Fuga para o mato: Uma outra visão

Por Eremita Urbano

Hoje vou falar um pouco da minha percepção de fuga para o mato. É um assunto onde existe muita divergência de opiniões então vou deixar a minha para servir de reflexão, mas que fique claro que a sua escolha deve ser sempre pessoal e pautada na sua experiência pessoal e no seu planejamento individual. Não existe “resposta padrão certa”, seja qual for a sua escolha, ela vai ser certa apenas para você. Lembrem-se, cada caso é um caso. Não tente impor a sua resposta – mais uma vez eu friso –  ela só é certa pra você!

Eu gosto muito de mato, gosto mesmo, mas apenas pra ficar de uma a três noites no máximo, mais que isso só se for preciso… Ficar uns 30 dias no mato? Consigo! Mas não vou achar confortável ou divertido – explico melhor a frente. Quem consegue ficar “na boa” em um acampamento por mais de quinze dias tem o meu mais profundo respeito e admiração.

Se você nunca foi para o mato amigo, não vá para lá sem conhecimento… O natural para o ser humano é a cidade. Digo isso pautado na nossa constituição física frágil, que exige que tenhamos sempre artifícios para permanecer por lá.

Vou exemplificar.

Não temos pele grossa ou pelos em grande número, então temos que sempre apelar para repelentes de insetos ou então ter meios “artificiais” para os repelir, como fumaça por exemplo. Não temos garras afiadas ou dentes fortes então temos que sempre estar ao menos com uma faca ou bastão para nos proteger.

Nossa fisiologia é mais frágil, isso implica que não podemos beber água da mesma forma que os animais bebem ou ficaremos doentes, então mais uma vez temos que recorrer a artifícios usando filtros, cloro ou fervendo a água. Do mesmo modo a comida, se você conseguir caçar um javali por exemplo, você não vai conseguir comer ele cru. Tem que prepará-lo, tem que assar.

Por essas e outras que digo que mato é pra quem sabe e me preocupo com alguns novatos que acham que mato é a melhor opção porque alguém famoso falou… Amigo, não é não, não é mesmo! A melhor opção é ficar no ambiente que lhe deixar mais confortável.

Falando por mim, eu não tenho condições financeiras para ter um local de fuga preparado(BOL), então meu planejamento é todo focado no “forte urbano” de forma que eu possa ficar meses sem sair de casa numa crise.

Sou uma pessoa muito ligada em tecnologia, ela está fortemente presente em minha vida e na minha formação, entretanto gosto muito de conhecer e praticar artes mateiras e as valorizo muito, por isso sei e reafirmo que mato não é pra qualquer um, tem que estar muito bem preparado e realmente saber o que esta fazendo.

Muitos falam em ir pro mato quando a crise aparecer, mas eu pergunto… Já tentou efetivamente ficar 15 dias no mato só com a mochila? Não é fácil! Por isso para eu deixar meu “forte urbano” só se for por um acidente radioativo, nuvem tóxica ou se eu ver no jornal o Willian Bonner mostrando que de acordo com um novo programa da NASA, os cálculos indicam que um meteoro vai cair nesse local… E mostrar na TV a casa dos meus cachorros na foto do satélite, aí sim eu sairia, de resto vou é me entocar em casa e eu não saio do meu “forte urbano” para nada, por um bom tempo.

Em minha opinião, baseada na realidade que vivo, mato é minha última opção. Isso se dá pelas maiores adversidades de estar nesse meio – como já citei, e principalmente com família. Temos que pensar bem antes de uma atitude assim. Vão por mim, a não ser que sua família TODA (toda mesma) sejam exímios campistas, vai ser um inferno ficar fora da cidade com um pessoal sem experiência mateira. É serio!

Mas mesmo que você seja um ser totalmente urbano, recomendo fortemente que aprenda sobre artes mateiras, afinal, dependendo da crise e do tempo de duração pode ser que você tenha que cozinhar sem gás então é interessante saber preparar alimento em fogueira ou em um pequeno fogão a lenha, e vou além… Pode ser que seja necessário caçar e preparar a caça.

Ah, Eremita caçar na cidade?

Claro! Eu creio fortemente que é muito mais fácil caçar alimento na cidade. Vejam!

Mamíferos… Temos facilmente cães, gatos e ratos em abundância e todos esses animais são comestíveis se bem preparados. Não vou colocar links já que a visão pode não agradar alguns, mas você encontra material facilmente no google, ensinando preparar caso queira.

Quanto a aves, temos pombos em fartura e como no exemplo acima basta saber preparar. Quanto a abrigo nem preciso falar muito, e muito mais fácil encontrar abrigo em cidades que no mato.

Água potável eu também acho muito mais fácil achar na minha cidade do que no mato, visto que eu conheço várias fontes nas proximidades e até dentro da própria cidade que não estão poluídas. Isso em último caso, já que na minha casa além da água padrão da distribuidora em uma caixa de 10.000 litros,  poço e captação de água da chuva.

Para frutas e verduras tenho uma horta em casa que produz bastante, é incrível o quanto se pode produzir em pequenos espaços fazendo do jeito correto. Além disso se for preciso na própria cidade existem árvores frutíferas! Pelo menos na minha a dois quarteirões tenho jaqueiras, pés de manga, coqueiros, e muitas outras. Por isso afirmo que NO MEU CASO, não é a melhor opção ir paro mato, com certeza estou bem mais confortável nesse ambiente urbano que conheço bem.

Tudo se resume ao conhecimento do meio em que vive.

Bom amigos, frisando mais uma vez: Ir ou não ir pro mato é uma ponderação individual baseada na sua realidade. Se você é um mateiro experiente tudo bem, mas me preocupo com pessoas que leram em algum lugar que o ideal é ir para o mato e vão, sem ter conhecimento prático algum sobre esse ambiente que pode facilmente custar vidas.

O melhor lugar para ficar numa crise principalmente com família é onde puderem ficar o mais confortáveis possível.

Resumindo:  Sair para o mato é para quem sabe o que esta fazendo, gosta, tem experiência e alguma preparação por lá como uma BOL montada. Se você não tem, pode ser mais interessante ficar na cidade, principalmente se tem família. Aprenda as artes do mato mesmo sendo um ser urbano, elas podem ajudar muito em algumas situações. Mas seja no mato ou na cidade, sobreviver se resume a conhecer bem o meio em que vive e assim poder tirar o melhor dele. Não dê por certo nem a afirmação que “ficar na cidade é o melhor” e nem que “ir para o mato é o melhor” analise ponderadamente a sua realidade e se baseie nela para fazer sua escolha.

Eremita Urbano(@fortedoeremita) é Cientista da Computação, pós-graduando em Gestão da Tecnologia da Informação e Técnico em Administração Empresarial. Atuou mais de 10 anos como instrutor de computação e rotinas administrativas. Aficionado em aprender, acredita que o estudo do sobrevivencialismo e assuntos correlatos, pode nós aperfeiçoar e nos tornar humanos melhores.