos um plano de evacuação para o exterior no caso de uma crise econômica mais grave. Vendi a minha casa e pago aluguel, porém o dinheiro da venda da casa eu acumulei como uma espécie de poupança para sair do país caso precise e também reduzi minhas despesas o máximo que pude.

Minha esposa viveu o mesmo que eu e compartilha das minhas ideias.

Como trabalhamos na indústria ela passou a usar as mesmas roupas que eu no trabalho. Eu uso o uniforme da empresa no local de trabalho mas no translado uso roupas táticas e o conceito de camadas ainda assim mantendo o perfil baixo, comprei rádios talkabout o que nos garante alguma comunicação.

Comprei livros sobre plantas comestíveis, raízes, pus minha filha num grupo de escotismo e acampamos com frequência onde treino pesca, fabricação de armadilhas… Técnicas primitivas em geral e estou lendo agora sobre lockpiking.

Não quero dizer que estou preparado para um apocalipse zumbi ou sei lá mais o que for.  Não tenho equipamentos ninja de sobrevivência nem militarizados apesar de manter algumas utilidades de características militares. Sou uma pessoa comum, o que pude perceber é que o cenário de crise está muito mais próximo do que normalmente imaginamos e age de maneira furtiva…

O que fiz foi atrelar minha vida comum e cotidiana a um padrão de comportamento onde economizo e guardo tudo que é útil e prático numa situação de sobrevivência real e simples – como a de um estado de governo que não garante direito vinculado simples como o acesso ao salário no caso do trabalhador de carteira assinada.

A minha família teve bastante sorte, tínhamos acesso a recursos e mesmo assim ainda sofremos perdas financeiras graves por um simples problema trabalhista, uma desordem que é proveniente do caos politico e econômico que o Brasil se encontra. Houveram famílias muito mais prejudicadas, hoje o COMPERJ está parado com equipamentos que custaram milhões se estragando sem manutenção. 55 mil postos de trabalho foram extintos somente no que tange empregos diretos.

A economia da cidade de Itaboraí e cidades vizinhas que se beneficiavam da receitas oriundas destes postos de trabalho está seriamente prejudicada com prédios vazios e lojas fechando as portas.

Agora imaginem comigo: junto com a alta do dólar, a inflação, a desarmonia política, as previsões de baixo crescimento econômico, o êxodo de investidores internacionais… Será que o Estado tem condições de garantir algum dos seus direitos básicos como o acesso a alimentos, a energia e segurança? Será que o seu dinheiro que está no banco está realmente lá? O que lhe garante isto? A palavra do estado?

Sabe o que você aprendeu sobre leis e direitos e deveres? Eu também aprendi, eu também confiei.  Acreditava no meu país mas o que mais me deixa triste é que quando precisei o meu país agiu com muito descuido e sem nenhuma urgência.

É triste mas é real, depois desta crise passei a ver coisas do dia a dia de uma forma diferente, como por exemplo:
Somente 8% dos assassinatos no Brasil são solucionados e seus autores punidos. 9​2% dos assassinatos ocorridos no BRASIL ficam sem solução!

Como confiar que o estado garante meus direitos básicos se nem consegue garantir a punição dos marginais? ​Não acredito que possa e tenho medo seu eu mesmo não puder.

Pense e prepare­-se, não seja o Rambo, Bourne ou Bear Grils. Seja o cidadão comum que cuida do bem estar da sua família. PREPARE­-SE!

Autor preferiu não ser identificado.