Aventura X Armas de fogo

Recentemente um bom amigo meu, Guilherme Cavallari, aventureiro profissional e autor de diversos livros na área de travessias e guias escreveu um texto sobre a visão dele a respeito de como o mundo da aventura tem sido misturado com o mundo militar e das armas de fogo. Neste texto ele demonstra preocupação a respeito da “bagunça” que estes conceitos podem causar quando misturados e me convidou a refletir sobre o que ele havia escrito. Mais do que pensar, preciso compartilhar minha visão e continuar este debate saudável, então aqui vamos nós.

Já começo dizendo que é extremamente importante que você leia o texto dele primeiro (Clique aqui), caso contrário não entenderá sentido algum neste. Enfatizo que meu objetivo aqui não é descredibilizar, ofender ou prejudicar meu amigo de maneira alguma, cada qual tem sua opinião e é por meio da divergência delas que conseguimos repensar em conceitos e avançar nas reflexões que nos tornam pessoas melhores.

Dito isso, agora posso começar com tranquilidade.

Somos mais do que uma coisa só

Por diversas vezes me deparei dentro de alguns nichos específicos como montanhismo, escalada e semelhantes uma espécie de doutrina e normas de conduta para que você possa  ser caracterizado como parte dos praticantes “verdadeiros” do esporte. Eu sempre entendi esse fenômeno, mas nunca concordei com ele.

Por pensar diferente sempre fui confrontado – e ainda sou – por muitos dos defensores de tais formas de pensar. Não me importo em debater e aprimorar visões, porém continuo certo de que o caminho para a evolução é o compartilhamento de conhecimento sem muitas amarras e pré requisitos. Aqueles que se elitizam tendem a se fechar em uma bolha e estagnarem em suas práticas.

Digo tudo isso pois senti um certo cheiro de “é preciso ter certos requisitos para ser aventureiro” neste texto, e isso não bate com os meus ideais. Mais que isso, parece-me que há uma concepção equivocada do chamado “aventureiro”. Este não é um rótulo de mérito ou meio de profissão! A definição da palavra segundo nosso dicionário é: “que ou quem é atraído pelo incerto, pelo perigo, e propenso a se envolver em empresas arriscadas.”

Ou seja, a novidade é que todos nós, sem exceção, somos aventureiros. Convenhamos, morar no Brasil já é um belo desafio extremo! Subir montanhas com certeza é difícil, mas viver com um salário mínimo tendo dois filhos é tão difícil quanto – senão pior.

Partindo então da premissa que todos já somos aventureiros, também temos de entender que não somos isso. É possível combinar diversas práticas em uma única existência humana! Por exemplo, eu sou um aventureiro montanhista, atirador, psicólogo, pai e talvez mais uma dezena de rótulos. Somos mais do que uma coisa só.

É possível conciliar o amor pela natureza, pelas belezas naturais e também o prazer incrível de atirar em alvos metálicos e manejar armas? Com certeza. Digo isso com propriedade de quem faz ambos e se sente super feliz.

Cada prática no seu galho

Um ponto importantíssimo para a segurança de um aventureiro é a roupa e cores que ele decide usar, por isso o ideal são cores fortes e facilmente reconhecíveis. Isso é um fato incontestável! Afinal, tudo o que você não quer é estar camuflado e sofrer um sério acidente no meio do nada. Como disse o Cavallari, você vira paisagem – e aí, rodou, playboy.

Contudo é importante diferenciar práticas. Uma coisa é o montanhismo, o trekking, o hiking e semelhantes, outra são as práticas primitivas, testes de sobrevivência e a caça. O ato de andar camuflado no mato nos remete a importância de se mesclar com o ambiente com o pretexto de nos protegermos de ameaças humanas, simular a sensação de como é ter que desaparecer no ambiente natural quando estamos sendo perseguidos. É tornar-se um só com o ambiente selvagem.

Isso vai acontecer? Seremos perseguidos no meio da mata por assassinos? Não sei. Creio que não. Espero que não. Mas cresci com a concepção de que todas as habilidades que construímos podem ser úteis em algum momento, então invisto em tudo o que posso. Uma coisa não exclui a outra.

Em resumo, usar camuflado no mato é inteligente? Não. Mas em uma prática controlada e com um objetivo específico de praticar habilidades específicas, diria que sim.

Armas, fraquezas e paz

Este tópico poderia facilmente render um livro, mas um trecho específico me chamou atenção no texto:

Essas armaduras psicológicas, que armas e roupas de guerra nos emprestam, nada mais são do que a aceitação do nosso fracasso, a aceitação da nossa fraqueza profunda e da nossa incapacidade de crescermos para além das nossas roupas e dos nossos objetos.

Achei esta declaração bastante poética, porém igualmente distante da realidade. Sabe, sempre fui um grande interessado na história da humanidade, por isso acredito fielmente que analisando os acontecimentos e mentes do passado poderemos ter uma conduta muito mais segura no nosso presente e futuro. Tudo neste mundo é um ciclo, o passado tende a se repetir diversas vezes e nossos livros estão aí para provar isso.

Levando isso em conta, aprendi e – dolorosamente – engoli a verdade de que o mundo não é e nunca foi pacífico… E talvez nunca será.

Entendi também que aquele que não se protege é dominado. Aquele que se entrega na busca de uma harmonia desarmada é tomado de assalto por outros que não concordam com ele. Manter-se longe de meios de defesa seria como um lobo arrancar suas garras e dentes para ser mais feliz. A tal “paz” pode ser alcançada em estado de espírito, mas é volátil o suficiente para desaparecer no sinal da primeira confrontação inevitável.

Enfim, levando em conta as inúmeras evidências históricas e estatísticas do quão presente é a violência em nosso planeta (em humanos e animais), sou inclinado a pensar que julgar-se fora dessa linha, dessa estatística, é alienar-se forçosamente. É ficar cego de maneira intencional. Enfatizo: Devemos SEMPRE objetivar a paz, mas, também, precisamos sempre estar aptos para a guerra. Contar com a sorte ou desejo individual de um mundo calmo é uma conduta perigosa e fadada a uma eventual tragédia.

Isso significa que ter armas não é aceitar nosso fracasso, é, pelo contrário, garantir que possamos reagir quando nossa existência ou de nossa família estiver sendo ameaçada. Vivemos em um país com mais de 70 mil mortes violentas por ano, temos inúmeros relatos tristes de pessoas inocentes que são mortas nos mais diversos cenários, inclusive durante práticas de Hiking e trekking.

Por isso deixo claro: não são mantras que vão nos salvar durante um assalto, durante uma invasão domiciliar ou sequestro, é a conduta preventiva, a noção de que o mundo pode ser violento e o treinamento extensivo para estar melhor e mais preparado contra aqueles que estão vindo para lhe agredir.

Armar-se, treinar e estar apto ao combate não é aceitar o fracasso, é empoderar-se para proteger a si e aos seus nos piores momentos possíveis. Todo o resto é apostar no desconhecido ou terceirizar a responsabilidade para alguém fazer o trabalho sujo.

Uma vida cheia de medo?

O texto do Cavallari finaliza afirmando que adotar esta conduta é viver uma vida cheia de medos e inseguranças. Infelizmente devo mais uma vez discordar pois, imerso nestes conceitos, vivo uma vida que pode servir de exemplo para nossa argumentação. Veja só:

Enquanto escrevo este texto minha filha brinca ao meu lado, meu cachorro dorme embaixo da mesa e minha esposa ouve música e curte o momento dela na outra sala. Ao meu lado tenho uma bela xícara de café quente, celular, canivete e uma pistola. Estou tenso? Estou com medo? Estou preocupado? Não. Estou tão tranquilo que tomo mais café do que devo para não ficar com sono.

Exemplo bobo, mas serve para demonstrar que ter uma arma não é viver com medo e olhando para os lados. Quem faz isso é porque não tem treinamento adequado e não sabe se será eficiente se um dia precisar utilizar seus dotes de defesa. O que eu sinto, neste momento, é que sou capaz de proteger aqueles que amo se alguém ameaçá-los.

Para ser mais honesto, eu sinto o oposto de medo. Me sinto completo, confiante de que não serei mais uma vítima envolto em sangue no jornal das sete. Quando ando no mato a pistola é somente uma extensão do meu corpo, uma ferramenta que pode me ajudar se em algum momento algo der errado, assim como um cobertor térmico, meu SPOT ou band-aids. Simples assim.

Por fim, a violência

O texto termina com a pontuação de que aventura e expressões de violência não combinam. Neste ponto eu concordo! A última coisa que quero é parecer violento, machucar pessoas ou me machucar. Talvez esta visão venha por conceitos equivocados de que “armas são instrumentos de morte”.

Sabia que atirar em placas de metal, testar suas habilidades de tiro e gostar de armas não são práticas violentas? Matar ou agredir outros é. E isso a gente faz até com colher de pau, se quiser.

No final sempre caímos nos erros de conceito. Pensar que “armas matam” ou que são sinônimo de violência é um reducionismo enorme dada a quantidade de atividades divertidas que se pode fazer com esses instrumentos. Ouso dizer que as melhores tardes que já tive foi atirando e dando muita risada com grandes amigos.

Então finalizo este texto com um conselho um pouco diferente do meu amigo. Seja o melhor que puder ser em todas as áreas da vida. Seja um excelente montanhista, um excelente atirador, um excelente socorrista e tudo o que puder estudar. Somente assim, estando preparado e capacitado para os mais diversos cenários da vida, você poderá sentir-se pleno e feliz.  Alienar-se, limitar-se ou criar rótulos generalistas só irão limitar a sua evolução!

A história, as estatísticas e a ciência sempre demonstram mais eficiência do que desejo individual de formatar um mundo novo. Esteja sempre preparado, assim, é possível ficar longe do medo.

Até.

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4 Comentários

  • Olá Júlio.
    Uma visão muito coerente nos mostra esse texto. Parabéns. Excelente fonte de argumentos muito bem estruturados na situação em que vivemos.
    Um forte abraço
    Said

  • luiz fernando

    Excelente texto, concordo plenamente com tudo e ainda poderia adicionar mais.
    Enquanto ao texto do seu Amigo, concordo em partes (nas mesmas partes que você), porém o autor descreve algo distante da realidade, parece até que ele põe os próprios medos nas armas e roupas camufladas (como se só isso fosse ser perigoso). O que ele não percebe é que na sociedade hoje são poucos que estão dispostos a praticar aventura, a se sujar, caminhar, fuçar a terra, conhecer a natureza e afins, e ele não percebe que quem gosta de armas e de roupas camufladas gostam desse tipo de coisa.
    Dá a entender que o autor tem preconceitos com esse nicho, talvez ele não conheça, e acha que estar despreparado pra algo lhe garante segurança.
    Mantras são bom, pra VOCÊ se controlar e melhorar, repetir um mantra de não violência vai fazer VOCÊ se acalmar e não fará que um puma faminto lhe ataque. Assim como evitará um assalto, ou evite que você seja atacado pela natureza (apesar de respeitar essa opinião eu ri muito disso). Claro que biologicamente esse mantra lhe acalmando fará com que seus hormônios que lhe acusam estar sob estresse e alerta irá diminuir e algum animal que se sentir ameaçado e pretenda atacar vai perceber e ir embora, mas isso não excluir as diversas hipóteses.
    Enfim, achei que o seu amigo foi muito inocente e preconceituoso na maior parte do texto.

  • Excelente artigo, Parabéns Julio.

  • Adriano Sotero Bin

    Prezado Júlio,

    Na questão tratada no texto,minha visão de mundo assemelha-se a sua. O autor Guilherme Cavallari peca no argumento por causa de um reducionismo que não encontra respaldo na realidade: existem diversos tipos de praticantes de atividades ao ar livre com diversos estados de espírito (dos piores aos melhores). Como atividades ao ar livre também incluo o tiro, a caça, o paintball, o airsoft etc. Também já fiz caminhadas, acampamentos e afins, e durante estas atividades conheci pessoas maravilhosas tanto quanto pessoas que não valiam muito o pó da terra que pisavam, e isso vale para qualquer atividade que exercemos na vida. No curso de tiro, encontrei pessoas altamente tranquilas, enquanto no trekking, bicicleta etc, já me deparei com pessoas bem agitadas. O Guilherme acabou por usar ele e a esposa como modelos e, por consequencia, usaram a “própria régua” para descrever a realidade.

    Concordo que não somos definidos por um único conceito. Somos amantes da natureza, mas também somos pais, profissionais, amigos, eleitores etc. Podemos ter facilidade de sermos serenos em um contexto e não em outro. Acredito que a intenção do Guilherme tenha sido dizer que como regra geral devemos cultivar um estado de espírito sereno, o que concordo plenamente. Contudo, não são as armas, os uniformes e os esportes de tiro que tiram a serenidade, são as escolhas que fazemos todos os dias e as virtudes morais não cultivadas que extinguem a serenidade.Dependendo de quem você escolhe ser, não será uma mochila nas costas e desarmado que o caracterizará como uma pessoa serena, enquanto, uma pessoa virtuosa que faz as escolhas morais corretas poderá atirar com um fuzil, ter uma faca e uma pistola na cintura que estes instrumentos não afetam a sua paz de espírito. Aliás, se fosse assim, coitados dos nossos policiais e soldados militares, pois seriam automaticamente um bando de perturbados, algo que não se verifica no cotidiano.

    Deste modo, o caminho da serenidade começa no nosso íntimo e expande para as nossas atividades e não ao contrário. Algumas horas de tiro podem ser tão tranquilizadoras e contribuir para um estado de espírito sereno tanto quanto uma caminhada ou uma pedalada por aí.

    Um grande abraço,
    Adriano

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