Não tema a noite na mata!

Parece assustador, não?

Peço desculpas aos amigos, mas a postagens nesse fim de ano foram prejudicadas por excesso de trabalho e pelo tempo consumido por uma monografia. Assim, os reviews que queria fazer ficarão para o começo do ano.

Gostaria, porém, de aproveitar o pouco tempo para falar de algo que vi muitas vezes no mato: a apreensão, ou medo mesmo, dos novatos.

Todos já passamos por isso, em menor ou maior grau. Você, urbano, de repente se vê em meio à natureza. Ao menos nas propagandas, na literatura ou em alguns discursos politicamente corretos, ela é sua mãe, sua amiga, sua protetora. Na vida real, por uma razão ou outra, você se vê obrigado a passar uma noite, ou várias, dormindo em meio a uma densa mata, cheia de insetos e animais perigosos em maior ou menor grau, ouvindo ruídos estranhos e mesmo com fogo ou lanterna, o que é certamente sombrio.

Isso pode acontecer devido a várias situações  sobrevivencialistas. Seu deslocamento forçado, por qualquer razão, o leva a ter que deslocar-se para uma região de mata. Você está razoavelmente preparado, sabe se virar, monta um campo com algum conforto, tem suprimentos, mas a noite vem caindo.

Nesse momento, é normal que já comece a surgir alguma apreensão. Somos programados para temer a noite. Isso vem desde tempos imemoriais, quando nossos ancestrais protegiam-se como podiam durante a noite de toda sorte de perigos.

Se você não tem experiência, e principalmente se estiver só, pode ser um momento de grande pertubação. Para ajudar, só posso dizer algo: FIQUE CALMO! Se nada pode ser tão ruim que não possa piorar, a situação certamente não é tão ruim quanto você pensa.

Durante a noite, mato é assustador mesmo. Ruídos misteriosos, vultos, canto de aves noturnas. Falando em aves, uma de minhas preferidas, mais assustadora na minha opinião, é o Urutau, a famosaAve FantasmaSeu canto é lúgubre profundo. Veja neste vídeo disponibilizado no Youtube (crédito ao autor),seu aspecto e seu canto:

O que dá para dizer depois de tanto tempo de vida ao ar livre é que se existem riscos, são os óbvios e verdadeiros: animais e insetos peçonhentos, grandes mamíferos como onças, suçuaranas, catetos, eventuais marginais, caçadores ilegais, tempestades imprevistas…

 Muitos dos ruídos vêm de animais noturnos, insetos e árvores tocando-se com o vento. Sua mente, e seus olhos, lhe pregam peças. Assim, surgem vultos misteriosos e flashes. Já vi e ouvi diversas vezes coisas estranhas no campo, mas nada que não pudesse ser explicado com uma análise fria da situação, e pelo cansaço das atividades do dia. Tá, não vou garantir que você não vai encontrar a Bruxa de Blair pela frente um dia, mas que isso é altamente improvável, ah, isso é, pode ter certeza.

 O principal para aquele que se vê nessas situações é manter a calma. Monte seu campo adequadamente, protegido do vento e da chuva, limpe-o se possível, de forma equilibrada, evitando a presença de insetos e répteis indesejáveis. Se possível, faça um bom fogo, com o devido cuidado (veja como aqui). Lanternas de longa duração e lampiões dos mais variados também podem ajudar.

 Quanto aos demais riscos, em especial quanto a predadores de duas patas, se necessário nada que turnos de vigilância ou pequenas armadilhas com latas e galhos para disparar um conveniente alarme. Mas isso também é raro, muito raro.

 Falamos aqui de algo básico: enfrente seus medos. Lembro de um episódio em que subíamos o Anhangava, em Quatro Barras, perto de Curitiba. Conosco foi um amigo que nunca havia feito atividades desse tipo, o Tacão. Na descida, já ao fim do dia, dois garotos, irmãos de uma amiga que estava conosco, desviaram-se da trilha, em um descuido. Imediatamente voltamos a subir. Acontece que os tais garotos chegaram por outro caminho ao fim da trilha, encontraram sua irmã, e junto com alguns outros tomaram o ônibus….e foram embora!

 Nisso eu e mais dois amigos já estávamos no meio da subida! E, claro, ninguém foi nos avisar, do grupo mais experiente. Também, imagine que naquela época, uns 20 anos atrás, celular era coisa de ficção científica. Quase desistindo, já noite, e sendo impossível identificar rastros em uma região tão batida, voltamos ao ponto inicial. No meio do caminho encontramos o nosso amigo, que apesar de novato e nunca ter enfrentado até aquela época mata durante a noite, e tendo confessado certo medo, foi até uma casa, pediu uma vela e improvisou uma lanterna com uma vela e uma lata de massa de tomate vazia, e nos procurava para avisar que tudo estava resolvido. O curioso é que mesmo sendo o “novato” ele ficou, enquanto os outros….

 Confesso que poucas vezes vi tamanha coragem para enfrentar seus medos, e tentar ajudar os amigos. Um contraponto aos colegas que lá nos abandonaram lá (Nota.: O próximo ônibus demorou muito para chegar…). Não vou discutir se o que ele fez naquela ocasião é correto ou recomendável, mas vejo como um exemplo magnífico de como é possível enfrentar seus medos em plena noite, sozinho, na mata.

 E você, já passou a noite acampando em uma mata, sozinho? Como foi? Conte sua experiência!