Jogos de sobrevivência servem como treino para a realidade?

Com uma quantidade enorme de jogos com foco em sobrevivência surgindo para computador e consoles, chegou a hora de debatermos a grande questão… Será que estes jogadores podem ficar mais preparados para uma situação de sobrevivência real?

Pode parecer uma discussão contaminada até pelo fato de eu ser um jogador de carteirinha, porém hoje vamos avaliar de maneira bastante calma os diversos aspectos comportamentais por trás do simples ato de “jogar um joguinho”. Para facilitar, precisamos dividir esta conversa por tópicos.

Jogos estimulam nosso cérebro

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O cérebro é uma máquina que precisa ser estimulada, caso contrário começa a definhar. É natural que conforme os anos vão passando nós vamos lentamente caindo em uma rotina, realizando as mesmas tarefas e manias dia após dia, até o ponto onde qualquer conhecimento ou prática nova pode soar antiquada ou simplesmente desinteressante para você.

É exatamente aí que os jogos podem trazer vantagens. Todo “joguinho” tem como premissa básica desafiar você a terminá-lo, correto? Para isso, propõe uma série de obstáculos que precisam ser superados por meio de sua habilidade, conhecimento, reflexo e capacidade estratégica. Já sabe onde estou indo com isso, certo?

Pois é. Ao enfrentar diferentes jogos, com universos, personagens e dinâmicas diferentes você está sempre forçando seu cérebro a se adaptar e solucionar problemas, o que por si só já é fantástico.

Mas vamos além, hora de jogar alguns dados aqui:

– Desacelerar o envelhecimento: Um estudo na Universidade de Iowa selecionou 681 pessoas saudáveis de 50 anos para jogar 10 horas de um determinado jogo durante 8 semanas e, quando comparados com o grupo controle, notaram que a estimulação cerebral causada no grupo que ficou jogando desacelerou o envelhecimento das células neuronais em vários anos. Sim, jogos podem te manter mais jovem;

– Tomadas de decisão mais rápidas: Jogos de ação podem ajudar o indivíduo a ter maior velocidade de processamento nas tomadas de decisão. Um estudo feito na Universidade de Rochester mostrou que a capacidade de absorver mais dados por segundo devido ao ritmo mais acelerado dos jogos pode aumentar a velocidade de decisão em até 25% se comparada com indivíduos não jogadores;

– Visão mais acurada: Diferente do que muitos pensam, os jogos não vão te deixar cego e com um óculos fundo de garrafa. Na verdade, em 2009 um estudo na Universidade de Rochester descobriu que jogos podem estimular a função de “sensitividade ao contraste” de nossa visão, facilitando a detecção de diferentes tons de cinza. Essa habilidade pode lhe dar grande vantagem ao dirigir no escuro, por exemplo;

– Jogos te deixam mais sociáveis: O esteriótipo do cara estranho e isolado já caiu por terra. Em um estudo em conjunto realizado no Canadá e Reino Unido cientistas buscavam comportamentos antissociais em jogadores e o que descobriram foi exatamente o oposto! Jogadores são geralmente mais amigáveis, sociáveis e possuem laços mais fortes com seus amigos devido ao interesse compartilhado por jogos;

– Você se torna mais adaptável: Um estudo feito  na Universidade de Londres demonstrou que jogos que apresentam desafios com gerenciamento de crises (como os focados em estratégia e sobrevivência) forçam o jogador a ter uma abordagem flexível para solucionar os problemas que aparecem de forma constante. Isso estimula a neuro plasticidade, que é a capacidade de criar novos caminhos neurais para resolver problemas de maneiras diferentes das que já estamos habituados;

Enfim, como você pode ver, todos aqueles receios antigos de que jogos poderiam estimular a violência, impedir o desenvolvimento de habilidades e gerar isolamento social já não tem mais base para continuar existindo. Agora com essa base já construída, vamos responder a pergunta principal deste artigo!

Jogos de sobrevivência podem ajudar na realidade?

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Já de cara te digo que a resposta é… Talvez. Isso porque existem muitas variáveis envolvidas no processo e vou tentar colocá-las aqui para clarificar esta resposta:

  • Depende do jogo: De nada adianta treinar em um jogo ambientado em um universo fantástico e que não tem as mesmas “leis de sobrevivência” que a vida real. Você ainda vai aprimorar as habilidades que citamos acima, porém não aprenderá conhecimentos que podem ser realmente úteis para uma emergência.
  • Estilo de abordagem: Se você joga como um alucinado, apenas pensando em “zerar” o jogo, a aprendizagem é prejudicada. Para que você consiga criar uma experiência de imersão – necessária para uma melhor aprendizagem – você precisa jogar no estilo “role playing”, agindo como se estivesse realmente lá onde o personagem está e tomando decisões baseadas no universo dele;
  • Objetivo final: Se você está apenas jogando para passar tempo, grande parte dos conhecimentos que seriam úteis na realidade poderão passar batidos. Para realmente tirar proveito de tais jogos o ideal é adotar a postura de imersão dita acima mas também focar na aprendizagem das técnicas que são utilizadas no jogo.

Talvez agora você esteja pensando: “Mas Julio, a prática real é a que realmente permite que a gente aprenda a executar as técnicas!”

Calma, você não está errado! De fato nada substitui a experiência real, em campo e em uma situação simulada próxima da realidade. Você realmente só pode dizer que aprendeu a fazer fogo depois de conseguir fazer uma fogueira embaixo da chuva e tremendo de frio e fome, porém ter conhecimento teórico de como as coisas funcionam é melhor do que nada.

Em uma situação de emergência o seu cérebro vai buscar por qualquer informação útil para solucionar os problemas que estão ao seu redor e ter vivenciado isso de forma virtual anteriormente poderá lhe dar maior chance de sobrevivência.

Por exemplo, se em determinado jogo você tinha de cuidar da hidratação do seu personagem e que para tal precisava procurar por água e fervê-la para evitar doenças, já sabe que o mesmo pode ser aplicado na realidade – não é muito, mas é alguma coisa.

É claro que existem inúmeros jogos, alguns mais fantasiosos e outros bastante complexos, então se até agora você ficou interessado nesta nova possibilidade de entretenimento e treinamento, chegou a hora de conhecer algumas sugestões que nós já testamos e acreditamos que podem agregar conhecimento para qualquer sobrevivencialista!

Jogos que desafiarão seus conhecimentos de sobrevivência

É quase impossível recomendar todos os jogos que mereciam estar aqui, então foquei nos que tenho jogado recentemente e são mais “próximos” da realidade ou que possuem interações comportamentais interessantes para treinar nossa resistência ao estresse ou capacidade estratégica e tática.

The Long Dark (A escuridão longa)

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Este jogo está em desenvolvimento porém já está aberto para compra. Nele você é um piloto que caiu no meio do inverno no hemisfério norte depois de uma tempestade geomagnética e então tem de sobreviver contra o frio em um ambiente inóspito e apenas com casas abandonadas e construções destruídas. Seus únicos inimigos são a fome, frio, cansaço, hidratação e é claro, lobos e ursos. Não há monstros nem nada, o foco é sobrevivência pura.

No modo “sandbox” disponível até o momento não há missões ou objetivos, você deve apenas se manter vivo pelo maior tempo que conseguir, porém em breve liberarão o modo história onde haverão objetivos mais complexos.

O que mais me impressiona neste jogo é o nível de imersão que ele proporciona. Sem muitas “firulas”, você é forçado a entrar na pele do personagem para ser capaz de lidar com os desafios da natureza, que não facilita nem um pouco.

Ultimamente tenho gravado uma série deste jogo no Lobo Gamer (meu canal voltado para gameplays) e caso queira conhecer o The Long Dark recomendo que assista ao menos o primeiro episódio:

O jogo está disponível para compra diretamente na Steam (clique aqui).

This war of mine (Esta guerra minha)

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Neste jogo de gráficos mais simplistas você controla civis tentando sobreviver em uma guerra. Diferente de muitos jogos no This War of Mine você não tem habilidades heroicas ou facilitadores, você é apenas uma pessoa comum tentando passar por essa realidade dura.

O foco do jogo é basicamente em gerenciamento de recursos e também tomadas de decisão. Em muitos momentos você perceberá que as decisões que toma no primeiro momento do jogo impactarão diretamente nas suas chances de sobrevivência conforme o tempo vai passando.

Outro grande foco do jogo é a criação de dilemas morais. Além de lidar com fome, doença e violência, você também tem que – por exemplo – decidir se irá roubar comida de idosos para alimentar o seu grupo ou furtar medicações de um hospital improvisado e, caso decida fazê-lo, terá de enfrentar problemas como tristeza e até mesmo depressão por parte de integrantes do grupo.

Recentemente lançaram uma pequena expansão para o jogo onde agora você também pode ter crianças no grupo, dificultando ainda mais a sobrevivência até o fim da guerra. Porém já aviso… Este jogo, quando encarado em formato de imersão, tende a deixá-lo meio cansado e depressivo por conta do clima triste e duro enfrentado.

Caso queira conhecer mais sobre ele, já gravei uma série há um bom tempo, você pode assisti-la aqui:

O jogo está disponível para compra no seu celular e também na Steam (clique aqui).

Rust (Ferrugem)

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Você nasce pelado em uma praia, é isso. A partir deste ponto, tem de cuidar de sua hidratação e fome, vivendo em um mundo aberto, selvagem e enfrentando muitos outros jogadores.

Rust é focado em sobrevivência e “crafting” (construção), ou seja, você tem de se manter vivo, coletar recursos e construir seu abrigo, armas e tudo mais. O nível de complexidade do jogo é bastante amplo, permitindo que você tenha plantações, armas automáticas, eletricidade e tudo isso começando apenas pelado com uma pedra nas mãos.

Contudo, o foco principal do Rust é na interação entre os jogadores. Os maiores inimigos e aliados possíveis são outros jogadores, que podem ser boas pessoas e ajudarem você ou simplesmente te matarem assim que te verem. Em alguns servidores mais estilo “role playing” (história) as pessoas entram dentro do universo e criam comunidades, histórias e personagens muito interessantes, que nos dão um pequeno relance de como seres humanos se comportam quando não há autoridades, leis ou governo.

Por ser um jogo em desenvolvimento, toda semana há adição de itens, recursos e desafios novos, mantendo o Rust desafiador mesmo para pessoas com mais de centenas de horas de jogo.

Aviso: Requere uma máquina com boa capacidade gráfica e de processamento para ser jogado sem travamentos.

O jogo está disponível para compra diretamente na Steam (clique aqui).


Deixo claro que não poderia citar muitos outros jogos aqui ou o artigo ficaria gigantesco, mas caso sua curiosidade tenha sido despertada, aqui vão mais alguns títulos que já testei e gostei bastante:

  • Stranded Deep
  • The Forest
  • H1Z1
  • 60 Seconds!
  • Arma 3

Conclusão

Jogar é uma forma gostosa de descansar, mas muito mais que isso, é uma atividade que pode gerar aprendizado e fortalecer habilidades motoras e de percepção que todo sobrevivencialista precisa ter.

A palavra chave é imersão. Quanto mais dentro do jogo você ficar, tentando se colocar no papel de cada personagem e reconhecendo os desafios como se você estivesse ali, mais você vai aprender e também superar desafios que poderão – quem sabe – trazer conhecimentos úteis caso um dia se depare com uma situação real.

Por fim, concluo dizendo que para aqueles que estão envolvidos no mundo de jogos provavelmente este artigo não apresentou nenhuma grande novidade, mas espero que tenha apresentado novas possibilidades para aqueles que não são muito “chegados” nesta prática.

 

E você? O que acha? Acredita que jogos podem realmente trazer ganhos para nós, sobrevivencialistas? Adoraria ler sua opinião nos comentários abaixo.

Até.

 

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6 Comentários

  • Leonardo Cardozo

    The long dark é sem dúvidas um jogo muito bom, é muito imersivo, teve uma vez que eu estava todo ferrado e entrei na represa, tem ordinário de um lobo lá, matei ele mas não antes de quase morrer por hemorragia no jogo e do coração fora dele.

    Tem um outro jogo que deviam colocar aí: Project Zomboid
    É bem hardcore

  • Affonso Ricardo Gums

    Minecraft é um puta jogo de sobrevivência!! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    Mentira, 7 Days to Die é legal! Tem aquela fantasia toda de jogo de zumbi, mas é muito legal, porém, consideravelmente pesado!

  • Cayo Vinícius

    Eu acredito q os jogos ajudem mas questões psicomotoras, como as citadas no texto, no entanto os jogos podem te dar a falsa impressão de q você sabe, e achar q sabe é muito diferente de realmente saber. Acaba sendo que nem a pessoa q assiste os programas e sobrevivência e acham q são especialistas e temos visto relatos de pessoas se dando mal por tentarem imitar seus ídolos aventureiros achando que conseguem fazer o que eles fazem. Outra coisa é achar que tem coragem de fazer na realidade tudo que se faz no mundo virtual. Essa é minha humilde opiniã

  • Leo Martins

    Estou jogando o Forest com alguns amigos e os jogos instigaram a falar sobre acampamento, caça, sobrevivência em situações de crise. Os jogos permitem atrair mais pessoas para se conscientizarem sobre as situações que podemos enfrentar e sobre conhecimentos que são necessários.

  • Quanto ao jogo garanto que sim é um bom divertimento para estimulo de raciocínio logico, tomadas de decisões rápidas porem esta longe de te garantir algum tipo sobrevivência. Você até pode adquirir algum conhecimento com isso.

    Porem o que vale é o que você tem feito, praticado ou testado para validar que funcione?
    Vou dar meu próprio exemplo.

    Vi um video do Julio que ele saiu da ilha de Floripa indo para o Continente simulando uma evasão na qual os meios de transportes estavam impossibilitado de seguir. O Julio pediu se alguém fosse fazer que postasse e dava as coordenados e informações do percurso feito. Foi ai que pesei. Blz é facil. Coloca a mochila e parte pro abraço. Porem a realidade não é igual um jogo. Que voce pega o personagem corre adoidado. Não é bem assim. Fui testar para ver como estava meu condicionamento. Caminhei 3km e meus pés estavam exaustos, meus joelhos doendo. por só benditos 3KM. Resolvi então me dedicar e comecei a caminhar mais durante os últimos meses. E já aumentei um pouco estou caminhando 7km. Pretendo chegar aos 10km. Porem sem ficar com dor, calos ou exausto.

    Quanto ao jogo. Tenho jogado “This war of mine” e ja roubei o casal de velho, ja matei um pessoal porem com certeza na vida real acho que matar ainda nao teria feito.

    Porem o bom desse jogo Julio é essas questões morais.
    Roubar dos idosos e me alimentar ou morrer de fome?
    Matar ou não matar?

    Aproveitando Julio uma pergunta.
    Em um senário como exemplo o ES. Imaginamos que essa paralisação dos policiais tivesse seguido por exemplo por uns 3 meses. Você em sua casa não tem mais recursos e vai começar a passar fome e cede. Você saquearia um super mercado? Qual seria o ponto que me diferencia de me tornar ladrão ou um sobrevivente?
    Seu vizinho tem recursos voce iria saquear ele? até que limite seriamos capazes de manter a civilidade?

    Abraço

  • Jonathan Patrick

    Adorei…. na minha mais humilde opinião, sim ou quase esses jogos servem para dar uma base sobrevivencialista…mas como são jogos existe muita fantasia em que as pessoas deixam se levar. Mas de maneira geral sim.

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