SHTF: As diferentes faces do medo

Para aqueles que não conhecem o contexto do blog SHTF School, clique aqui para ler a introdução do blog e assim conseguir entender o texto abaixo.

Eu posso dizer que o medo era constante. Algumas vezes ele fazia decisões por você, algumas vezes era apenas um lembrete no fundo da sua cabeça. Medo do desconhecido, medo da dor, medo de coisas pequenas que podem se tornar desastres, coisas como o frio ou machucados.

Assim como a maioria das coisas não é exata, o mesmo ocorre com o medo, todo mundo reagia de formas diferentes. Alguns podem dizer que o medo pode te matar eu concordo, mas o medo também pode salvar sua vida. O medo pode “fazer” coisas por você.

Eu vi pessoas fazendo coisas estranhas e loucas simplesmente porque estavam aterrorizadas com medo de perder suas vidas ou a sua família. Eu vi um homem que derrubou dois homens armados com um rifle, ele entrou em frenesi devido ao medo do que eles iam fazer com ele e sua família. Ele nem mesmo atirou, ele apenas usou seu rifle como uma espécie de bastão e bateu nos dois homens até quase matá-los.

Ele não era um Chuck Norris ou coisa similar, ele era um pai aterrorizado. O medo o transformou em um mostro.

Quando você se encontra em uma situação de vida ou morte o medo pode tomar conta de você.

Eu estive em uma situação onde precisei ficar escondido e queto enquanto um grupo de homens passava por mim, era uma questão de vida ou morte e eu sabia disso. Eu lembro que me coração estava batendo tão forte que eu estava pensando “esses caras vão me ouvir, eles vão ouvir meu coração”. Eu acho que estava respirando normalmente, mas lembro de sentir que minha respiração estava tão barulhenta que eu ficava olhando para trás e vendo se não havia mais alguém atrás de mim.

Depois tudo ficou mais fácil. Nas primeiras situações o medo te controla, depois de um certo tempo você vagarosamente aprende que tem que controlá-lo. Se você tiver tempo o suficiente para aprender isso, é claro.

Mas novamente, as pessoas reagem de formas diferentes. Com o tempo você pode aprender a controlá-lo e usá-lo ao seu favor, quase como que um super poder, um tipo de explosão de adrenalina. Então você pode fazer as coisas mais rapidamente e melhor. Este é o ponto que você deve querer chegar.

Eu estou falando de um homem ordinário, não preparado, não treinado.

O que eu aprendi com certeza é que as pessoas não morriam porque tinham muito medo, elas morriam pois reagiam de forma errada, o medo as paralizava.

É bom quando o medo te empurra para a ação, correr ou lutar, fazer alguma coisa ou não fazer nada. É ruim quando ele te paraliza.

A primeira vez que uma gangue veio em grandes números e atacando tudo no seu caminho a coisa mais difícil de entendermos era o fato de que eles tinham más intenções. Eles queriam nos machucar ou nos matar. Depois disso o medo surgiu e nos moveu para defender e lutar.

Como eu disse antes, nós todos aprendemos mais ou menos como controlar o medo e de certa forma usar isso ao nosso favor. Alguns fizeram isso melhor que os outros, alguns aprenderam e outros não quiseram aprender.

Um de meus vizinhos era um cara normal, com uma vida normal. Ele simplesmente não conseguia entender que estávamos em guerra e que nada era normal agora. Ele era o cara que sempre se esforçou para ser um cidadão que obedece leis. Nunca dirigiu rápido, usou o cinto de segurança, pagou suas taxas, cuidou de sua linguagem e confiou no governo.

De qualquer forma, quando a guerra chegou até nós, todos os tipos de “forças policiais” apareceram. Digo, de repente existiam todo tipo de grupos armados andando pela cidade e fazendo coisas em nome da lei ou em nome “da causa” ou sei lá que outros motivos.

Eles roubaram, mataram e mobilizaram pessoas para lutar com eles. Nesses dias para algumas pessoas era muito difícil entender que a lei não existia mais e agora as coisas eram algo como “cada homem por si”.

Cada grupo desses proclamava que tinha o direito de usar a força em nome da lei e para proteger as pessoas. Claro que esses grupos armados eram em sua maioria gangues.

Durante nossas discussões nos primeiros dias de caos, ele me disse que não podia ir contra a lei, ou seja, me disse que se algum policial batesse na porta de sua casa e precisasse de algo, ele não poderia recusar. Porque esses homens eram a lei, e ele não pode ir contra ela.

Eu tinha outra opinião, algo como “qualquer um que esteja armado e queira entrar em casa é meu inimigo”.

Ele não conseguiu aceitar que os tempos haviam mudado. Ele estava com medo de aceitar isso, queria acreditar que tudo estava bem e que alguém ia arrumar essa situação para ele. Ele era daquele tipo de que pensava que “o governo vai tomar conta de tudo”, algum alto comando ou coisas do tipo.

Quando alguns homens vieram até a sua porta e disseram serem “protetores da lei” ele simplesmente abriu a porta e foi com eles, para “conversar no quartel general”.

Depois que o roubaram, ele passou alguns meses na prisão da gangue, trabalhando para eles. Eu sabia que ele estava armado quando essa gangue veio, e sei também que ele poderia ter tentado resistir e com certeza a gangue ia desistir e procurar um alvo mais fácil. Mas ele preferiu ouvir esses homens, preferiu acreditar que eles eram “a lei” e que estavam fazendo o melhor por ele.

Eu acho que ele tornou-se paralisado pelo medo ou pelo fato de que ele não podia de forma alguma quebrar a lei. Creio lá no fundo ele sabia que aqueles caras não eram nenhum tipo de lei, talvez ele só queria acreditar que tudo ia ficar bem.

Traduzido do blog: SHTF School