SHTF School: Tipos reais de sobrevivencialistas – Escravos e servos

Traficantes, prostitutas, ladrões, viciados, mendigos, pessoas de família, crentes… boas pessoas, más pessoas… nós costumamos chamar as pessoas por nomes para assim julgá-los e viver nossa vida de forma mais fácil.

A maioria do tempo nós julgamos os outros tão facilmente e formamos nossas opiniões sobre eles sem nem pensar muito. É fácil assim mesmo. Nós vemos alguém fazendo algo e achamos que é por que eles são assim. Nós geralmente não consideramos todas as coisas que fizeram eles agirem dessa forma.

Nós vemos algo, damos um nome e pronto. Algumas vezes existe muito mais por trás. Alguém que seja ruim pode ter tido más circunstancias na vida e ser daquela forma foi a única saída para aquela pessoa. Sim, o jeito deles pensarem pode ser “errado” … ou ele pode apenas estar sendo mal pois suas crianças estão com fome. As pessoas simplesmente julgam muito rápido.

Quando a crise começou era perigoso chamar as pessoas de nomes ou julgá-las rapidamente, isso poderia formar uma opinião errada, que geralmente causava muitas coisas ruins. Eu aprendi a não julgar ninguém rapidamente. O futuro amigo pode se comportar de forma horrível na primeira vez e o futuro inimigo pode ser muito legal com você hoje.

Eu queria dizer isso antes de escrever sobre o tipo de sobrevivencialista que escrevo hoje. Você encontra escravos e servos em cenários de crise prolongados pois eles seguem por um caminho muito diferente do “lutador feroz”… eles são sobrevivencialistas verdadeiros e fazem as coisas funcionarem.

Muitos combatentes solitários e muitos servos sofreram mas sobreviveram. Não, não é como nos filmes.

Havia uma mulher que era minha colega antes da crise que vivia com seu marido e duas crianças, ela tinha em torno de trinta anos, muito bacana e simpática. Ela era minha amiga e nós compartilhamos ótimos momentos no trabalho. Eu nunca ouvi nada ruim sobre ela. Eu conhecia seu marido e suas crianças…

Quando a crise começou, eu perdi contato com ela em todo aquele caos, para ser honesto, eu esqueci completamente dela, eu tinha coisas mais importantes para me preocupar.

Alguns meses depois em uma viagem onde quase morri saindo da cidade e indo para as montanhas para coletar coisas que precisávamos, eu tive a oportunidade de encontrá-la de novo.

Nós já tínhamos passado a parte mais perigosa da viagem, as minas, montanhas, florestas e gangues. Chegamos então em uma pequena porção do território controlada por uma das inúmeras milícias, presa a outras facções maiores.

Os caras não criaram problema algum  conosco, além de chegar quem nós éramos e onde estávamos indo.

Nós já tínhamos pagado a passagem para o “cara que conhece o cara” então tudo transcorreu tranquilamente. Nós descansamos um pouco em uma das cabanas e tomamos “chá quente” (na verdade a exata descrição seria: neve suja derretida com álcool).

Então eu vi ela, minha ex colega.

Se eu aprendi algo desde a crise era o fato de que você deve esconder seus sentimentos e linguagem corporal até descobrir o que está acontecendo à sua volta.

Então eu não disse nada para ela e agi como se não a conhecesse, mesmo que quisesse levantar e abraçá-la com força, perguntar sobre sua família e etc.

Ela colocou um pouco de arroz na mesa e mais álcool em frente a um membro da milícia. Ela era uma mulher num grupo de trinta homens, que estavam armados, cansados e muito perigosos. A maioria deles não conhecia nada de literatura, mas sabiam o suficiente sobre violência.

Ela não parecia com uma prisioneira e não parecia assustada ou com marcas de ferimentos. Ela também não me reconheceu ou não quis mostrar isso.

Cerca de meia hora depois um dos homens da milícia me ofereceu ela por um preço, explicando para mim que ela “era propriedade do líder, mas se alguém quisesse pagar ela poderia pertencer a qualquer um por meia hora”.

Agora se isso fosse um filme, provavelmente você esperaria que eu atirasse em todos e a salva-se, para que pudéssemos cavalgar rumo ao pôr do sol.

Mas não era um filme, e eu poderia matar apenas uns três deles antes de alguém explodir minha cabeça, pegar minhas botas e meu rifle. Mesmo que eu pudesse salvá-la, ela provavelmente diria que não gostaria de fugir.

Nós passamos por aquele pedaço de terra sem problemas e não a vimos novamente, nunca mais. E não, eu não paguei o preço e a comprei por meia hora, também nem tentei conversar com ela.

Mais tarde eu descobri a história inteira.

Quando a crise ocorreu as pessoas fizeram muitas coisas diferentes para sobreviver. Ela se tornou uma espécie de amante de um líder local e também prostituta desse grupo. Ela não era prisioneira, não obviamente, mas você deve entender que se ela deixasse o grupo ela e a família iriam perder proteção e não teriam mais suprimentos…. e as crianças precisavam comer.

Eu não sei o que o marido pensava de tudo isso (ele parecia bem fraco antes da crise), mas os rumores eram de que ele havia concordado com aquilo para poder sobreviver a tudo. Então eles ficaram dessa forma por alguns meses e sobreviveram. Então, isso é bom ou ruim? Não é nada. É sobrevivência. O marido é culpado? Não… por que eles sobreviveram. Se ele se tornasse um lutador ele poderia ter morrido e condenado sua família.

Isso não quer dizer que as pessoas devem deixar suas esposas se tornarem prostitutas (haviam prostitutos homens também). Cada um faz suas próprias decisões e depois você arca com elas. Novamente, eu não estou julgando ninguém.

Claro que quando a paz e a vida normal coltaram eles não conseguiram aguentar viver naquele local, mesmo depois de tudo. Então eles escolheram ir para outro pais. Eu ouvi que eles estavam vivendo em algum lugar na América do Sul com nomes diferentes.

Aqui vai um pouco mais de contexto do local onde vivia para vocês.

A prostituição aqui era algo diferente de outros países, e antes da crise você tinha de ser membro de uma classe muito rica da sociedade para conseguir entrar em contato com uma prostituta. Era ilegal e tradicionalmente muito “errado”.

Então, a prostituição era rara. Para conhecer uma prostituta era impossível. Para uma mulher de família normal virar prostituta, era algo inacreditável e quase impossível.

Quando a crise aconteceu muitas coisas mudaram. Haviam prostitutas em todo lugar, sem nem mencionar das mulheres que eram mantidas como “meio-escravas”. A posição delas nunca era a mesma, então algumas não era nada mais que escravas e outras eram tão poderosas quanto os líderes de gangues a qual pertenciam. Também haviam alguns homens que eram mascotes e servos de pessoas mais poderosas, mas este era o meio mais comum das mulheres para sobreviverem.

Nem todas mulheres eram prostitutas, claro, mas assim como homens elas escolheram como sobreviver. Algumas eram prostitutas, outras eram mais perigosas com um rifle do que muitos homens. A maioria escolhia ficar em casa com a família e cuidar das crianças. Não era como se elas precisassem fazer isso, era apenas o que fizeram porque era preciso fazê-lo, como a maioria das pessoas naquele tempo…

A mulher sobre quem falei era muito semelhante a um membro de gangue do que escrava. Eles não a forçavam à prostituição, na verdade ela pertencia ao líder do grupo, mas ela também se vendia por suprimentos, alguns ficavam para ela e para a família e o resto para os membros da gangue. Era a “troca”, enquanto outros homens arriscavam a vida, ela passou por cima de sua dignidade (não sei se esta é apalavra correta) e fez isso.

Ela tinha proteção e comida, sua família também tinha uma espécie de proteção com o grupo, também tinham comida e outras coisas.

Ela estava lá apenas para diversão do líder do grupo, algumas vezes para outros membros e clientes quando ela queria.

Eles sobreviveram, nós podemos agora julgá-los e falar o que cada um de nós faríamos na situação dela mas não devemos. Esta também pode ser uma lição para os tempos normais.

Eu trabalho na área de emergência e vejo diariamente pessoas vivendo nas fronteiras da sociedade normal, algumas vezes tão longe dos padrões sociais… como se morassem em um mundo muito cruel e escuro.

Não é que todos eles sejam ruins, mas algumas vezes na vida você deve fazer o que precisa fazer, mesmo que isso só faça sentido para você naquele momento. Não é uma desculpa, mas ajuda a lembrar que quando a sua existência está em perigo você poderá fazer coisas muito diferentes também.

Tenho certeza que apenas poucos (talvez pessoas muito abertas sexualmente) planejam seguir este caminho quando a crise ocorrer. Até agora, escrevi sobre três tipos de sobrevivencialistas. Qual é o seu papel? Qual é o papel que você planeja seguir?

Traduzido do blog SHTF School.

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7 comentários

  • A questão é que a maioria dos sobrevivencialistas são homens. E homens têm desejos sexuais quase incontroláveis. O preparo mental de um sobrevivencialista líder de um grupo deve ser forte o suficiente para que ele não se deixe levar por seu poder, por seus conhecimentos e habilidades, que o leve ao raciocínio de que pode ‘desfrutar’ de certos ‘confortos e privilégios’ proporcionado pelos mais fracos (geralmente mulheres e crianças). Num momento de crise, será que o mais importante é “cada um dá o que tem/pode” ou é “cada um dá o que o líder considerar mais adequado”? No caso, a dignidade de um ser humano pode ser item de troca? O problema não é da mulher que trocou sua dignidade, mas o que exigiram dela para a sobrevivência da sua família.

  • Um texto bom. Mas o meu ponto de vista é um pouco diferente: não vou julgar, cada um é responsável por suas escolhas, mas eu particularmente possui PRINCIPIOS, os principios que me determinam como EU! Eu posso me camuflar, engolir meu orgulho, usar de trapaça, vir até a matar em uma questão de sobrevivência, mas minha DIGNIDADE que está altamente ligada com meus PRINCÌPIOS, disso eu não abro mão. Por exemplo: algum homem aqui aceitaria ser a “mulher” de algum “líder” louco para garantir a sobrevivência?
    Existem limites para mim. Se eu for escolher o papel de escravo em uma situação de sobrevivência então para que me preparar? Para que treinar? Para que estudar a agreagar conhecimentos para essa situação?
    Eu sou do tipo que lutará até o fim, nem que este fim seja a morte.

  • Longe de querer julgar a personagem narrada, ela tinha filhos e isso sempre muda tudo. No meu caso, não abriria mão da dignidade para sobreviver. Eu abriria mão do meu orgulho, se muitas crenças e de muitas coisas que hoje nem sei numerar. Mas uma vez que abre-se mão da dignidade para sobreviver, é só o que vc fara para sempre: sobreviver. E a idéia, ao menos para mim, é estar preparado para sobreviver, mas sempre almejando VIVER. Tem uma citação do filósofo Mencius que diz ” I dislike death, however, there are some things I dislike more than death. Therefor, there times when I will not avoid danger”. É assim para mim.

  • Quando a mer*a tá feita, não podemos nos apegar a tradições e conceitos. Sobreviver é a ordem. É o que tem pra hoje! Sem julgamentos e condenamentos!

  • muito bom texto ,mas a verdade e que quando a crise vier a( bater na porta ). Deixaremos de lado muitos costumes e tradições que infelizmente não serão tão facil de aceitar . interessante estar preparado principalmente o psicológico….vlw julio,,,,

  • Sempre muito esclarecedoras as postagens do Selco. Obrigado, Julio.

  • eulerbrandao1969

    Parabéns Julio, mais um texto fantástico, julgar e fácil condenar mais ainda mas estar na pele do outro e muito diferente

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