SHTF School: Um dia típico durante a guerra

Um dos leitores sugeriu em um post recente que eu escrevesse sobre um dia típico durante a crise que enfrentei. Normalmente eu penso no tópico que vou escrever e depois escrevo, desta vez fiz o contrário e apenas escrevi. Este é apenas um típico dia durante meus dias de guerra.

Eu acordei com a sensação que não tinha pernas abaixo do meu joelho, apenas um sentimento estranho, algo entre dormência e dor.

O segundo sentimento era que havia algo errado com minha cabeça e definitivamente algo errado com meu quarto pois o teto estava bastante preto ao invés de branco. Eu sentei na minha cama muito rapidamente, o que foi um erro. Enquanto me segurava para não vomitar tudo voltou a mim:

Havia uma guerra acontecendo ali fora pelos últimos meses.

Minhas pernas abaixo do joelho estavam dormentes pois eu dormi com minhas botas, não que isso fosse algo estranho, eu dormia assim pois se eu tivesse que pular da cama rapidamente eu estaria pronto, o problema é que não soltei um pouco os cadarços antes de dormir.

O teto sobre minha cabeça estava preto pois nós estávamos usamos lâmpadas de óleo por meses, que eram apenas pedaços de trapos mergulhados em óleo. Cheirava mal e deixava uma graxa preta na parede, roupa e provavelmente nos pulmões também.

Minha cabeça estava prestes a explodir porque novamente eu bebi alguma coisa caseira ontem a noite durante uma troca com caras da rua 6. Eu lembro que depois de terminarmos o acordo um cara tirou uma garrafa de algum lugar e nós ficamos se sentindo mais confortáveis, pois havia algo como um costume estranho onde você não divide uma bebida com alguém que você quer matar. Hábitos antigos.

O cara batia na caixa de tomate e gritava: “Isso é coisa de primeira classe, vale muito, saudável para crianças e famílias por séculos”… Na verdade aquela lata era de terceira classe, provavelmente comprada a cerca de 100 quilômetros dali em algum mercado de barganha e então trazido para esse cara por algum caminho estranho do mercado negro para ser trocada por cinquenta vezes seu valor.

Eu estava com o “T” (um amigo). Depois que trocamos um pouco de álcool e comida de bebê por aquela lata de tomate, ele viu um pedaço de uma máquina. Para mim parecia algo como uma antiga parte de um motor de carro, completamente inútil, mas T ficou obcecado em fazer um moedor caseiro que poderia usar em todo tipo de situações.

O que você quer por isso?” Ele perguntou.

Ah, você vê que é perfeito para… para… você pode usar isso para…” O cara da rua 6 tentava descobrir para que T estava querendo usar aquela peça de lixo e então aumentar o preço. 

Eu quero usar para fazer um moedor” T disse, ignorando meus sinais com a perna para ele ficar quieto e deixar eu terminar a negociação.

Finalmente o cara da rua 6 colocou um grande sorriso gordo de negociador na cara com uma boca com muito mais buracos do que dentes.

Nós todos tínhamos dentes a menos naquele tempo, mas de alguma forma sempre me supreendia quando eu via isso em outra pessoa. Era engraçado e perturbador ao mesmo tempo. Eu não queria confrontar T na frente dos caras pois não era uma ideia inteligente. Quando você troca, precisa parecer e agir de forma confiante, dando ao outro lado a visão que você sabe o que está fazendo.

Se nós dois começassemos a não concordar ou que tínhamos algo a discutir, ou que não estávamos confiantes, o outro lado poderia nos ver como fracos. Isso poderia ser perigoso.

Então o T trocou algumas coisas por aquela porcaria. Nós bebemos mais um pouco de “coisa” e fomos para casa.

Agora, depois de acordar e sentar na minha cama eu estava tentando lembrar quantas latas de tomate ele devolveu para o cara em troca daquele pedaço de máquina mas… Eu não conseguia lembrar.

Estava muito escuro no quarto com todo aquele lixo jogado contra as janelas, então comecei a cuidadosamente procurar pelo meu rifle. Eu tinha o ritual de deixar meu rifle perto de mim, na mesma posição da minha cama, ao alcance da mão, carregado e pronto, mas não perto em demasia.

Eu lembrava de histórias de incidentes com armas, como a do cara que dormia com seu rifle carregado perto dele e quando o amigo entrou rapidamente no quarto e gritou “Acorde! Estão atacando!” ele entrou em pânico e explodiu seu próprio pé em vários pedaços.

Outros caras faziam exatamente o oposto e guardavam suas armas em um “local seguro”, então, quando alguém atacou, eles tiveram problemas para pegar a arma de tão “segura” que estava. Havia um monte de situações engraçadas em um mundo onde grande parte das pessoas tentando atirar e lutar não tinham experiência com armas.

Eu levanto da cama e procuro por cigarro no meu bolso. Não consegui achar nenhum, então viro meus bolsos ao contrário para coletar o pó de tabaco que estava nele… Encontrei o suficiente para um cigarro. No canto do quarto eu cortei um pedaço de jornal e enrolei no formato de um cigarro gordo.

Enquanto enrolava o pó no papel eu checava o que estava impresso nele: “… e nós temos que ser pacientes e fazer tudo… algumas pessoas querem usar o pânico… eu prometo…” Alguma baboseira política dos tempos de paz. Isso parecia bem distante agora.

Eu fui para o quintal, tirando alguns pedaços de porcaria que fariam o cigarro ter gosto ruim e cuidadosamente segurando ele na posição horizontal o tempo todo, caso contrário o tabaco ia cair completamente para fora.

O “Magrelo” (outro amigo) estava na varanda, fazendo algo como vigia, mas na realidade durante o dia tínhamos mais paz do que as supresas e perigos da noite. Ele só estava tentando pegar um pouco de sol ali.

T estava sentado na roda antiga de carro com uma chave de fenda nas mãos e uma pequena fortuna de ferramentas ao seu redor. O antigo pedaço de metal que ele trocou na noite passada estava em suas mãos, ele estava tentando grudá-lo na complexa mistura de pedra, madeira e aço que ele trabalhou em cima pelas últimas semanas.

E quanto você deu de comida em troca dessa porcaria?” (apontando para a peça) O Magrelo perguntou.

Eu não dei nada, ele queria pegar, pegou e deixe-o em paz” Eu disse, mas pensando ao mesmo tempo que ele deu aquela comida por nada. T colocou um pouco de óleo naquela peça e continuou trabalhando e falando conosco:

Há quanto tempo estamos vivendo como animais? 4 meses? 5? O quão sujos estamos? Tudo o que podemos fazer é atirar, dormir e achar comida para comer? Vocês ao menos TENTARAM fazer alguma coisa? Eu estou tentando construir aqui.”

O Magrelo o ignorou completamente, colocou suas mãos para tampar o sol e olhou o avião quase invisível bem alto no céu. Nas últimas semanas alguns caças estrangeiros voavam alto no céu como parte do esforço para parar a guerra civil abaixo deles. Eu acho que eles pensaram que iam assustar as pessoas e exércitos abaixo deles e fazê-los parar de lutar simplesmente mostrando poder.

O único erro no pensamento todo é que esqueceram que estavam lidando com Balcânicos. Nós nos massacramos por séculos com raiva inacreditável e, de repente, começamos a viver com grande amor e raiva silenciosa. Não consigo entender o sentido disso.

A maioria das pessoas viam aqueles caças como algo mágico ou até mesmo como miragens.

Mágica interessante e talvez perigosa, mas bem distante e em outra dimensão. Outros aviões de transporte enormes voavam à noite jogando comidas para nós em formas de rações militares (chamávamos de “lancheiras”).

O Magrelo ainda olhava para os caças no céu e me perguntou “o quão alto você acha que eles estão voando?”

“Qual o sentido da pergunta?” Eu disse.

Só pergunto”.

Eu fiquei olhando para ele de forma suspeita pois lembrei de um vizinho nosso que disse (Ok, ele estava completamente bêbado) que ele teve uma ideia brilhante para acabar com o cerco. Quando perguntamos para ele como, ele explicou que iria atirar nos aviões e que eles iam responder, explodindo tudo e que tudo ia acabar.

Uma das coisas mais estúpidas que eu já ouvi. Seria como atirar no cara que te traz sanduíche quando você está faminto, mas pessoas desesperadas falam muita porcaria.

Eu só estou pensando o quão engraçado e distante nós estamos daquele piloto lá. Ele olha para baixo e vê prédios e fumaça, um lugar de merda e quinze minutos depois ele está fora da área, indo para casa ou para qualquer lugar longe dessa bagunça. Você consegue imaginar o quão incrível deve ser poder estar longe daqui em quinze minutos?” Ele me perguntou.

Não, eu não tenho” Eu odiava discussões como essas, “e se” ou “imagine se nós…” ou “apenas se…”.

Nós estamos aqui e pronto. Eu aprendi e me treinei para viver e pensar somente no hoje e no máximo alguns dias a frente no futuro. Eu aprendi a não esperar por muito.

A esperança pode ser uma coisa nojenta quando se prova falsa.

No começo todos nós pensávamos “ah, isso é temporário” ou “alguém vai resolver” e muito rapidamente as pessoas viram que ninguém estava nem aí para a gente, que estávamos sozinhos. Depois dessa percepção algumas pessoas perderam contato com a realidade, alguns usaram suas habilidades, cérebros ou imaginação para sobreviver.

T estava sempre fazendo alguns projetos, tentando tornar as coisas mais fáceis, criar ferramentas para facilitar algumas coisas. Geralmente era tudo inútil. O Magrelo estava sonhando o tempo todo, sobre cenário do tipo “quando tudo isso irá chegar ao fim” e “e se”.

Eu aprendi a ficar no tempo presente. Cada um de nós tinha um mecanismo para lidar com essa nova realidade.

Mais tarde nesse mesmo dia um cara da vizinhança veio com a informação de que gás químico foi usado numa parte da cidade e rapidamente esquecemos a discussão sobre aviões e tudo mais.

E o projeto que T estava tentando fazer?

Sim, ele acabou conseguindo, fez uma espécie de triturador, mas muito mais tarde. A parte engraçada é que alguns dias depois dele terminar o cerco havia acabado e não havia mais necessidade de ter aquilo.

Talvez ele estava construindo o moedor tão devagar de propósito para mantê-lo são… Eu não sei.

Este foi apenas o relato de um dos meus dias no tempo de crise. As lições aqui são para que você continue sempre ocupado e que muitas vezes o que funciona para os outros não funciona para você.

Se você também experienciou situações difíceis assim, conte para nós nos comentários.

Traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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5 comentários

  • Meus relatos de sobrevivência em cenários de crise se passaram em manifestações violentas que passaram a acontecer em junho do ano passado aqui no Brasil,gás lacrimogênio,bombas de efeito moral,tiros de pistolas para o alto,muitas sirenes,agressões verbais,paus,pedras,barricadas e coquetéis molotovs voando,a cada dia que passava eu mergulhava cada vez mais fundo nos movimentos e a cada dia a coisa foi ficando mais louca.

  • Yoseph Makabi

    Selva, mosquito, calor, chuvas torrenciais e o inimigo à espreita. A operação era secreta, por isso não posso dizer onde foi nem o que foi. O “sapão” (helicóptero da FAB) que iria nos resgatar e suprir não apareceu no ponto combinado. A ração operacional acabou. Só restou a SOBREVIVÊNCIA, pura e simples. Quinze dias, no mato sem cachorro, perdidos e mal pagos. Eu sei o que é uma situação difícil. Comendo “coró” (larvas de insetos, os que ficam nos coquinhos da mata são deliciosos) e outras coisinhas mais delicadas. Com medo de ser surpreendido, capturado e morto. Lidando com colegas medrosos quase a ponto de ficarem loucos.Faca na boca e muita coragem. A regra é: NÃO ENTRE EM PÂNICO.
    SELVA!!!!

    • Paulo \Benin

      qual era a unidade?

  • Compreendo essa situação muito mais do que gostaria.
    Em situações críticas, de um certo momento adiante, você não enxerga mais objetivos e metas pois essas você já as reconhece fúteis e vazias, começa a apenas se preocupar com sua saúde mental.
    Viver dia após dia contando os minutos em uma situação estressante de sofrimento, violência e futuro incerto é algo realmente terrível que traz danos imediatos e futuros, seqüelas psicológicas- principalmente.
    Vivi uma situação assim por quatro anos e meio e não foi em uma guerra.
    Foi um emprego. Situação de guerra? Não: terrorismo.
    Podia ter mandado a tal empresa às favas bem antes mas o salário era razoável e empregos na minha antiga profissão estavam cada vez mais escassos – e tinha de lamber os beiços pois sabia que iriam ser quase inexistentes em pouco tempo mais.
    Todo dia acordar de algum pesadelo envolvendo aquela faina diária, fazer o mesmo caminho desagradável para o trabalho, encontrar as mesmas pessoas desagradáveis, os mesmos prepotentes arrogantes aproveitadores “se dando bem” às custas de algum outro infeliz também vítima da situação caótica de um país à deriva e de algum capitalista carniceiro do outro lado do mundo.
    O tempo disponível somente meu, eu gastava fazendo manutenção no carro, foi o período em que o veículo mais teve atenção, mas o benefício era conseguir manter minha mente algum tempo longe daquela situação de trabalho sufocante trivial. A grande diferença era que no final de um trabalho no carro, o resultado era agradável e proveitoso enquanto no emprego, a mesma situação estaria lá para ser novamente resolvida em um tempo curto com o mesmo sacrifício e dificuldades e gerando o mesmo resultado sem sentido.
    As pessoas do meu convívio social fora do tal emprego algumas se afastaram e as que ficaram, um certo dia, conversaram comigo me falando das mudanças em minha personalidade, das dificuldades de convivência.
    Parei para pensar: a profissão praticamente não existia mais ou estava à beira da extinção, a empresa estava trocando todos os funcionários por um contâiner lotado de 50% de sucata vinda da China, eu estava cada dia mais em idade de descarte, o salário provia algum conforto mas não alargava horizontes nem criava oportunidades.
    Quase seis anos longe daquela situação e problemas de saúde e reações de estresse nascidas naqueles anos persistem.
    Tal como o personagem que viveu o relato do post, quando o chefe me chamou na salinha para me comunicar a dispensa, ele sem saber, levantou o cerco.

    • Bem vindo ao clube

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