Post Colaborativo: Muito além do Norte

Para ajudar na produção de conteúdo para o blog e também incentivar os blogs que estão começando decidi criar uma sessão chamada “Post Colaborativo”, onde um autor de outro blog escreve sobre a temática sobrevivencialista e então além de podermos discutir sobre o texto, também abrimos a possibilidade de conhecer novos sites e autores. Vocês poderão encontrar os links para o blog do autor sempre no final da postagem. 

Houve um acidente na selva amazônica em 1989. O avião da Varig decolou, em 3 de setembro de Marabá, no estado do Pará, para Belém. Era um voo de uns 40 minutos, e boa parte dos passageiros se conhecia por fazer o trajeto frequentemente. Logo após a decolagem, um fato chamou a atenção de um passageiro que fizera a viagem várias vezes. O Sol, devido à hora,  já estava se pondo, logo, estava no Oeste. O passageiro estava habituado a vê-lo pelo lado esquerdo da aeronave, mas o Sol estava bem na frente deles. Era no mínimo estranho. O fato o deixou ressabiado, mas engoliu seu ímpeto de chamar alguém e acabar fazendo papel de bobo. Era ÓBVIO que aquela equipe treinada devia saber o que estava fazendo.

A tarde se foi e o Sol se pôs. Minuto a minuto, aproximava-se a hora estimada do pouso em Belém. O problema era que na hora do pouso, ninguém via as luzes da cidade. Na cabine de comando o piloto e o co-piloto olhavam-se sem saber o que ocorrera. Um defeito no sistema de navegação – certamente. O fato é que eles estavam perdidos. O pior foi o que se seguiu: Sabendo que por aquelas paragens da selva era incomum encontrar tráfego de aeronaves, em duas ocasiões os pilotos foram contactados por outras aeronaves perguntando se necessitavam de alguma ajuda. A reposta foi: NEGATIVO! Os passageiros começaram a perceber que algo estava errado.

Relembra-se que nesta época, sem GPS, ou comunicações satelitais, sem cobertura radar ou rádio, a selva era muito mais aterrorizante que hoje. Era esperado que eles estivessem vendo as luzes de Belém, e tudo que viam era um imenso mar negro da selva a noite. Simplesmente não sabiam que direção tomar, pois não tinham idéia onde estavam.

Como uma espécie macabra de tortura, o piloto dirigia-se aos passageiros constantemente mencionando os procedimentos que estava tomando e o tempo que ainda tinham de combustível até a queda. As horas transformaram-se em minutos e a última transmissão feita foi quando restava ao avião 15 minutos de voo, nas palavras do piloto: “Senhoras e Senhores, é o comandante quem vos fala. Tivemos uma pane de desorientação dos nossos sistemas de bússola. Estamos com o nosso combustível já no final ainda com 15 minutos. Pedimos a todos que mantenham a calma porque uma situação como essa é difícil de acontecer. Deixamos a todos com a esperança de que isso não passe de apenas um susto para todos nós. Pela atenção muito obrigado e que todos tenham um bom final.”

Em uma manobra de muita perícia o piloto aterrissou de barriga na selva. Com o choque, os assentos deslocaram-se para frente do avião, esmagando vários passageiros. Cerca de 42 passageiros sobreviveram, incluídos aí os pilotos. Amanheceu após o desastre e foram feitas as primeiras constatações que o alimento e a água eram escassos. Após um dia da queda, um grupo de passageiros resolveu que teriam melhores chances de serem resgatados se saíssem em busca de socorro. Embrenhando-se na selva, após horas de extenuante de uma caminhada de 40 quilômetros, eles viram um marco testemunho, uma pequena coluna de concreto usada para demarcar propriedades. Sabiam que estavam entrando em uma área de alguma fazenda. Após mais alguma horas, acharam uma casa onde pediram ajuda e conseguiram ser resgatados e sinalizar o caminho para as equipes de buscas.

Posteriormente, na condução do processo que tinha por fim determinar as causas da queda da aeronave ,veio a constatação: Não ocorrera nenhuma falha no sistema de navegação da aeronave. Ao inserir o rumo a ser seguido pela aeronave no piloto automático, o piloto inserira rumo 270°, quando o correto seria 027°. Ao invés de navegar para o Norte, o avião voara rumo Oeste, embrenhando-se na mata. Uma falha tola, mas que custou 12 vidas humanas.

Toda a história acima serve para exemplificar como orientar-se pode significar sucesso ou fracasso total. Fatores simples podem servir de base para que você se sinta mais seguro sobre que rumo tomar em uma situação de crise. Abaixo, relatarei alguns fatos que creio serem relevantes para orientação.

Primeiro: todos sabemos que o sol nasce no Leste e se põe no oeste, certo? Bem, não é bem assim. Se vocês estivar diretamente no Equador terrestre, ou bem próximo dele, como no relato acima, este modelo simplista funciona, mas, como isso pode ser pouco provável, vamos a alguns esclarecimentos. Para começar: Conforme a terra desloca-se no espaço sideral, o sol vai deslocando-se ou mais para o norte, ou mais para o sul, conforme o hemisfério e a época do ano nós nos encontramos. Supondo que estejamos no Hemisfério Sul. No Verão, o Sol estará bem para o Sul. Já no inverno, ele estará mais para o norte. No Brasil, você pode achar que isso varia pouco, mas não totalmente irrelevante. Em alguns locais no globo terrestre, o Sol nem chega a se por, descrevendo um arco no horizonte, proporcionando umas poucas horas sem luz. Também ocorre o inverso: noite por meses a fio. Assim, antes de seguir cegamente onde as orientações dadas pelo nosso astro-rei, cabe ponderar em que parte do globo você está.

Segundo: Apegue-se ao norte, pois ele orientará você completamente. Também não é bem assim. O norte que temos em nossa bússola é chamado NORTE MAGNÉTICO. O norte que normalmente temos nos mapas e cartas é o NORTE VERDADEIRO. A diferença entre ambos é chamada DECLINAÇÃO MAGNÉTICA. A declinação Magnética varia de ponto para ponto no globo terrestre. Para piorar: a cada ano sofre um decréscimo ou acréscimo. Difícil, né. Cálculos devem ser feitos para que possamos empregar uma bússola, para tomarmos direções a partir de um mapa

Terceiro: Cuidado se for seguir rumos dados pelos nossos maravilhosos GPS. Geralmente, o rumo, ou azimute, que ele nos fornece, é em relação ao NORTE VERDADEIRO, assim, caso você tenham uma pane no seu equipamento e precisarmos usar a bússola para seguir viagem, NÃO USE O MESMO RUMO do GPS, nem aproximado. Não sem saber a declinação magnética do local. Caso você tenha como saber a declinação, munido deste valor é que você deve fazer os cálculos para saber qual rumo seguir na bússola.

Quarto: Tenha ideia do que existe ao seu redor. Assim, se planeja acampar em um local retirado saiba de forma geral, onde podem ficar potenciais locais que possam ajudá-lo em caso de necessidade.  Por exemplo: A leste de minha posição há uma estrada. Ao Sul há uma fazenda. Os pontos cardeais se prestam para idéias gerais de localização. Assim, saber que a leste de sua posição há um poço, é achar uma agulha no palheiro. Achar um ponto ESPECÍFICO com eles é difícil.

Quinto: Confie na bússola! É um equipamento simples, não precisa de eletricidade, Algumas são pouco maiores que botões, mas ainda há gente que não acredita nelas. Um instrutor de mergulho amigo meu achou que o azimute que ele deveria seguir na bússola estava errado. Assim ele nadou, por baixo d´agua, para o azimute que ele achou correto. Resultado: Ao emergir estava totalmente fora de onde imaginava que estaria. Sem ar e com uma turma de alunos novatos sem saber o que ocorrera. Ficaram mais de 10 horas a deriva, até serem resgatados por pescadores. Por sorte estava em um local que era possível ver a costa e assim permaneceram calmos. Lembre-se: a bússola te dará direções gerais. Ela não tem a precisão de um GPS.

Sexto: Parece óbvio, mas para não deixar sua bússola desorientada, afaste dela todo o material ferroso, pois a proximidade desta substância pode causar leituras erradas e de deixar mais perdido do que você já está. A bússola gira livremente dentro de seu recipiente, assim é conveniente deixá-la estabilizar um pouco antes de fazer leituras.

Com estes pontos gerais e simples espero ter colocado alguma luz no tópico. Da próxima vez que for operar, estude o terreno, procure pontos de referência. Durante a noite, os pontos podem não aparecer, assim procure alguns pontos que possam ser avistados também a noite. Leve um GPS, mas tenha uma bússola, e boas preparações!

Escrito por Jack Wolf, do blog Manobra de Crise.