Qual a importância REAL das técnicas de sobrevivência na preparação?

O Sobrevivencialismo ganhou força no Brasil por uma razão simples: programas de sobrevivência do Discovery Channel. Isso é incontestável! Os diversos seriados criados nos últimos 5 anos criaram uma legião de fãs e, naturalmente, muitos deles acabaram por cair por aqui na nossa área também.

Não que haja algo de errado nisso, muito pelo contrário! Foi graças a programas como esses que as pessoas começaram a pensar no quão difícil é sobreviver em ambientes hostis e com poucos recursos, porém houve um efeito negativo que até hoje me incomoda: O conceito de Sobrevivencialismo foi reduzido para “criar abrigo e fogueira no mato” para a maioria das pessoas.

Não sei se isso abrange uma grande quantidade de pessoas, porém todas as vezes que postamos algum tipo de conteúdo sobre armas, preparação ou semelhante temos que lidar com alguns comentários do tipo “volta para o mato” ou “saudades dos vídeos de acampamento”, e outros ainda vão até mais longe dizendo que se não tem mato, não é Sobrevivencialismo. Sei que muitos tem preferência por conteúdos de sobrevivência, mas uma pequena parcela faz questão de expor isso até mesmo com certa agressividade.

Então dada a situação, vamos refletir… Qual a REAL importância das técnicas de sobrevivência dentro do mundo sobrevivencialista? Vamos começar pela pergunta mais importante.

Até onde vai “sobreviver no mato”?

Imagine o cenário de crise social ou de uma emergência inesperada que força você e sua família a deixarem a cidade e se esconderem em uma zona de mata nativa. Lá, você terá que estruturar um campo básico, acender fogo, criar um abrigo improvisado e, dependendo da seriedade da situação, improvisar perímetros de alarme e armadilhas de defesa.

Se a situação se alongar você também terá o desafio de alimentar sua família fazendo coleta de plantas e caçando e/ou pescando. Mas… E aí? O plano é esse? Ficar no meio do mato passando por privações para o resto da vida? Pois já digo que esse “resto” vai ser bem curto. E quando alguém pegar uma doença, ou pior, uma infecção? De onde virão os potentes antibióticos de que você precisará? Pois é, a situação já começa a ficar complicada quando essas variáveis entram no jogo.

O que eu quero trazer aqui com essa reflexão não é o desmerecimento das habilidades mateiras, e sim o reconhecimento de que elas – apesar de imprescindíveis – só vão até certo ponto para manter você vivo e saudável. Quando estendemos a linha do tempo, esse modo “survival” não vai te levar muito longe.

Alguns até podem argumentar que conhecendo algumas técnicas mais avançadas é possível ter uma vida relativamente boa no meio do mato, mas eu tenho certeza que 99% dos que dizem isso não levam em conta todos os pequenos detalhes que envolvem aspectos de saúde, gerenciamento de conflitos familiares e muitos outros “poréns” que fazem toda a diferença na situação real. É possível? Sim. Mas para 1 em cada 50.000 pessoas.

E ainda assim, mesmo sendo o velho da montanha altamente capaz, um dia você torce o tornozelo, rompe ligamentos, não consegue mais andar e morre de fome. É assim que a vida roda, sem muitos floreios.

Então vale a pena conhecer essas técnicas?

Sim, com certeza! Conhecer as prioridades da sobrevivência e como obtê-las com eficiência é a base para que você se mantenha vivo em ambientes que não possuem uma estrutura organizada.

Contudo, não pare nos vídeos, pratique! Monte seus kits e os coloque na prática para conhecer as dificuldades que cada terreno oferece para sua sobrevivência. Mais que isso, ganhe um pouco de couraça para suportar os desconfortos inerentes de estar em ambiente selvagem. Aprenda a fazer fogo, aprenda a usar troncos para criar abrigos provisórios e saiba das técnicas de caça primitiva, porém entenda que podemos e devemos ir muito além destas habilidades.

Depois que você se sentir confortável com a montagem de um campo básico e com a aquisição de recursos básicos em terreno inóspito, o negócio é continuar evoluindo na escala de conhecimentos, afinal, devemos não só objetivar sobreviver… Temos que pensar como colonizadores.

Hora de subir o nível de maturidade sobrevivencialista

Quando o mundo ainda tinha muitas áreas para serem descobertas os aventureiros e exploradores não eram somente sobreviventes, eram colonizadores. Isso porque ao chegar em um ambiente de interesse eles não tinham que montar apenas um abrigo de detritos e uma fogueira. O objetivo era construir uma cidade, criar uma civilização onde antes não havia nada.

Para isso, uma infinidade de técnicas era necessária. Manejo com ferramentas pesadas, conhecimento em construção, agricultura, medicina alternativa e muito mais. E claro, ir sempre preparado com uma boa quantidade de recursos.

A ideia de “sobreviver com uma faca” é bastante nova, derivada diretamente de programas que usam desse argumento para apimentar o entretenimento dos episódios. Historicamente um grupo que vai para uma zona desconhecida e selvagem sempre estará carregado com uma enorme quantidade de recursos que variam de alimentação, medicação até materiais de construção. Traduzindo nos termos atuais, é basicamente você com seu veículo de fuga entulhado de recursos para construir uma propriedade rural completa.

Lembre-se: É analisando a história que conseguimos ter noções do que funciona ou não! Não é por episódios de 42 minutos intervalado por comerciais que as grandes explorações mundiais foram feitas. Cuidado com reducionismos e simplificações.

Em conclusão…

Treine para ser um colonizador. Um desbravador de terras nunca antes vistas, que está pronto para andar por dias a fio até uma localidade promissora e então, com seus próprios recursos, construir não somente um abrigo, mas uma cidade inteira a partir do zero.

Eu não poderia ser mais sincero aqui. Está na hora de parar com essa imagem do sobrevivente com faca e pederneira! Isso, apesar de divertido para brincar e também assistir, é fantasia. Está longe do objetivo principal, que é manter você e sua família vivos.

Ir para o mato e criar abrigos e fogueiras não faz de você um sobrevivencialista. Lembre-se disso. Não te prepara para os tempos realmente difíceis, onde você provavelmente terá que destruir a si mesmo para proteger aqueles que ama. Pense nisso com seriedade.

Eu, como conteudista com quase uma década de estrada, ando ficando cansado de floreios. Está na hora de subir o nível e falar do que realmente importa.

Se você quiser entender melhor o que é o Sobrevivencialismo, recomendo este podcast que gravei:

Até.

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4 Comentários

  • Lucas da Trindade Guedes

    Por mais que goste de atividades outdoor, o sobrevivencialismo não tem relação obrigatória com elas. Na maior parte das emergências (exceto desastres naturais) o mais indicado é ficar em casa, onde você tem acesso a suas preparações, armas, remédios, armas, conforto, segurança. Basta lembrar da greve de Polícia que houve no Espírito Santo. Com gangues lotando as ruas o mais seguro é se trancar em casa e esperar o restabelecimento da ordem. Num cenário como esse fugir para o mato é só uma fantasia. Logo mais vale ter preparações em casa e em um eventual abrigo secundário do que fazer fogo com pauzinhos.

  • Muito bom Júlio. Muito bom acabei de ouvir com meus dois filhos. Te acompanhamos desde sempre e quem sabe um dia terei o imenso prazer de conhecê-lo pessoalmente.

  • Valdecir Figueiredo

    Agora sim julio tem mais a minha cara guando se tem duas crianças e uma esposa sei bem doque fala .parabéns pelo seu trabalho firme não desanime.

  • Pois é Julio, a tv proporciona dois opostos, o lado bom que trás mais pessoas que se interessam pelo tema e querer buscar mais conteúdo sobre o assunto porem também o lado ruim, que nem sempre o que se mostra na tv é o que realmente acontece criando no espectador uma ilusão que é fácil, é simples que só vendo já sei fazer. Acredito que sobrevivencialista deva estar tanto antenado nas novas tecnologias, mas também saber o primitivismo . Ex posso usar muito bem o gps para me localizar e chegar rápido mais tenho que saber me deslocar através de mapas ou orientações caso tenha problema com disponibilidade de sinal ou bateria do equipamento de gps. Não quer dizer que uma das alternativas esta mais certa do que outra, são apenas varias maneiras de se contornar o problema. Se tenho um isqueiro para acender uma fogueira blz, façamos, pois levarei menos esforço. Caso não tenha busco outra alternativa, pederneira etc. Vai ser facil? talvez sim talvez não, depende o quanto tenho praticado. Em fim a absorção de conhecimento independe dessa discussões superficiais. Por isso acredito que não é o mais forte que sobrevive e sim os mais preparados. Parabéns Julio pelo texto.

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