Fuga das cidades: Será você um neo-ruralista?

Se você sente que as cidades não oferecem mais o que você precisa para ter uma vida feliz com sua família e vê no campo a chance de “retomar as raízes”, talvez você faça parte desse grupo chamado “neo-ruralistas”. Vamos investigar melhor esse termo no texto de hoje!

Quem são os neo-rurais?

Talvez você pense que este é mais um daqueles termos inventados apenas para que algumas pessoas sintam-se especiais ou parte de um grupo diferenciado, mas não. Ele não é a representação de uma “tribo”, e sim de um fenômeno que vem acontecendo na últimas décadas: são o fruto do êxodo urbano.

Se você tem entre 30 e 60 anos, sabe que o Brasil foi marcado por uma grande fuga do campo. Pessoas que, em busca de uma vida melhor e das conveniências urbanas, deixaram para trás a vida na roça. Este, foi o nomeado “êxodo rural”. Nesta época, a cidade era o que havia de mais incrível para as famílias e para aqueles que queriam ganhar algum dinheiro.

Contudo, parece que o jogo está se invertendo agora. Cidades tornaram-se polos centralizadores da violência, das drogas, dos hábitos tóxicos e da fraqueza moral. Sim, ainda há excelentes escolas, tecnologia e muito mais, mas a balança está começando a apontar para o lado ruim da história…. E muitos estão percebendo isso. Por isso, está previsto durante as próximas décadas veremos um “êxodo urbano”, ou seja, pessoas deixando as cidades em busca de uma vida mais tranquila no campo.

A grande diferença é que quem nasceu na cidade não é um “caipira” nato. Ele vêm carregado com novas visões, concepções e formas de vida, e deseja implementá-las na zona rural. Aí entram os chamados “neo-rurais” ou caipiras modernos. Em um português bem claro: São aqueles que construíram suas vidas na cidade, encheram-se do ambiente tóxico que elas promovem e agora querem voltar para o campo e retomar um estilo de vida mais saudável.

São aqueles que visam manter o acesso à internet, mas morar ouvindo o cantar do galo, ou o mugido distante das vacas. São aqueles que estão dispostos a se adaptar a um estilo de vida completamente diferente, mais livre e autossuficiente, mas não esquecendo de suas raízes urbanas e voltadas para um olhar mais tecnológico.

Quando me deparei com essa definição percebi que havia me identificado por completo com o tal rótulo. Afinal, sou um indivíduo criado na cidade, mas que passou seus finais de semana de infância e adolescência brincando no sítio. Mais que isso, conforme fui amadurecendo comecei a me sentir mais e mais deslocado no cenário urbano, como se aquele não fosse o local onde precisava ficar. Explico a seguir.

Ambientes urbanos: Por que nunca gostei deles

Para que este trecho não se torne uma dissertação enorme, vamos resumir a alguns tópicos principais:

  1. Barulho: É impressionante a quantidade de poluição sonora presente nas cidades. Curiosamente, só percebemos isso quando nos afastamos dela! Isso porquê somos excelentes em nos adaptar e “esquecer” os ruídos de fundo, mas isso não significa que eles deixam de existir. Os sons constantes, repentinos e diferentes volumes que estão presentes em zonas urbanas atrapalham nosso sono e nossa concentração diária de forma insidiosa, comendo nossa qualidade de vida sem que percebamos. Na cidade, perdeu-se o direito do silêncio… E é nele que as principais reflexões e observações sobre nossa vida são feitas.
  2. Enclausuramento: Tenha você uma casa grande ou pequena, o vizinho está do seu lado (algumas vezes separado por uma única parede). Veja, em toda nossa história humana é possível observar o quanto somos uma espécie exploratória e que gostamos de estar na vastidão de um campo ou floresta. Hoje, muitos moram em pequenos apartamentos e devem conter toda sua vida neste local e, quando decidem “explorar” novos ambientes se veem na infelicidade de ter que dividir espaços abertos com estranhos.
  3. Isolamento social: A grande falácia das cidades é dizer que por estarmos aglomerados, estaremos mais conectados. Na prática, é exatamente o contrário! Hoje os moradores de grandes cidades vivem solitários, angustiados por não terem amigos verdadeiros e presos a compromissos sociais fúteis. Você já parou para pensar o quão bizarro é passar por alguém na calçada e simplesmente ignorar por completo aquele outro ser humano, como se não existisse? Pois é, a cidade gera essa impessoalidade, essa desumanização. São tantas pessoas, tanto movimento, que nos fechamos para preservar o pouco de nós que resta neste ambiente coletivizado. Pior que isso, abraçamos o mundo online como a melhor forma de manter grupos sociais, quebrando ainda mais o vínculo tão importante dos contatos presenciais, olhos nos olhos. Nos tornamos embotados socialmente, seres que parecem desajeitados e inadequados em uma roda de conversa.
  4. Massificação: Ou você faz parte da “moda”, ou é um antiquado. O mesmo processo de desumanização causado na cidade também é aquele que impõe atos, valores e pensamentos que são os considerados aceitos no momento e tornam você alguém parte do grupo. Você com certeza pode ser colocado como o rude por não dar presente no dia dos namorados, ou um filho negligente se não comprar algo para sua mãe no dia das mães, não é? Pois bem. Na cidade, o comprar para seguir as regras coletivas é imprescindível para manter você com uma boa “pontuação social”.
  5. Consumo desenfreado: Você precisa de tudo, e tudo não é suficiente. Aonde você olha, há propagandas, outdoors, campanhas publicitárias. COMPRE é a palavra de lei, e você se sente compelido a gastar seu dinheiro com aquela panela que promete não grudar, aquele celular que tem 12gb a mais de memória que o seu. É assustador a quantidade de dinheiro que gastamos com supérfluos na cidade! E não é de se surpreender, afinal, é o consumo que mantém a cidade viva. Se você parar de comprar, torna-se um inimigo do sistema vigente.
  6. Regras e mais regras: Quer ter um cão em sua casa? Respeite as regras do condomínio. Quer ir no parquinho com as crianças? Respeite as regras de horários de funcionamento. Quer ouvir uma música agradável? Lembre-se do vizinho que pode se incomodar. A cidade, por sua natureza de ser “apertada” em termos de espaço pessoal, precisa de normas em todos seus aspectos para continuar rodando. Apesar de necessárias, a quantidade enorme de regras em todos os ambientes castra a liberdade e espontaneidade humana, mantendo todos em uma conduta normativa igual e travada.
  7. Vida plástica e processada: Acredito muito na definição de que “você é o que come”. Se você se alimenta de produtos industrializados, embalados e conservados, você se torna tão plástico como eles. Seu corpo muda, seus pensamentos mudam e por fim, você adoece. Na cidade, o ditado “descasque mais e desembale menos” é quase impossível de ser seguido, até porque qualquer produto mais natural tem preço quase que restritivo. A alimentação é tão “plástica” que a comida de verdade, aquela que é a base da sobrevivência humana, teve de ganhar o título de “orgânica” para se diferenciar do lixo que consumimos diariamente.

Sim, eu sei que aqui foquei apenas nos aspectos negativos, e que há sim algumas vantagens de morar na cidade, mas sinceramente? Algumas vezes colocamos prioridades na vida que, de prioridades, não tem nada. Será que realmente vale aguentar tudo o que inseri acima apenas para ter um trabalho que paga mais? Será que as 2 ou 3 horas que você perde diariamente no trânsito valem a conveniência de pedir pizza em casa ou de poder sair as 3 da manhã e encontrar uma lavanderia aberta?

SE a cidade é ruim, o que o campo tem para me oferecer?

Bom, vamos inverter a história. Para criar um comparativo, vou usar os mesmos pontos que comentei acima sobre as cidades e mostrar, na minha visão, as diferenças que a vida no campo podem oferecer.

  1. Silêncio: Para a maioria das pessoas acostumadas com a loucura urbana, o silêncio pode ser assustador, até mesmo opressor. Contudo, é nele que conseguimos nos encontrar, refletir e ter mais clareza em nossas visões.É na ausência dos barulhos de carros, televisões ligadas e pessoas falando que temos a chance de escutar cada pequeno som, e nos conectarmos muito mais com o ambiente à nossa volta em vez de apenas “apagarmos” os ruídos.
  2. Espaço: A sensação de ter espaço de sobra para fazer o que você quiser é indescritível. Mais que isso, seus vizinhos também provavelmente possuem terreno de sobra! Isso significa que a paisagem é muito mais natural e com menos construções. Olhar para uma paisagem repleta de árvores, pastos e vales é realmente reconfortante e nos dá a sensação de liberdade plena.
  3. Senso de comunidade: Curiosamente, no campo as pessoas são muito mais unidas do que na cidade. Afinal, quando se mora isolado hora ou outra você precisará da ajuda de um vizinho para desatolar seu carro, ou ele vai te pedir alguma coisa também. A falta de estrutura estimula que no campo as pessoas se socializem e formem um vínculo de apoio, que vão se transformando em amizades que podem facilmente durar uma vida.
  4. Individualização: Quem já teve experiência de estar no campo sabe que há personagens bastante distintos em cada lugar. Sempre haverá o engraçado, o emburrado, o prestativo e o que caça encrenca. Não há necessidade de todos se comportarem de maneira igual pois há muito espaço privado em cada lar, então cada vizinho desenvolve sua maneira de pensar, sua cultura e valores.
  5. Custo de vida mínimo: Com pouquíssimo esforço você pode ter um belo galinheiro e um açude, zerando seu custo com ovos e carne. Se quiser ir além, uma vaca leiteira vai garantir seu queijo, leite e manteiga também! Além disso, uma boa horta vai riscar de vez grande parte do custo familiar altíssimo que é a temida “compra do mês”. Além disso, no campo o consumo é diferente, mais lento. Você até pode se interessar por um cacareco qualquer que viu na internet e comprá-lo, mas, por uma razão desconhecida, ele simplesmente não combina com o sítio, com a vida mais tranquila e simples do campo. Isso sem querer vai transformando você em um indivíduo menos focado em comprar, e mais focado em viver.
  6. Poucas regras, muito bom senso: No campo, especialmente em lugares mais isolados, as regras e leis parecem ficar um pouco esmaecidas. É comum ver garotos de 10 anos andando de moto sem capacete, amigos atirando com armas velhas sem registro que estão na família há décadas e muito mais. No campo, há menos fiscais, menos monitoramento. Isso significa que você pode viver como quer, basta não incomodar os vizinhos e ter bom senso para não se meter em uma enrascada e se machucar.
  7. Comida de verdade: Talvez seja uma percepção equivocada, mas para mim, a comida que eu plantei é mais gostosa do que a comprada no mercado. No campo, você tem completa consciência de como cada planta foi cultivada, como cada animal foi alimentado. Não é necessário rótulos com ingredientes descritos (que muitas vezes mostram substâncias quase alienígenas)! No campo se come bem, basta se esforçar para garantir sua colheita.

Pode parecer bom demais para ser verdade, e entendo que para aquele que lê estas linhas sentado dentro de um apartamento pequeno tudo parece ser um sonho de verão…E de fato, nem tudo são rosas e amor! A vida no campo com certeza oferece desafios enormes, especialmente para os que não tem experiência.

E quais são os desafios e batalhas?

Ao ver imagens de famílias felizes na grama, cestas cheias de comidas coloridas e paisagens incríveis é fácil se identificar com a ideia de ser um “neo-ruralista”, mas poucos de fato estão preparados para a lida diária que o campo cobra!Vejamos alguns pontos:

  1. Faça chuva, faça sol: Está frio? Está quente? Acordou com preguiça? Nada disso importa. Os animais ainda precisam comer, as plantas precisam de cuidado e o terreno continua precisando ser roçado para não virar um matagal. Morar no campo é estar pronto para trabalhar pesado, não importando como o dia amanheceu. A procrastinação, tão comum nas cidades, não tem espaço na vida rural, a não ser que você queira morar no meio de um matagal e com animais passando fome.
  2. Fracassos constantes: Não interessa o quanto você pesquisou no google, sua primeira horta provavelmente será um fracasso. Suas galinhas? É, então, provavelmente pegarão algum tipo de doença e você vai perder as que mais gosta. A vida no campo exige experiência, e isso toma tempo e tentativas. Se você não sabe NADA da área, esteja preparado para se frustrar sempre que começar uma atividade nova. O campo exige resiliência.
  3. Adaptação e planejamento: Sair da cidade não é fácil. Existem serviços que você utiliza e que talvez nem tenha se dado conta que eles não estarão disponíveis em uma zona rural, e além disso, meu caro, sabe aquelas comprinhas diárias no mercado? Pois é, se foram. Morar no campo significa fazer o “rancho”, aquela compra que vai durar no mínimo o mês inteiro e se faltar algo no meio do caminho, isso significa tirar o dia para descer para a cidade para comprar o que você esqueceu. Se você não for um bom planejador, vai gastar muita gasolina e paciência.

É claro que essa lista poderia seguir em frente, mas o objetivo aqui não é criar uma muralha de argumentos negativos, apenas despertar consciência de que haverão desafios e você precisa estar preparado.

Conclusões finais

Se depois de ler todo esse texto você ainda se sente intoxicado pela selva de concreto e sente-se confiante de que vai dar conta do que o campo vai jogar no seu colo, parabéns, você é um tal de “neo-ruralista”.

Talvez você me pergunte… Será que esse é de fato o caminho para uma vida melhor? Não sei. Mas eu, sinto que sim. É no campo que tenho a oportunidade de ver minha filha se sujar de barro durante as brincadeiras, de ter reuniões inesquecíveis com amigos e dar risadas até altas horas da noite na beira de um fogo de chão. É no campo que eu vejo que ainda há espaço para a liberdade individual, para ser quem devemos realmente ser, em contato com o que realmente importa.

Até.

13 Comentários

  • Pingback: Retorno Às Origens – Manual do Super Humano

  • Olá! Relato pessoal, espero que seja útil, inclusive para você Júlio: Também nasci em uma cidade metropolitana e sempre tive atração pela roça, cidade nunca me interessou em nada. Graduei em agronomia, trabalhei por um tempo, juntei um dinheiro(pouco) e comprei um pedaço de terra(mais ou menos 14 hectares), só que ainda não terminei de pagá-lo. hoje sou produtor de café.
    trabalhar na roça é a melhor coisa que tem, só que não é pra qualquer um, é muito serviço e pouco dinheiro(sério, muito pouco mesmo). pra falar a verdade, é mais serviço do que qualquer pessoa da cidade possa imaginar, mais do que qualquer serviço pesado da cidade. não tem hora pra acabar, não tem sábado nem domingo… mas é muito bom e me sinto muito bem aqui.
    outra coisa, não precisa ser longe da cidade não, meu sítio fica a 6Km de uma cidade de 9.000 habitantes e a 30 Km de uma de 100.000 habitantes, e a terra foi muito barata.
    ATENÇÃO: a maior dica é, não acredite, como eu acreditei, que a terra se pagará com a própria produção. isso é a coisa mais rara do mundo, mais rara ainda no Brasil. espere o tempo que puder, junte o dinheiro e compre a sua terra e vá pra lá sem dívidas.
    se você não tem experiência no campo, é melhor manter um serviço na cidade mais próxima durante um tempo, não tenha pressa, isso demora. comece produzido para auto-consumo, você vai ver que rapidinho ja vai conseguir autonomia de 80 a 90% do que come, sério, não é difícil. mas daí para tirar renda da produção é um abismo.
    outra dica, sem investimento não se produz nada. qualquer agricultor, por mais humilde que seja tem que investir em máquinas, sementes, mão de obra(ninguem faz nada sozinho), estradas e etc.
    no mais é isso, apoio plenamente as pessoas a irem para o campo, e desejo profundamente que a zona rual volte a ser povoada. acho que esse é um importante passo importante para a sociedade.
    espero ter ajudado e estou disponível para dúvidas.
    boa sorte a todos

  • dennis william

    Me envia o vídeo da travessia da praia do cassino por favor, se não for pedir muito queria o podcast tbm hehe.

  • Deixo aqui meu relato de experiência ! Nasci e cresci em uma capital e como muitos brasileiros estudei e trabalhei até um dia abraçar o almejado concurso público! A escolha me rendeu um salário 50% menor que a iniciativa privada ( emprego anterior) e me levou a viver em uma cidade de apenas 5 mil habitantes em condições extremamente precárias ( na época era a cidade mais pobre do Brasil) isso me rendeu muitas horas de reflexões, já imerso na filosofia sobrevivencialista a bastante tratei rápido de me adaptar, experiência difícil que durou um ano ( nesse período vivi de tudo lá de um enchente até uma briga de vizinhos que resultou em um assassinato) hoje ainda vivo no interior em uma cidade de 80 mil habitantes onde vivo com a minha esposa e espero a chegada do meu primeiro filho! estou 375km da minha cidade natal e 260 km de uma capital! Estou feliz! Cidade agora é disso aqui para menor! Sem romantismo dependendo do estado da federação você pode sim encontrar muitos perigos no campo, falta de saúde e educação de qualidade, mas na cidade isso tudo pode existir e você pura e simplesmente não ter acesso a essas coisas! É isso – “Não há dia fácil” como diz o Mark Owen! A questão é! O que é prioridade para você ? Vão sempre existir escolhas e renuncias! Forte abraço!

  • gostei muito do topico, porem revejo algum romantismo e receio que possa ter desilusoes, mas as coisas funcionam mesmo assim ne?
    eu nao me figuro como neo-ruralista, alias, nao conhcia o termo ate ser presenteada com esta leitura interessante.
    sou representante de uma tribo que sente necessidade de retomar as raizes pois a cidade onde nasci nao me da as condicoes para.
    o turismo acabou com a comunidade onde eu estava inserida e a diaspora acabou por ser a solucao para alargar horizontes na mente.
    entao manter um legado passou a ser prioridade a partir do momento que se tem filhos.
    o fenomeno e mundial, nao so no brasil se ve, mas posso dar o exemplo de portugal que houve a massiva litoralizacao e as cidades, agora antros de tudo de mau pode haver, passaram a ser armadilhas humanas da qual pessoas que conseguiram desligar a ficha querem fugir.
    mas…fugir para onde?? pois, porque para se migrar para meio rural, tambem e necessario que ele esteja presente.
    entao o interior de portugal ficou na sua metade com certeza desprovido de vida, natureza de qualquer especie. eu boto fe na culpa de nuestros hermanos que envenenam a agua dos rios e veem despejar residuos radioactivos na nossa fronteira. fora outros pormenores hediondos…
    eu e meu marido tinhamos irdo viver para o interior, equipamos o carro ate ao tejadilho e la fomos! vivemos na casa de ferias de um amigo nosso a nossa vontade e tratamos logo da horta.
    pouco tempo depois os problemas surgem como efeito domino. a agua do poco, a unica potavel na zona, deixou de ser acessivel quando a bomba avariou e nao sabiamos como chegar a ela! agora sei, uma cegonha faria isso, mas na altura nao tinha esse conhecimento. tinamos de fazer 100 km pra buscar agua ao mercado da cidade mais proxima.
    hospital, nao existe, servicos publicos, idem. no meio do nada, sem eira nem beira.
    a horta nao produz, como tudo a volta por conta de terras inferteis, de tanto agrotoxico que levou, chegou o cumulo da natureza ter desistido por ali.
    as pessoas abandonaram nao por quererem ganhar dinheiro para a cidade, mas porque a ganancia matou a natureza.
    sem comer e beber nao se podia ficar, voltamos para a cidade e engendrar novo plano.
    continuo a viver na serra mas mais perto do litoral onde a horta e verdejante, ha agua tratada, ha hospital a 10 minutos, e a cidade mais proxima a essa distancia tambem. ate temos servicos publicos e uma escola!
    ha animais, ha abelha, ha passarinhos a chilrear logo pela manha.
    ha tranquilidade, e se precisar de algo, vou a cidade fazer umas compras.

    contudo ainda nao sei se devo identificar-me com esse fenomeno novo para mim, afinal as minhas raizes teem outro proposito que de aproximacao com os meus antepassados e religar-me com o meu povo mais intrinsecamente.
    nao e propriamente a mudar-me para a serra que irei conquistar isso. preciso e sinto a necessidade de estar com outros como eu. e preciso da partilha de tradicoes e reviver das nossas vidas como elas eram. e eramos felizes assim.
    contudo, tambem somos um povo de evolucao, se olhares para o exemplo de israel, veras que aliam muito a alta tecnologia com a necessidade basica de qualquer ser humano de “viver bem”. e o viver bem nao e ter posse, ter mansao e altas cilindradas na garagem e comida gourmet a discricao. e ter comida na mesa, uma casa confortavel e o mais sagrado para nos e beber agua potavel! sim! agua e o ouro do medio oriente onde o deserto e implacavel e nao perdoa.
    portugal ta cheio de agua por todos os cantos, e nao a conseguimos beber da mesmoa forma que o israelita consegue. sabes porque? ninguem quer beber veneno. entao andamos desidratados porque alem de ser veneno tambem e cara para cacete!
    e a engarrafada idem! muito cara, para a necessidade diaria que se tem, e um sacrilegio!
    em israel, faz sentido a agua ser cara, e escassa! ate ja se vai ao mediterraneo a buscar, bem salgada para ser tratada e se beber!
    em portugal nao faz sentido ser assim, e MAL GERIDA! e pagamos com o corpo!
    o que o campo tem para oferecer? muito se bem escolhido o local, o que pode demorar anos a sondar.
    entao e melhor fazer uma transicao suave para tudo nao ser violento, somos animais de habitos muito estranhos, nao atalhemos que depois vamos nos desmoralizar.
    o campo e duro, sempre o foi, minha mae fugiu do campo da mesma forma que os avos tambem fugiram da serra transmontana e por ai fora, ate da inquisicao que incomodava pra caralho!
    para comecar a sondar o solo, basta olhar para a flora autoctone e estuda-la, sim estudar! sao as plantas indicadoras que nos darao o pontape de saida para planear a horta, assim ja se tem ideia do tipo de terra que se tem para plantio. por exemplo, uma terra cheia de trevos e uma terra cheia de potassio, dente-de-leao, solo fertil, e por ai fora, ha muitos indicativos que exigem conhecimento e tambem preparacao previa consoante eles. se vou para um terreno com muito mato cerrado, e uma boa ideia investir em cabras do que em manquinaria pesada. e um habito judaico se usar as cabras para desmatar e dessa forma elas fertilizam ao mesmo tempo o solo para posterior cultivo.
    alias, sonho em ter cabras, galinhas e patos, meus pais criavam patos, eu tinha um de estimacao! ate ao dia que ficou velho demais e foi pra panela, fico-lhe grata pela carne ligeiramente rija mas saborosa!
    se e o caminho para uma melhor vida? acho que sim, viver com qualidade e nao com quantidade e com rotulagens sociais esdruxulas e seguir rebanhos incoerentes nao e a minha visao de viver. somos filhos do planeta e devemos nos ligar novamente para reaver a harmonia.

  • Welthon Rodrigues Cunha

    Júlio eu pensava exatamente assim como você eu sai de uma cidade com 2 milhões de habitantes para uma cidade com 32 mil habitantes. Depois eu comprei um sítio à 10 km da cidade e tentei realizar esta transição e minha experiência foi que temos uma visão ‘romantizada’ da vida no campo. Uma coisa é passar um final de semana no mato, passar as férias na casa de um amigo numa fazenda toda arrumada, outra coisa totalmente diferente é viver 24 horas no campo, acordar todo dia de manhã e trabalhar duro, as vezes debaixo de chuva e no frio. As vezes você fica tão cansado que não têm ânimo nem para tomar banho. Ter que levantar no meio da noite para correr atrás de vaca do vizinho que pulou a cerca e está acabando com sua horta e ver que 2 meses de serviço pesado foi embora em 15 minutos. Criminalidade no campo está tão alta quanto na cidade, pelo menos na minha região, e no mato você só pode contar com você mesmo, nem com a possibilidade ou a ilusão de ser ajudado pela polícia. E falando de vizinhos não é toda esta maravilha não, aquela ‘camaradagem’ que pensamos existir no campo é muita fantasia ou laços familiares (uma rede de parentesco), dos quais nós somos estranhos, mesmo depois de 5 anos morando na região você não será parente ou aquele amigo que cresceu junto. Tudo no campo é mais trabalhoso e mais caro. Para montar uma estrutura que te garanta um mínimo de autossuficiência as dificuldades são grandes e sozinho, só você e sua família, é praticamente impossível manter … Hoje eu vivo numa espécie de ‘meio termo’, o melhor dos dois mundos, moro numa cidade pequena e estou construindo uma casa com um quintal que é quase um pequeno sítio…Ainda quero ter uma propriedade rural sim, mas não para morar, seria um abrigo, um refúgio, para ser usado sem preocupações de habitação permanente… Entendo perfeitamente sua animação, a experiência é válida sim, o aprendizado é imenso e quem sabe de acordo com a sua realidade não dê certo para você e para outros…Estou aqui apenas compartilhando minha vivência… Boa sorte.

    • Fala Welthon! Realmente eu imagino que existam desafios muito maiores do que os que pude perceber até o momento, mas também acho que a escolha do local é uma das principais decisões para a família.

      Escolher um sítio em localidade ruim (tanto de vizinhança quanto recursos) vai comprometer toda a experiência, isso sem nem precisar comentar sobre a questão da criminalidade.

      Aqui na região de SC a violência rural é quase nula, a vizinhança ainda tem forte influência alemã e são bastante abertos à pessoas que se mostram bacanas (demoram para confiar, mas quando confiam viram grandes amigos), e foi isso que me atraiu para esses lados.

      Ainda não tenho um terreno, mas estou sondando tudo o que posso e vivendo o máximo possível em zonas rurais em terrenos de amigos para sentir como nos adaptaremos.

      Ainda assim, obrigado pelas dicas, vou ficar alerta! Abração!

    • Ir para o interior e conseguir ter uma vida confortável requer planejamento e sobretudo grana! Se tiver dinheiro para comprar uma chácara já com toda uma estrutura montada (um aviário por exemplo) é possível sobreviver com qualidade de vida. No entanto, comprar uma chácara “pelada”, sem nenhuma estrutura e sem ter grana para investir é sinônimo de dor de cabeça. O pequeno agricultor está sendo sufocado pelos latifundiários com o aval do governo.

      O ideal seria ter uma renda, de aposentadoria ou mesmo conseguir trabalhar de forma remota ou ainda comprar uma chácara próxima a cidade que lhe permita trabalhar e retornar ao sítio todos os dias. Dessa forma seria mais prudente e viável uma vida no campo. Começar do zero, com pouco dinheiro exigiria sacrifícios enormes e mesmo assim com risco de fracasso. Mesmo assim foi excelente a reflexão do Júlio neste post.

      • Welthon Rodrigues Cunha

        Concordo com você amigo… mas aí você entra num dilema… quando você estiver aposentado você não vai ter o ‘vigor físico’ de antes para trabalhar, e não se engane mesmo um sítio bem montado exige uma trabalho imenso de manutenção a não ser que você pague um caseiro… aí vai mais dinheiro e muita dor de cabeça, encontrar um caseiro confiável hoje é raro, por qualquer coisa te levam na justiça e a lei está totalmente do lado deles…. Tive um vizinho na época. idoso, que queria envelhecer no seu sítio que ele montou durante anos porém devido a distância da cidade, os problemas de saúde, o trabalho pesado teve que ir embora, a contragosto. Como disse têm muito romantismo na vida do campo, desacostumamos em viver com pouco e trabalhar muito, com quase nenhum conforto!! Antigamente não tinha opção então o pessoa vivia assim, hoje a coisa é diferente….mas, respeito os sonhos e fantasias de cada um e em todo caso, sempre vale a experiência. Na época ouvi muita gente falar o que hoje eu falo e não acreditei também, nada como a experiência…

      • O ideal seria algo pequeno, com cerca de 1 alqueire e próximo a cidade. Lógico que o investimento será alto, pois são lugares valorizados. No final tudo gira em torno da grana disponível ou da coragem de começar do zero e arriscar o futuro da família.

      • Uma possibilidade é ser um investidor que vive de renda… Assim, o que vai precisar e de um local rural que tenha Net (o que imagino que já exista) e tempo para se atualizar em relação ao mundo.

    • “Você já parou para pensar o quão bizarro é passar por alguém na calçada e simplesmente ignorar por completo aquele outro ser humano, como se não existisse?” Sou um jovem que nasceu há pouco mais de uma década e, ás vezes, quando ando na rua, bem cedo, e passo ao lado de um senhor de idade, alguns dão um “bom dia”, e eu acho isso algo tão bacana e estranho, ao mesmo tempo. Não consigo conceber essa ideia de que não cumprimentar alguém (desconhecido), ao passar por ela, é algo estranho.

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