RELATO: VOLUNTÁRIO EM ENCHENTES

Esse é um relato pessoal de um sobrevivencialista que atuou como voluntário na cidade de Muçum, RS em 09/2023 auxiliando na limpeza da cidade após a enchente que deixou mais de 80% da cidade submersa, o intuito desse relato é de mostrar através de minha ótica pessoal a visão de um local pós desastre natural. Nomes de pessoas e detalhes específicos de localização não serão divulgados para preservar a privacidade.

Causado por um ciclone extratropical, volumes muito altos de chuva caíram em um curto período, resultando em cheias de rios que não conseguiram dar vazão suficiente e por consequência transbordaram e inundaram diversas cidades do Vale do Taquari no Rio Grande Do Sul que leva o nome do rio que transbordou, entre as mais atingidas estão Roca Sales, Muçum, entre outras.

Soube por um colega de trabalho de que um grupo de voluntários estaria se deslocando no sábado para auxiliar na limpeza da cidade de Muçum, eu então me ofereci para ir junto e fui colocado na lista. Às 5:00 do sábado saímos de Caxias Do Sul RS onde moro e iniciamos a viagem com um ônibus até Muçum, paramos no caminho para tomar um café e chegamos no nosso objetivo as 8:00 da manhã.

Ao entrar na cidade já pude constatar o cenário de destruição deixado pelo rio, mesmo passados três semanas da enchente, ainda se via muitas casas destruídas, entulhos amontoados e famílias empenhadas em reconstruir suas residências.

Estacionamos, descarregamos as ferramentas, produtos de limpeza entre outras coisas, logo uma senhora nos perguntou se éramos voluntários, respondemos que sim e ela nos pediu se alguém poderia olhar o encanamento da sua casa pois estava com vazamento de água, alguns então se dirigiram para essa tarefa e o restante se dividiu em duas equipes. Observei duas senhoras retirando pequenos entulhos e depositando na rua (era o procedimento padrão da cidade) ofereci ajuda e elas me explicaram que estavam limpando uma casa que seria emprestada a uma família para morar, nesse momento já me veio uma reflexão, mesmo eles tendo perdido tudo de suas casas ainda sobravam energia para fazer o bem ao próximo.

Dividimos as equipe e nos dirigimos para ajudar essas senhoras, formamos uma corrente humana para transportar os entulhos, essa casa que ajudamos a limpar era um  depósito onde eram guardados todo tipo de materiais, ele foi totalmente coberto pela água, o que fez com que todos os materiais que outrora bem organizados e acondicionados ficassem bagunçados e sujos de lama, gradativamente o material foi retirado e conforme isso acontecia passávamos pelas fases da vida do proprietário, peças e máquinas de quando ele tinha sua fábrica de EPI’s, itens de quando ele teve um mercado, sobras de quando ele reformou sua casa. Tudo isso me fez pensar que “não estávamos tirando entulhos, mas sim pedaços de uma vida toda de trabalho”.

Mas durante a limpeza o tempo fechou e veio uma forte chuva acompanhada de ventos e raios, nos abrigamos na casa principal onde conversamos com calma com os moradores e eles nos passaram vários relatos de histórias que ouviram naquela noite de terror onde o rio submergiu praticamente toda a cidade, histórias que não vou mencionar em respeito a memória das vítimas, mas posso dizer que fiquei muito chocado.

Já era perto do meio-dia e nosso grupo estava organizando o almoço, levamos pão e salsichão para almoçarmos e dividir com quem mais estivesse junto, também tivemos uma doação de lanches vindos de uma lanchonete de nossa cidade, a qual dividimos com outros voluntários e moradores.

Na parte da tarde nos encontramos com a outra equipe e ajudamos na limpeza de um pátio, onde tinha um senhor que acompanhava nosso trabalho, cada objeto que removíamos mostrávamos para ele que avaliava o que era importante e o que poderia ser descartado, conforme ele olhava cada objeto ia nos contando as histórias de cada coisa, “isso ganhei de um amigo, isso ganhei do meu irmão” e assim foi até terminarmos essa tarefa. Ali foi mais um lugar onde eu refleti bastante sobre ele estar perdendo objetos que lembravam de partes importantes de sua vida.

Agora vou passar o que me chamou atenção com a visão de um Sobrevivencialista com relação ao desastre:

  • O fato de o rio ter submergido grande parte da cidade deixou pouca escolha aos moradores, com relação a proteger pertences, porém ouvimos relatos  de pessoas que conseguiram levar alguns pertences para locais mais altos, até caminhões foram carregados com pertences e estacionados em locais mais altos, os moradores que tiveram essa ação acabaram conseguindo salvar seus pertences, porém a grande maioria nunca havia presenciado uma enchente tão grande e acabaram por erguer seus pertences dentro de casa o que se mostrou ineficaz dado as proporções que tomou o desastre.
  • As pessoas receberam os primeiros alertas no dia anterior, porém como o rio já costumava subir, muitos ignoraram o aviso.
  • O pior aconteceu durante a noite onde muitos foram pegos ilhados na própria casa.
  • Muitos não tinham outro local para se abrigar e escolheram ficar em suas casas.

Finalizando assim meu relato eu gostaria de deixar meus sinceros desejos de que essas comunidades consigam se reerguer e reconstruir assim como já o fizeram no passado. Que todos esses voluntários que passados mais de 30 dias do desastre e continuam a se mobilizar para ajudar, sejam fortes e sigam nessa nobre missão.

Se você que está lendo esse relato, tiver a oportunidade de ajudar ao próximo, faça isso pois fará a diferença na vida de uma pessoa! Abraços e estejam preparados!

Relato escrito por: Mayckel Antunes.

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