2012….de novo, mais uma opinião.

Em uma postagem anterior, discuti aspectos do fenômeno “2012”, e suas implicações para a prática sobrevivencialista, inclusive quanto a eventual disseminação de boas práticas de vida ao ar livre, campismo, e desenvolvimento dessas habilidades. Veja aqui.

Hoje, lendo notícia no portal Terra, fui surpreendido por esta:

RS: prefeito orienta população a se preparar para ‘fim do mundo’
14 de março de 2012 • 13h54 • atualizado às 14h50
Décio Colla, prefeito de São Francisco de Paula, orienta a população a se proteger contra catástrofes previstas pelo calendário Maia

Direto de Porto Alegre, na cidade serrana de São Francisco de Paula (a 110 km de Porto Alegre), as previsões catastróficas da antiga civilização Maia sobre o fim do mundo em 2012 saíram do místico e entraram no gabinete da prefeitura depois que Décio Colla começou a orientar os moradores a estocar mantimentos e se preparar para o pior. O prefeito, que se diz estudioso de geofísica e astrofísica, não entende porque o Brasil não “presta atenção no que está acontecendo”.

“Por que os australianos, americanos e japoneses estão se preparando? Alguma coisa deve acontecer e não quero que o povo seja surpreendido. Quero que o Brasil acorde e preste atenção. Devemos garantir merendas para as escolas, medicamentos e outras coisas. Por isso, sempre aconselhamos que as pessoas se preparem”, afirmou o prefeito.

Décio Colla ressalta, porém, que nenhuma verba pública está sendo destinada pelo município para esse objetivo: “A minha obrigação é passar aos meus conterrâneos as informações que temos, e aí cada um decide e pensa o que deve fazer para cuidar da própria vida. Como cidadão, me sinto na obrigação de não guardar essas coisas para mim. Se fizeres uma pesquisa séria na internet, ficarás cheio de dúvidas e preocupações”.

Refúgio de boas energias
O prefeito explicou que São Francisco de Paula, por estar 900 m acima do nível do mar, é um excelente refúgio em caso de tsunamis, e relatou que algumas pessoas têm procurado a cidade para se proteger. “Estamos protegidos, de certa forma. Muitos nos procuram pelas boas energias que existem aqui”, disse Colla.

Além de prefeito da cidade, ele também é médico e trabalha em hospitais da região serrana do Rio Grande do Sul. “À medida que a Terra se aproxima do dia 21 de dezembro, uma série de coisas estranhas acontecem no sol e na lua. Então, algo não está bem. A natureza vem nos dando sinais que não estamos entendendo. Além disso, pessoas com mediunidade falam que já no 1º semestre podem acontecer coisas desagradáveis. Contra isso devemos nos preparar”, alertou.

De acordo com o calendário Maia, o dia 21 de dezembro de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125 anos e está ligado a desastres naturais. Alguns estudiosos afirmam que o encerramento do período pode significar o fim do mundo, com terremotos, tsunamis e enchentes em diversos locais da Terra.

Essa reportagem dá bem a medida da confusão cientifico-misticóide que envolve o tema 2012. E eu realmente espero que este prefeito não esteja gastando verbas públicas nessa sua visão do tema.

Nosso país tem sofrido já há muito com toda sorte de catastrofes climáticas, não porque algum maia ficou com preguiça de avançar mais de 3.000 anos seu calendário. Sofremos pela falta de preparação, pela ausência de uma política integrada de defesa civil, pela falta de equipamentos, ineficiência, corrupção.

Sob este prisma, a prática de estar preparado é de grande valia. Mas preparado adequadamente, com foco na boa técnica e em informações científicas confiáveis. Políticas públicas não podem ser definidas com base em fé e credo, mas com seriedade, tecnologia, responsabilidade e base científica. O dinheiro público via de regra é escasso, não pode ser gasto com base tão etérea como “boas energias” e mediunidade. Não quero aqui atacar a fé e crenças de quem aceita esse tipo de visão, mas sim o fato de políticas públicas serem eventualmente definidas com essa base pouco científica.

Embora louvável a iniciativa de pensar em preparar sua cidade, faria muito melhor o Sr. Prefeito se criasse ou melhorasse seu sistema de defesa civil, dotando-lhe de equipamentos, estoques de alimentos e capacidade de reação para qualquer tipo de calamidade, chuvas, deslizamentos, vento, falhas em sistemas de captação de água, falta de energia, mas sem alarmar a população com enredos de filmes.