Cuidados com cães durante trilhas!

Quando fazemos atividades que nos dão prazer e alegria é muito natural o desejo de termos ao nosso lado os melhores amigos. É comum e não tem nada de errado sentirmos o desejo de levar o melhor amigo do homem para acompanhar-nos em uma trilha, porém sou veterinário e nunca um tutor me pediu informações de como poderia tornar esse passeio mais seguro e divertido… Mas diversas vezes atendi acidentes e tratei diversos males dias depois à aventura. Por isso, hoje trataremos aqui dos cuidados iniciais para a preparação física, comportamental, cuidados de saúde profiláticos, equipamentos necessários e alimentação adequada para uma aventura com o seu melhor companheiro.

O seu cão não sabe “viver na natureza”

Um grande erro que as pessoas cometem é pensar que o cão é um ser criado e faminto para viver na natureza e quando você o soltar nesse ambiente ele saberá tudo e se sentirá em casa. Não! Cuidado com esse romantismo! Ele é um animal doméstico, sem a humanidade ele não existiria, sua genética foi selecionada para viver ao nosso lado.

Não vivemos mais na natureza, logo eles não estão acostumados a andar quilômetros para encontrar alimento. Você terá que engrossar os coxins do seu amigo antes de levá-lo a uma trilha, as patas dele estão acostumadas com o piso azulejado e calçadas urbanas, quando vão a natureza pisando em pedras, terras secas depois terra molhada e grama irá aumentar ou desgastar os coxins finos e frágeis de seu animal urbano.

Acostumá-lo aos diversos tipos de piso em passeios diários evitará ferimentos durante as trilhas.

Outro fato que temos que relembrar é que ele não conhece os perigos do mato, assim como ele pode ficar com medo de uma cobra ele pode achar divertido e querer brincar.

Temos que conhecer a personalidade do nosso amigo e conseguir prever os riscos que isso pode acarretar. Um cão ansioso ou hiperativo pode se distrair com uma borboleta e ser perder. Um cão de porte pequeno e corajoso pode seguir o cheiro de uma capivara ou javali e se colocar em perigo achando que dará conta da briga.

Como começar?

O primeiro passo é começamos com caminhadas pequenas, ainda urbanas, com coleira e guia curta. Conforme você realiza essas caminhadas perceberá a diminuição da ansiedade do cão e você vai aprendendo a observar os sinais de fadiga, sede, fome, quando ele quer fazer as suas necessidades.  Por motivos de segurança precisamos treinar os comandos de obediência “Junto” e “Para”, em uma situação de perigo usar esse comando lhe dará alguma forma de controlar o cão e evitar acidentes.

Conforme você vai conhecendo a personalidade passeie com ele em parques e lugares mais movimentados com uma guia longa a mantendo “meio solta” para dar confiança ao seu PET e você testá-lo como se estivesse sem a guia.  Quando se sentir confiante em leva-lo a uma trilha ainda recomendo que nas primeiras vezes utilize a guia longa, depois de acostumado e condicionado poderá deixá-lo sem a guia.

O cuidado com a saúde é importante, então o recomendado é fazer uma consulta com um Médico Veterinário para saber a condição de saúde do seu animal. Em geral, todas as raças de cães podem fazer trilhas mas algumas raças têm limitações nas atividades, como os cães braquicefálicos que tem uma limitação na capacidade respiratória, dando-lhes uma limitação em atividades intensas, de explosão ou muito longas. Para esses, é indicado fazer várias pausas para descanso, o quanto for necessário.

Já animais de grande porte podem ter problemas de articulação já no primeiro ano de vida, então fazer radiografias podem ajudar a saber quais os cuidados antes e depois das atividades. O Médico Veterinário também indicará um protocolo de vermífugos e programará o protocolo de vacinação completa, com as vacinas polivalentes, a vacina antirrábica, a vacina contra gripe e a giardíase. Existem duas doenças muito preocupantes para a saúde animal que é a Dirofilariose e a Leishmaniose, ambas transmitidas por picada de mosquito. Contra a Dirofilariose existe um vermífugo de longa duração que protege o seu cão do famoso verme do coração. Contra a Leishmaniose já existe uma vacina para os cães, mas a melhor prevenção ainda é repelir o mosquito, existem produtos veterinários específicos para essa função que ainda previnem contra pulgas e carrapatos.

Um extra: Para transportar o seu animal de um município a outro você precisa portar, juntamente com a carteirinha de vacinação o GTA (Guia de transporte animal) assinado por um Médico Veterinário. Programe também o hospital veterinário mais perto do local da trilha, anote o telefone e saiba previamente como chegar lá em caso de uma emergência com o seu amigo peludo. Podemos falar futuramente em um Kit de primeiros socorros veterinário.

E quais equipamentos devo levar?

Já os equipamentos importantes que o seu animal precisa é uma coleira com telefones para contato caso o seu cão se perca e moradores da região o encontrem, dentre esses números deve ter no mínimo um número fixo.

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Exemplo de coleira com telefone

Sinto informar que as vezes celulares não funcionam, ainda mais nas trilhas em mata fechada.

O telefone fixo deverá ser uma pessoa que você sabe que terá alguém para atender e anotar um recado (a sua Avó por exemplo). Caso se separe do seu amigo peludo ligue para esse telefone fixo e avise o que aconteceu, caso contrário se alguém encontrar o seu cão e ligar para a sua avó e ela não ter recebido uma notícias suas ela poderá dar um alerta do seu desaparecimento, o que não será muito ruim se for verdade. Acidentes acontecem e o seu cão poderia te salvar pedindo um socorro dessa maneira.

Importante usar junto com a coleira um peitoral, em um momento de necessidade e segurança o peitoral te dará mais estabilidade e tração para segurar o seu animal. Em conjunto uma guia de couro longo, para toda vez que achar interessante utilizar como modo de controle e contenção do animal.

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O peitoral oferece mais estabilidade e tração

Outro equipamento muito ignorado é o pote de água. Os cães do exército americano no início da guerra do Afeganistão apresentaram uma severa desidratação, em primeiro momento acharam que era devido a calor intenso, mas logo perceberam que o problema era como os soldados davam a água para o cão, eles ofertavam a água ao animal na boca do cantil. Os cães para se hidratarem de maneira eficiente precisam formar uma concha com a parte ventral da língua, lamber a água corrente não é o suficiente para se hidratarem. No momento que introduziram nos coletes táticos dos cães um pote de lona dobrável o problema de desidratação foi resolvido. Além do pote de água é interessante uma garrafa de água própria para o seu amigo, assim você saberá o quanto ele está ingerindo. O último item não menos importante são saquinhos plásticos para coletar os dejetos, não, as fezes do cão não são adubo!

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Não menospreze a hidratação do seu cão!

A alimentação é um assunto muito complexo, falarei aqui de um momento muito especifico e esporádico pois cada caso será um caso diferente, procure um Veterinário para te auxiliar. 

A quantidade de ração seca que você dá em dias normais é a necessidade basal do seu cão, ela será a base da alimentação no dia do passeio. Caso essas caminhadas e trilhas sejam diárias e intensas, podemos optar para uma ração especifica para atletas. Sempre precisamos controlar a quantidade de alimento no estômago do animal, uma atividade física com o estômago cheio pode desencadear um problema de saúde sério, uma emergência médica chamada de Síndrome da dilatação vólvulo gástrica. Antes da atividade temos que dar uma porção bem menor da ração seca, cerca de 10% no volume diário pelo menos duas horas antes da atividade.

O gasto calórico é muito variado dependendo da atividade. Na garrafa do seu amigo pode ser adicionado uma vitamina liquida para não gerar uma hipoglicemia. Por exemplo, se normalmente ele é alimentado de manhã e à noite, fora a água com vitamina pode fazer uma refeição depois da caminhada com uma ração úmida dando 50% do volume diário indicado para o seu animal. Em caminhadas que duram o dia inteiro levem sempre alimentos para dois dias mais do programado. Sempre que o seu amigo comer aguarde pelo menos 1 hora e meia antes de voltar a caminhar.

Existem empresas que fazem esses passeios com os cães e seus tutores, procure saber se na sua região existem grupos assim. O assunto é muito amplo e complexo, não existe uma fórmula que se encaixe para todos o que deve ser a prioridade é o bom senso. Consulte sempre o seu Médico Veterinário de confiança. Nada impede de aprofundarmos os temas que vocês apresentarem mais interesse.

Texto escrito por Fagner de Moraes de Oliveira, formado em Medicina Veterinária pela PUCPR, Mestre pela PUCPR, Responsável Técnico da Clínica Veterinária Vet&Clin e do Canil Equipe Canídea prestadora de serviços a Guarda Municipal de São José dos Pinhais.

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8 Comentários

  • Gostei da abordagem Fábio, sou sobrevivencialista há 04 anos graças a este site “Julio” e não tinha visto o conteúdo como o do texto.
    Tenho uma Rotwailler e ficaria preocupado com o que fazer caso acontecesse algo com ela em uma trilha ou numa SHTF. Farei uma experiência com ela em breve e postarei no futuro os resultados.

  • Tema muito interessante e texto muito bem escrito!!
    Parabéns. Achei as dicas muito legais.

  • Interessante essa pegada, imagino que exista um campo bem vasto a ser explorado nessa temática. Mais uma vez o canal/site surpreendendo com matérias instrutivas e pouco abordadas.

    • A ideia é exatamente essa, que bom que gostou! Sim, a temática é muito grande e muto complexos. Fique a vontade em sugerir temas, tenho vontade de escrever sobre varias temáticas e preciso conhecer os seus interesses.

  • Se o seu cachorro tem o costume de ficar te puxando, o melhor seria a peitoral de treinamento ao invés da peitoral comum exibida na foto.

  • Muito show, a muito tempo estava pensando em adquirir um cão para fazer caminhadas,
    Vocês poderiam me sugerir algumas raças?
    Parabéns mais uma vez

    • D. R. Policena

      cara um bom vira-lata pode servir, mas se é o caso de preferir raças mais finas escolha de porte médio e com pelos mais curtos para evitar ter que carregar muita ração, carrega-lo e se cansar rápido e não ter que retirar carrapichos do pelo dele.

    • Obrigado, fico muito feliz em contribuir e que tenha gostado. A escolha de uma raça é muito complexa, depende de muitos fatores, como espaço em que você mora, número de pessoas da sua casa, disponibilidade finaceira. Recomendo muito cães sem raça definida, mas se optar por raça recomendo não ser braquicefálico nem com pelo longo e que tenha um porte médio a grande.

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