SHTF School: Fugindo da crise – Porque eu não consegui sair a tempo

A melhor forma de sobreviver é não estando perto problemas. Eu perdi minha chance de fugir e acabei sendo pego pela crise. Acabei preso e cercado por exércitos inimigos em uma cidade durante um ano, sem eletricidade ou recursos regulares. Todos lutavam pelo pouco que havia sobrado e ao mesmo tempo levávamos tiros e artilharia dos inimigos, fato que não ajudava nem um pouco na situação.

Existem várias razões pelas quais as pessoas falham em fugir. Na última semana, o Jay (colega que administra meu site) deixou Bangkok devido ao golpe militar. Ele não queria sair no começo, mas o senso comum ganhou e ele foi embora. Nada de ruim aconteceu depois dele sair, mas poderia ter acontecido.

Como já disse, existem várias razões para não conseguir fugir. A falha em reconhecer que a %$!$@ vai bater no ventilador, saídas da cidade bloqueadas, problemas em convencer os familiares a sair e muitos outros.

Em meus textos eu já mencionei muitas vezes que eu não consegui sair da cidade antes de tudo ser bloqueado. Na época, eu simplesmente não via os sinais ou mesmo que visse não julgava que fossem sérios o suficiente para mim. Em resumo, eu falava para mim mesmo que tudo ficaria bem.

Claro que para ajudar a mídia dizia que tudo iria realmente ficar bem, nada vai piorar e etc. Na época tudo isso fazia completo sentido, mas conforme o tempo vai se passando, hoje eu consigo ver mais um erro que cometi e que contribuiu para minha escolha de ficar.

Na verdade não foi uma escolha. Eu falhei em ver que tinha uma grande decisão a fazer naquele tempo. Nós humanos gostamos de seguir a maré, e foi isso que eu fiz. Apenas alguns anos depois quando sua liberdade foi tomada você percebe que falhou em escolher o caminho certo.

O grande erro que cometi foi de estar excitado e entusiasmado com os eventos que estavam acontecendo na minha frente, era algo hipnotizante. Sabe aquele sentimento de que você fará parte de algo grande, algo que será parte da história nos livros?

Eu tinha esse sentimento em um nível insconsciente de pensamento, eu acho. Fazer parte dos eventos era algo mais ou menos assim:

Dia 1 – Hoje perdemos a capacidade de ligar para fora da cidade, tiros esporádicos acontecem o dia todo, na televisão não há mais notícias da nossa cidade, o que é estranho…

Dia 2 – Eu vi um tanque na rua enquanto ia até a conveniência para ver se havia algo para comprar ou pegar. O tanque estava vagarosamente andando pela rua e um cara perto de mim disse “Eles vão acabar com o asfalto com esse monstro”.

Como se isso fosse importante. Esse cara pensava ainda em termos antigos, assim como todos nós. Talvez ele achasse que isso era temporário e que amanhã a cidade iria precisar reparar a rua porque o tanque estragou ela e todos nós vamos ter que pagar nossos impostos.

Dia 3 – O nosso vizinho aparece com um rifle e diz “Eu vou atirar naqueles desgraçados”. Ao perguntar quem eram os desgraçados, ele me respondeu “Qualquer um que se aproximar da minha casa”.

No começo era como se eu estivesse em um filme, mas em breve nós todos estávamos pensando “@&!*, tem gente morrendo de verdade aqui”.

Um dia depois do outro os eventos simplesmente foram se desenrolando, cada vez mais dramáticos. É como a crise que sentimos hoje mas um pouco mais acelarada. A mudança vem passo por passo. É tudo muito excitante até o ponto onde se torna tarde demais.

Isso é o que aconteceu comigo, um dia era simplesmente muito tarde para fugir.

Preciso esclarecer um ponto. Você tem de entender que esta não era a única razão pela qual eu fiquei na cidade, isso não era nem de perto o mais importante. Ainda assim, era uma das razões que passaram facilmente desapercebidas.

É importante que eu mencione aqui tudo isso, pois vejo em vários lugares que muitas pessoas ainda cometem erros semelhantes. É simplesmente interessante demais, então elas ficam para ver o que vai acontecer.

Para todos vocês que já estiveram em uma crise, seja ela qual for (desastre natural ou semelhante), você pode entender o que eu estou tentando falar. Os eventos não vão esperar por você, tudo vai se desdobrando de forma independente. No final ele simplesmente vai te engolir se você ficar no caminho.

Você ficará para trás para lidar com as consequências ou será destruído.

As pessoas geralmente agem como se o mundo girasse em torno delas e nada de ruim irá lhes acontecer, enquanto na realidade, você (e eu) não somos ninguém quando olhamos de uma perspectiva maior. Cuidado, quando você ganha mais experiência como sobrevivencialista e preparador você pode acabar se tornando arrongante e achar que sabe como lidar com o que a vida joga em você.

Eu era jovem naquela época, meu sangue reagia de forma diferente aos tiros, gritos ou boatos de ataque e defesa. Eu posso usar essa desculpa. Mas ainda assim, é fácil cair no pensamento de “quero ver o que vai acontecer”.

Com certeza era muito interessante especialmente no começo antes de eu perceber que as pessoas morriam em grandes números e que havia grande possibilidade de que eu também fosse morto, de que não seria somente um grande evento que acabaria rápido.
Mais tarde tudo se resumiu a sobrevivência, algo como constantemente correr pela sua vida. Você se torna um homem muito humilde quando você perde controle de todas as coisas ao seu redor.

Lembre-se que o ditado: “Que você viva em tempos interessantes” não é apenas algo que remete a tempos bons, como também pode ser uma maldição. Então esteja alerta para que quando “tempos interessantes” aparecerem na sua vizinhança você consiga sair, é muito melhor estar “entediado” mas vivo em algum outro lugar.

E você, tem um planejamento claro de quando é o momento certo de fugir?

Traduzido do blog SHTF School e adaptado por Julio Lobo.