22 dias perdido na mata e kits de sobrevivência de bolso

Como bom entusiasta de trilhas, atividades mateiras e Camping, também sou um aficionado em kits de sobrevivência, tanto que até mesmo na cidade sempre ando com um na mochila.

Mas como nem todo mundo que curte natureza e estar ao ar livre é assim, na maior parte dos relatos de pessoas perdidas no mato vemos que ela não contavam com um kit de sobrevivência nem dos mais elementares, sobrevivendo muitas vezes por pura sorte.

Mas por que não levar algo tão importante para sobreviver a uma situação de perigo? Na minha opinião seria por um excesso de confiança e de otimismo, o sujeito não acredita que enfrentará alguma situação complicada naquela pequena caminhada matinal ou naquela trilha tão batida. Então, por que a necessidade de ter que levar uma mochila para colocar um kit de sobrevivência, que além do que pesa? O celular e uma garrafa de água já bastam. E foi exatamente assim que o jovem chileno Daniel Flores ficou 22 dias perdido nas matas da ilha Chiloé no Chile, só tendo sobrevivido porque topou com um grupo de turistas.

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Entrada do parque onde Daniel Flores se perdeu

Se ele tivesse um kit de sobrevivência de bolso (PSK – Pocket Survival Kit), desses tipo latinha de Altoids, talvez nem tivesse se perdido. E para mostrar a importância, ou melhor, a utilidade de um kit desse tipo, vou usar algumas partes do relato que o próprio Daniel Flores fez a um jornal Uruguaio para exemplificar como um PSK e um pouco de experiencia em como usá-lo poderia ter mudado tudo.

Como exemplo vou usar o kit que carrego sempre no bolso a cada saída para o mato, não importando o quão banal pareça ou seja o passeio. O kit esta montado dentro de uma lata de tabaco, que é um pouco maior que a de Altoids e contém:

  1. Lata de metal;
  2. Papel Alumínio (útil para acender fogueiras e confecção de copos para ferver água ou fazer algum chá entre outras coisas);
  3. Pastilhas para purificar água, tipo Clor In;
  4. Tiras de câmara de pneu de bicicleta (para acender fogueiras);
  5. Kit básico de pesca (alguns anzóis, linha, chumbada);
  6. Seis fósforos Storm Match e riscador;
  7. Mini pederneira com barra de magnésio e riscador;
  8. Iscas de Fogo (Micro Inferno e algodão);
  9. Arame para fazer armadilhas;
  10. Três folhas de papel Write in the Rain e um lápis (navegação e deixar mensagens);
  11. Lenço para aliviar picadas de insetos;
  12. Lenço de Álcool;
  13. Pomada Antibiótica (Triple Antibiotic – aqui na Escandinávia a compra sem receita é permitida);
  14. Oinment (também serve como isca de fogo);
  15. Bolsa plástica para 1 litro de água;
  16. Alfinetes de segurança;
  17. Serra de arame;
  18. Faca CRKT MK V Doug Ritter;
  19. Agulha e linha;
  20. Bússula para relógio Suunto (essa bússola e pequena, confiável e é possivel traçar o azimute com ela, ou seja, pode ser usada para navegação);
  21. Micro lanterna de LED;
  22. Corda Bank Line;
  23. Espelho;
  24. Gorilla Tape;
  25. Manta de Alumínio;
  26. Cola (além de servir para fechar feridas também serve como isca de fogo – assistam ao video no canal sobre isso).

E esse kit todo cabe no bolso de uma calça Jeans ou no bolso de um short…

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A seguir as partes do relato que demonstram como um PSK poderia te-lo ajudado. Para o relato completo, em Espanhol basta clicar aqui

  • Bússola:

“Quando desci do mirante e vi que tinha perdido contato com Fernando e ia voltar ao camping, mas como o dia estava lindo e tinha muito sol, caminhei um pouco mais. Me perdi em questão de meia hora.

Quando quis regressar, não encontrei a trilha e cada vez que tentava voltar a mata se tornava mais fechada.”

Fica claro que com ajuda de uma bússola ele talvez nem tivesse se perdido. E mesmo perdido, poderia ter caminhado na direção correta e ter se salvado, pois ele sabia que deveria caminhar para o oeste. Depois que o encontraram, se constatou que Daniel havia estado caminhando em círculos, coisa muita comum em pessoas perdidas na natureza. Mas mais importante que isso seria avisar ao amigo onde estava indo ou deixar uma nota na trilha antes de sair dela.

  • Cobertor de Alumínio:

“Então nesse momento pensei que avançando poderia sair dali, mas não podia orientar-me, então tive que buscar um lugar para dormir.”

“Entre as 4 e as 6:30 da madrugada a escuridão é total, eu tinha um isqueiro, desses violeta meio transparentes, mas eu o utilizava para esquentar as mãos. Nessa primeira noite fazia exercícios e quando me esquentava me deitava no chão e me custava dormir, mas em seguida escutava um ruido estranho, ou algum animal perto, acendia o isqueiro e tentava localizar a direção.”

Nem preciso explicar muito. Hipotermia é uma das maiores causas de morte entre pessoas perdidas na natureza. Nesse caso bastaria se enrolar no cobertor de alumínio e passar a primeira, e talvez a única, noite sem muito desconforto. Com algo de treino poderia também ter usado o bank line e a Gorilla Tape para construir um abrigo improvisado. Por isso a importância de não apenas levar um PSK como também praticar constantemente com ele. A lanterninha de LED também teria sido de grande ajuda.

  • Pederneira, fósforos, cola, iscas de fogo:

“Eu estava sem fogo. O isqueiro ficou sem gás no segundo dia.”

“…depois comecei a coletar material seco para ver se encontraba alguma meneira de fazer fogo porque acabou o gás do isqueiro no segundo dia. Eu o guardei alguns dias mais para ver se conseguia usar o prdacinho de pederneira que sobrou, tentar fazer fogo com as fagulhas, mas no final eu perdi o isqueiro…”

Todos nós sabemos da importância de se fazer fogo, em relação tanto aos aspectos físicos (calor, ferver água, cozinhar, espantar algum animal, sinalizar, etc) quanto ao aspecto psicológico (reconforto) por isso o PSK traz tantas maneiras diferentes de se acender uma fogueira.

  • Água

“O primeiro que tomei depois que acabou o suco (que ele levava) foi um musgo que se formava nas vala, que é como uma esponja que chupa muita agua, se pode expremer e obter agua, mas também agua das valas, ríos e agua estagnada das poças…”

Com a bolsa plástica ele poderia ir coletando a água que encontrava pelo caminho e as pastilhas de Clor In tratar a água estancada e com isso evitar o risco de contrair algum parasita o que só pioraria sua situação.

  • Kit Pesca

“Também tem o que costumam chamar de Gato Huillin, que na verdade é uma nutria aquática que agora está em perigo de extinção mas há muitas ali, se chega a vê-las pelos rios, saltam e nadam, tem muitos peixes.

“Depois me dei conta de que o gato deixava marcas. Com o tempo comecei a me acostumar e a ver muitas pegadas de diferentes animais comecei a reconhece-las.

“No quinto dia sem comer comecei a sentir que me debilitava, os joelhos doiam ao cair e cada vez que me custava mais levantar-me, comecei a ver minhas costelas salientes.”

Como ele relata, havia muitos peixes, mas não havia maneira de pescá-los. Da mesma maneira não tinha como fazer algum tipo de armadilha para tentar capturar algum animal.

  • Sinalização:

“A primeira vez que avistei um avião, gritei “socorro!”, “aquí estou”, mas sabia que por conta do barulho não iriam me escutar. Eu estava imerso no bosque… sabia que não poderiam ver-me ou que seria muito complicado que me vissem”

“Pensava que se encontrasse com alguém gritaria uma, ou no máximo, duas vezes para não gastar tanta energia”

“A partir do décimo dia comecei a escutar muito movimento, mas em nenhum momento tive a possibilidade de fazer alguma espécie de sinal de fumaça e a roupa que vestia se confundia com a folhagem… Eu sentia barulhos de máquinas, alguns motores de barcos ao largo. Tinha em mente que estavam me procurando, mas nunca tive a certeza.”

“Entre o 13º e 15º dia percebi muito movimento, helicópteros, aviões, gritos, latidos de cães, motores de botes Zodiac. Eles no inicio me chamavam, quando andavam pelos braços dos ríos da zona e rastreavam com os helicópteros.

“Percebi alguns motores, como se me estivessem procurando, mas estava me arrastando, era quase impossível me comunicar, eles não podiam ver-me, mesmo que passassem a meu lado.”

Aqui um espelho ou um apito poderiam ter feito toda a diferença. Também uma fogueira poderia tê-lo ajudado muito. Li numa das edições de 2017 da revista Backpaker o relato de um hiker que se perdeu na Pacific Crest Trail, ele estava fazendo a travessia com um grupo mas como não enxergava bem se perdeu do grupo e saiu da trilha. Ele só foi encontrado por um grupo de bombeiros porque fez uma fogueira com muita fumaça.

  • Remédios:

“Tinha feridas nas mãos, que me causaram os galhos, picadas de insetos e alergias das moscas do cavalo, mosquitos e sanguessugas além de hematomas que me causaram alguns insetos.

Dependendo da região, feridas nas mãos podem infeccionar e transformar uma situação difícil em extremamente complicada, por isso a importância de se levar sempre algum tipo de anti-séptico.

Conclusão

Confira o momento em que Daniel chega no hospital de ambulância:

Estado do sobrevivente no hospital:

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Daniel teve muita sorte em encontrar o grupo de excursionistas. Ele já havia perdido 15 quilos e estava no limite de sua resistência, um pouco mais e provavelmente não teria sobrevivido. Tudo isso talvez pudesse ter sido evitado com um simples de kit de sobrevivência que cabe no bolso e um pouco de prática, porque força de vontade, fibra e garra para sobreviver ele demostrou ter muita. Espero que o relato de Daniel Flores ajude a outros a não passarem pela mesma situação.

Texto escrito pelo leitor e sobrevivencialista Carlos Cabral de Menezes.

 

 

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um comentário

  • Pois é, e tem muita gente que desvaloriza os mini kits. Concordo que podem não ser suficiente, mas se bem elaborado levando em conta no mínimo as necessidades básicas da sobrevivencia e o portador tiver conhecimento prático de como tirar proveito dos itens numa situação de necessidade vai conseguir amenizar a situação e facilitar sua localização pelas equipes de resgate.

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