Um preparador olha para trás – Lições aprendidas em 10 anos de preparação

Alguém disse que “Você só deve olhar para trás para ver o quanto você já andou”. Essa frase é muito útil dentro do mundo da preparação, onde só aprendemos por meio da comparação e do contraste com decisões passadas. Nós lemos algum texto na internet e então a primeira coisa que fazemos é comparar o que está escrito com a nossa realidade, e isso é ótimo.

Eu sei que em muitos momentos eu fiquei olhando para os suprimentos e preparações dos outros quando tinha recém começado, e isso parece ser uma espécie de característica normal para nós, humanos. Cobiçar algo é normal, pelo visto.

Imagine um homem das cavernas andando, de repente ele vê seu amigo com um colar com um enorme dente de tigre… Automaticamente ele pensa “Ei, eu poderia usar um desses também”. Então alguém pensou em colocar bolsos modulares nas mochilas para carregar mais itens de sobrevivência e BOOM, o mercado tático surgiu.

Não existe mal em comparar-se com os outros, desde que você não se sinta inferior ou queira tomar o que é deles. Eu pessoalmente vejo equipamentos que gostaria de ter o tempo todo, mas não fico sofrendo por isso. Eu não acho que preciso discutir ou provar que estou certo quando falamos de tipos de preparação mais eficientes… Até porque esse tipo de jogo não permite ganhadores.

Lições de um preparador

Eu pensei em escrever este texto pois talvez haja algum valor em compartilhar um pouco de minhas aprendizagens nestes dez anos de preparação. Eu espero que alguns pontos te deem conforto ou até mesmo te façam rir. Se nada disso acontecer, você pode ver o quão bobo eu sou e se sentir melhor consigo mesmo.

O mundo não vai acabar amanhã

Preparadores e sobrevivencialistas geralmente visitam sites da área por muitas razões, mas eu acredito que a maioria dos preparadores tem o medo como raiz de seu interesse neste nicho. Não me entenda mal, eu não acho que o medo seja algo ruim. Nós temos o dom do medo para que possamos ser cautelosos quando necessário, temos um senso de perigo que nos avisa de riscos e que com certeza já nos salvou algumas vezes na vida.

Eu me preparo porque não quero que coisas ruins aconteçam com a minha família. É claro que isso não significa que eu ando assustado e sempre tenso. Você tem que pegar a motivação que te trouxe para esta prática e focar nela, mas relaxar o máximo possível. Eu vivi em uma constante espera pelo dia final, pelo colapso econômico e pela tirania do governo durante anos… E adivinhe? Ainda estamos aqui. Não fique tão travado pensando nisso a ponto de alienar sua família e tomar decisões ruins. As chances ainda são de que você possui bastante tempo para ficar preparado.

A não ser que o mundo realmente acabe

Mas, agora que eu disse isso – É fácil cair na paralisia da análise. Para aqueles que não sabem o que isso significa, é basicamente demorar tempo demais para tomar uma decisão ou uma ação. Você precisa fazer seu “trabalho” ou sair do arbusto!

Eu conheço alguns preparadores que fizeram planilhas enormes com diversas colunas descrevendo seus suprimentos – com centenas de linhas. Eles calcularam a diferença de um item para o outro em termos de preço em 4 diferentes vendedores. Pior ainda é que eles mantém estas planilhas atualizadas mas nunca compram nada que realmente precisam.

Eles sabem o que precisam para começar, mas não conseguem puxar o gatilho. O preparador que não tem nada além de um ótimo plano não estará muito a frente da pessoa que é pega em surpresa completa durante um desastre.

Eu recomendo começar pequeno, apenas consiga o básico para te suprir durante eventos de clima ruim (tempestade e afins) e então vá aumentando conforme pode. Você não precisa comprar 3 anos de comida liofilizada no primeiro dia, mas não fique aí parado esperando aquela fantástica faca de sobrevivência ter mais 55 centavos de desconto. Você precisa cobrir o básico.

“Quem tem um não tem nenhum” é um jeito esperto de fazer você gastar dinheiro

E como estamos falando de comprar suprimentos você com certeza já ouviu isso antes: Quem tem um não tem nenhum. Isso significa que se você tem apenas uma unidade de um item, por exemplo uma lanterna, e você perde ela, você não tem nenhum outro backup para te salvar. Pela lógica isso faz sentido, não é? Redundância é outra palavra que nós adoramos e que essencialmente significa a mesma coisa.

Mas veja bem, eu não estou dizendo que você não precisa de backup’s, o que estou dizendo é que você não precisa aplicar essa regra para a sua mochila de fuga (BoB). Eu conheço um Youtuber que tem ótimos conteúdos, mas a mochila dele pesa 30kg! Porquê? Bom, porque ele tem MUITOS itens redundantes. Facas, serras, roupas, métodos de fogo e etc… Enfim, aqui você tem que ter bom senso para evitar gastar desnecessariamente.

A sua mochila de fuga não tem propriedades mágicas

Falando de mochilas de fuga, devo enfatizar que elas não são uma carta de “saída livre do desastre”. Uma mochila bem preparada pode te dar apenas mais opções. Ter um bando de equipamentos não significa que você vai viver e o resto vai morrer. Eu realmente acho que infelizmente muitas mochilas serão tiradas dos corpos de preparadores que morreram por arrogância, má sorte ou ignorância.

Lembre-se, as mochilas de fuga são o meio que te levam a um fim, não o objetivo final. Prepare-se com elas, mas cuidado para não se iludir. Elas só vão aguentar a quantidade de dificuldades que você é capaz de aguentar.

Você nunca vai ter coisas suficientes

Eu escrevi um texto faz certo tempo chamado “Você está pronto para o fim da preparação?”. Basicamente o objetivo é dizer que não importa quanta água, comida, sementes e munições você tenha embaixo da cama… Um dia tudo acaba. Se nós realmente passarmos por um incidente de crise intensa os seus suprimentos vão durar até determinado ponto. Então, o segredo é planejar para saber viver sem todos esses itens! Sim, o começo da preparação é comprar vários itens nas lojas, mas depois de ter o básico, comece a pensar em como viver sem nada disso. Comece a planejar em cultivar uma horta ou comprar um pedaço de terra mais afastado da cidade.

Ser militar ou ex-militar não te deixa mais qualificado para sobreviver

Sim, isso está sendo escrito por alguém que é ex-militar. E sim, se você entrar no serviço militar você vai ter vários tipos de treinos que se enquadram dentro da arte de preparação. Dependendo de qual ramo você aprende tudo sobre armas, táticas, primeiros socorros, navegação e também como explodir coisas… Mas isso não te faz um expert e muito menos um líder natural. Eu sei que alguns preparadores se apoiam no serviço militar que possuem do passado, e isso pode ser um problema.

Eu sei que uma pessoa que nunca viu combate antes não teria o mesmo desempenho que você, especialmente em táticas de emboscada e semelhantes, mas, vendo o outro lado da moeda, um soldado treinado talvez não saiba sobreviver tão bem em cenários de crise quanto uma mãe solteira. Eu adoraria ter 4 SEALS no meu círculo de amizades, mas eu não acredito sequer um segundo que só sobrevive quem tem treinamento “oficial”. Comportamento é um fator ENORME na sobrevivência, então você precisa focar nisso.

Planeje ser autossuficiente, mas não negue ajuda

O pistoleiro solitário desta imagem é a fantasia de muitas pessoas quando pensam em um cenário de desastre. Você andando no meio de ruínas fumegantes que costumavam ser sua cidade, eliminando ameaças e voltando para o seu esconderijo de maneira épica. Esse é um bom enredo para um filme, mas o ser humano só existe até hoje por conta da capacidade de se agrupar. Sim, você pode sobreviver sozinho por um tempo, mas para prosperar é importante ter mais membros no seu grupo além de si mesmo. Você será mais forte, mais capaz e terá mais pessoas para conversar (isso é super importante).

Você nunca saberá tanto quanto deveria, mas está tudo bem

Se eu fosse rico e não tivesse mulher ou filhos, eu poderia me dedicar a aprender algo novo todos os dias. Existem tantos assuntos que eu gostaria de ter tempo para aprender… Talvez isso seja uma desculpa, mas com o trabalho e responsabilidades, tempo livre é um luxo que eu não tenho de sobra. Mas só porque eu não posso fazer 5 aulas de Krav Maga por semana, competir em uma maratona de Crossfit ou aprender código morse não quer dizer que eu esteja triste. Eu tenho uma boa vida pela frente e tenho tempo para aprender o que preciso se me planejar bem. Eu não vou ficar revoltado só porque não sei de muitas coisas que os experts de sobrevivência sabem.

Eu disse antes e digo de novo… A preparação é um estilo de vida, não um destino final. Você nunca poderá ficar preparado completamente, essa é uma posição inalcançável. Ainda assim, você pode ficar melhor preparado para os problemas que a vida pode jogar na sua frente.

Esta é uma jornada e todos nós estamos caminhando nela, com calma. Estou feliz de ter você do meu lado! Vamos em frente.

Traduzido e adaptado do blog “The Prepper Journal“.

 

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3 Comentários

  • Excelente texto, mais uma vez uma oportuna e conveniente tradução enriquecendo a reflexão sobre o sobrevivencialismo de raiz. Ler e periodicamente reler um texto dessa envergadura trás um crescimento realístico sobre o final da preparação e sobre as circunstâncias imprevisíveis que um SHIFT pode ensejar. A doutrina do sobrevivencialismo é para os fortes (física e psicologicamente, como dois lados da mesma moeda). Eu costumo dizer que o sobrevivencialismo não tem espaço para ingênuos. O comportamento definirá quem vive e quem morre, as preparações serão importantes mas só como um start.

  • Murilo Freire

    Muito bom. Eu gosto muito desse tema, só acho uma frescura muito grande em relação às facas. Eu moro num sítio há15 anos e uso apenas um facão rabo de galo e uma faca tipo peixeira ambos tramontina ( tipo básico mesmo). E isso basta. Se precisar cortar uma madeira mais grossa uso uma foice ou um machado, vai depender do que for cortar. Uma faça de R$ 200,00 ou R$ 500,00 é um absurdo! !! Pra mim isso é sobrevivêncialismo de grife. Bom, essa é minha opinião, não quero mudar a de ninguém. Só espero que se pense um pouco nisso.

  • Gostei muito do artigo, me fez pensar em várias coisas sobre o assunto. Se eu pudesse apontar algum defeito ou alguma parte que eu simplesmente não gostei, foi quando o “The Prepper Journal” fala sobre militares ou ex-militares. Eu acredito que quem é militar ou até mesmo ex-militar, vira uma pessoa com mais probabilidades de sobrevivência, pois ela teve algum treinamento, aprendeu algumas coisas sobre o assunto. E o melhor, praticou! Claro, eu sei que ele não será um expert na área mas com certeza ele terá mais chances do que um civil normal. Enfim, fico feliz que tenha trazido esse artigo traduzido para nós. Obrigado!

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