SHTF School: O custo da violência

cost of violence ptsd

Eu estive com muitas pessoas durante a guerra, passei muitos tempos difíceis com pessoas que naquele tempo eu chamava de amigos, ou pelo menos aliados. Depois que eu perdi contato com a maioria deles, algumas vezes eu ouço algo sobre alguém, vejo alguns deles, mas o contato real de “parceria” com as pessoas daqueles eventos e tempos é raro.

Pessoas que não passaram por experiências de guerra provavelmente imaginam que há algo como um encontro anual de antigos companheiros que atiravam juntos e matavam outras pessoas, e que estes encontros possuem grandes churrascos e bebidas… Também acham que nestes encontros nós todos rimos e lembramos o quão difícil foi e quanta sorte temos de estarmos vivos.

Na verdade haviam alguns encontros, mas não eram nem um pouco divertidos então parei com isso.

A maioria das pessoas nesses lugares olhava para os outros e via claramente o quão destruídos eles estavam. Eu conheci muitas pessoas “quebradas” nesses eventos e a grande questão era se a vida ferrou a gente ou nós ferramos com a nossa vida. No final, todos nós bebíamos, sem música, olhávamos para o fogo da churrasqueira e ficávamos bravos devido a trivialidade e falta de sentido do porque estávamos ali.

Na verdade nós não tínhamos nenhum tópico em comum para falar. Depois de passar por todos os tópicos básicos como o clima ou a situação ruim da economia nós sabíamos que cedo ou tarde alguém de nós ia começar com aquela “vocês lembram de como o S. foi morto?” ou aquela outra famosa “caras, nós somos sortudos por estarmos vivos”.

Na realidade todos nós sabemos como o S. foi morto, ninguém precisa ficar perguntando “vocês se lembram?”. A maioria de nós pensa como o S. ou a M. ou o L. ou qualquer um foi morto todos os dias durante a noite em casa, pois muitos de nós não temos família, a maioria de nós somos incapazes de viver vidas normais com alguém próximo.

E quando chegamos em casa, tarde, nós bebemos sozinhos, pois a maioria das pessoas como nós costumam beber sozinhas. Sem falsa modéstia, aqueles que sobreviveram são os melhores daquele tempo, sobreviventes reais, nós sobrevivemos tudo porque a estupidez era punida de forma muito dura, normalmente com a morte. Ainda assim, isso tudo queimou grande parte de nós.

Pessoas sem propósito ou objetivo. Um de nós trabalha em um estacionamento. O trabalho dele mal o mantém vivo com o mínimo de dinheiro para pelo menos comer. Sem esposa, sem crianças, sem amigos reais, sem posses exceto por algumas armas escondidas em algum lugar “porque você nunca sabe…”.

Ele foi um Leão nos tempos de guerra, um homem sem medo pela sua vida e sem respeito pela vida dos inimigos. Eu perguntei para ele uma vez como ele se sente quando está cobrando um ticket de estacionamento de um cara com 25 anos dirigindo uma BMW novinha com algumas garotas drogadas que ganhou isso tudo por estar colado a um político e olha para ele como se ele não fosse sequer humano, ou pior, como se ele fosse invisível, como se fosse apenas um fantasma que cobra os tickets.

Ele disse “Ah cara, eu tento não olhar, essa é a vida e eu estou muito velho para me preocupar com isso, de qualquer maneira“. Ele tem 45 anos. Eu acho que um dia ele irá pular do décimo sexto andar ou simplesmente pegar sua melhor pistola e explodir seu cérebro. O outro cara é desempregado mas trabalha em bicos fazendo o que precisa ser feito. De forma simples, quando alguém precisa assustar ou ferir outra pessoa, ele é o cara para isso.

Ele vive me dizendo uma história, acho que é o seu sonho ou desejo. Ele disse:

“Cara, eu estou sonhando e desejando que em uma manhã eu acorde e exista uma decisão dentro de mim, um daqueles sentimentos antigos que eu carregava durante a guerra.

Sabe o que eu faria? Eu iria para o lugar onde guardo minhas coisas, pegaria duas pistolas e um rifle e o máximo de munição que pudesse carregar. Eu colocaria minha farda antiga de combate, botas da sorte, colocaria meu bracelete que usávamos para nos reconhecer.

Sabe o prédio do governo local? Eu iria para lá, entraria pela porta de aço, lá tem dois seguranças, eu usaria a pistola neles, dois tiros na cabeça, para cada um. Caras jovens e sem experiência, cheio de esteróides e histórias da academia. Grandes músculos e braços, mas pequenos cérebros e bolas.

Depois disso eu de alguma forma fecharia a porta de aço comigo dentro para que nenhuma alma pudesse sair, nem mesmo eu. Talvez eu só bloqueasse ela ou usasse um explosivo lá. Como eles colocam barras de ferro nas janelas para se sentirem mais seguros, eu teria eles exatamente onde eu gostaria. Então, tiraria meu rifle do ombro e iria vagarosamente de uma sala para a outra. Todo mundo, cada último miserável ganancioso iria morrer.

Nas faces mais importantes eu usaria minha faca, sabe, aqueles que gostam de aparecer na TV, gostam de tirar fotos e entrevistas depois de fazer algumas caridades ou visitar escolas abraçando crianças na frente das câmeras… Faces que ganharam seu primeiro milhão vendendo comida de bebê misturada com gesso durante a guerra ou que negociaram a esposa de alguém por dois pedaços de carne enlatada.

Eu gostaria de ir devagar com eles, pedaço por pedaço. Eu acho que teria terminado muito antes do esquadrão da polícia especial chegar no lugar, lembre-se como eu era rápido nos prédios que tomamos durante a guerra.

Depois disso eu não me importaria com o que iria acontecer, talvez eu explodisse meu cérebro ou talvez tentaria levar comigo alguns policiais. Eles são jovens e cheio de ideias de filmes. Jogos sujos são coisas que são estranhas para ele, não seriam problemas para mim.”

Todas as vezes nós acabamos rindo do sonho dele. Ele diz isso tudo como se contasse uma piada, sempre. Mas algumas vezes eu acho que quando ele está se sentindo mal ou quando vê aqueles que nos comandam ou simplesmente quando as memórias incomodam ele demais, vejo algo nos olhos dele que mostram que não é uma piada.

Para tudo isso que eu escrevi aqui, as pessoas colocam o nome de “Estresse pós-traumático”. Mas o ponto real é que quando a violência entra na sua vida, no momento que ela se torna parte de você, você pertence a essa violência. Para o resto da vida. Na série famosa dos EUA chamada “Dexter” ele chama isso de “passageiro obscuro” e realmente este lado negro ficará com você.

Não há nada romântico nisso. Todas as vezes que eu vejo na TV sobre aniversários de eventos militares e então vejo a face daqueles caras embaixo das bandeiras antigas, não importa de que país ou guerra, todos eles têm a mesma expressão nas suas faces.

O aperto de mãos com os políticos, tirar fotos com eles, crianças tirando fotos com eles e os chamando de heróis e libertadores… Pode até ser verdade, mas provavelmente isso não significa nada para eles.

Quando os políticos vão embora com suas limusines e seguranças, quando o cara dos jornais e a equipe de TV deixam suas vidas, esses caras ficam sozinhos com seus pensamentos e memórias até o próximo ano onde eles ganham outro tapinha nas costas.

Duas lições principais aqui.

A primeira é que a violência é glorificada nos filmes de ação e jogos, talvez a mídia não deveria permitir isso ser levado de forma tão simples. Você olha para suas armas em casa e automaticamente pensa em tiroteios. Se as pessoas que realmente lutaram pensarem nisso a imagem de corpos sendo perfurados vêm a mente, o cheio de pessoas morrendo, o som de seus últimos suspiros, a bagunça que alguém deixa para trás.

Toda vez que você usa a violência o seu passageiro obscuro cresce e não irá te deixar, é parte de você. Então, se uma crise acontecer e todo o resto também acabar, talvez você se lembre disso e conte para as pessoas a sua volta que tudo tem um custo.

A segunda lição é que você tem de pensar sobre o tempo depois da crise. Eu tenho amigos no exército americano e conheço um pouco do serviço dos veteranos e, apesar de ser um péssimo serviço, ao menos está lá. Eu li um livro de história que dizia que os soldados dos tempos antigos tinham menos problemas com estresse pós-traumático pois viajavam juntos por muito mais tempo depois de saírem da área de conflito. Se você liderar um grupo de sobreviventes durante a crise pense em dar descanso para eles, um tempo para processar tudo.

Traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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7 comentários

  • Me identifiquei muito com o texto. Aprender com a tristeza chega a ser perturbador, mas só assim a gente passa a viver com mais valor

  • Alerta aos companheiros:
    No Brasil, os veteranos de POLÍCIA, principalmente das MILITARES, têm desenvolvido tais traumas.
    Não se enganem…
    Se nada for feito, e rápido, para aplacar a sanha assassina dos marginais e resgatar a autoridade das Forças de Segurança no Brasil, logo começarão a ocorrer episódios como o “sonho” descrito pelo Articulista.

    FORÇA e HONRA!
    CAVEIRA!

  • http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_12_16/Superbact-ria-resistente-aos-antibi-ticos-achada-em-rio-no-Rio-de-Janeiro-3417/

    Super bactéria no Rio de Janeiro.

  • O termo “passageiro obscuro” define muito bem o que acontece nesses momentos de caos, parece que vc sai de sena e que seu outro lado toma conta da situação e vc passa a ser o passageiro, no meu modo de ver e experiências que passei acredito que todos temos esse lado obscuro, o que separa os leões das ovelhas é o estilo de vida, treinamento físico e psicológico, o que se tem que ter em mente é que esse lado mais “agressivo” é essencial para sobrevivência, não me entenda mal, não estou dizendo pra sair detonando tudo, vc tem que ter controle da situação e usar esse lado a seu favor com frieza e sabedoria, porque se for somente uma ovelha já esta ferrado.

  • Nossa, parece que eu escrevi este texto, concordo com cada letra.

  • Henrique Fernandes Pereira

    Acredito que nem todas as histórias dele se refiram aos “amigos”, é bem provável que em alguns momentos ele esteja falando do que ele mesmo fez e pensa.

  • O Selco sempre me surpreende e me faz pensar bastante com os textos dele!!!

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