Os 10 maiores perigos da época medieval… E será que eles podem voltar?

Se você se preocupa com as crises que podem acontecer no futuro e quais são os perigos que você poderá enfrentar, nada mais justo do que conhecer o que já aconteceu na história da humanidade quando não tínhamos eletricidade, medicina moderna e tecnologia. Por isso, hoje vamos conhecer quais eram os maiores perigos que pessoas enfrentavam durante a época medieval européia.

1. Praga

A praga foi uma das maiores assassinas em todas as fases da idade média – Seu efeito foi devastador na população européia, especialmente nos séculos 14 e 15. Também conhecida como a “Peste negra”, a praga (causada pela bactéria chamada Yernisia pestis) era carregada por pulgas e encontradas em grande parte nos ratos. Chegou na Europa em 1348 e milhares de pessoas morreram em toda a extensão territorial européia.

A praga chamada “Peste Bubônica” que enchia o corpo das vítimas com bolhas purulentas e dolorosas também fez estrago. As vítimas sofriam com suas peles se tornando escuras por conta das toxinas que se acumulavam na corrente sanguínea. Sua capacidade de contágio foi muito maior, visto que era transmitida por espirros, tosses ou qualquer mucosa.

Essas pragas inclusive foram combinadas em alguns períodos, mas em especial a Peste Negra eliminou 40% da população da Europa! Você consegue imaginar como é metade da sua cidade morrer em menos de 30 anos? Pois é, agora imagine o continente inteiro passar por esse índice. O estrago social, financeiro e humano é incompreensível para os padrões atuais.

Naturalmente a situação foi piorada pelo fato de que as pessoas não sabiam o que causava a praga ou como evitar pegá-la. Eles tentavam explicar os acontecimentos dizendo que era raiva divina, pecados da humanidade e semelhantes. A medicina era tão primitiva que se você fosse infectado pela peste, você tinha entre 70 a 80% de chances de morrer em menos de uma semana. Na Inglaterra, a cada 100 pessoas provavelmente entre 30 e 40 poderiam esperar morrer para a praga.

Como resultado dessa epidemia, a expectativa de vida no final do século 14 na Itália era menor do que 20 anos – metade do que havia sido no século anterior.

No mundo moderno é difícil imaginar uma situação semelhante, mas basta um vírus novo surgir, os antibióticos falharem e a contenção não acontecer e pronto, temos uma pandemia à solta. Se aconteceu antes, pode acontecer de novo.

2. Viagem

As pessoas da época medieval encontravam vários riscos quando estavam viajando.

Um lugar seguro e limpo para dormir era algo difícil de encontrar. Os viajantes geralmente só tinham como opção dormir a céu aberto – quando viajavam durante o inverno ainda havia o risco de congelar até a morte!

Não havia onde comprar comida ou bebida a não ser que o viajante encontrasse uma taverna, monastério ou hospedagem. O risco de intoxicação alimentar era muito grande pela baixa higiene, mas era ou isso ou ser forçado a caçar e até mesmo roubar para não morrer de fome.

Os viajantes poderiam também serem pegos em disputas regionais e guerras, onde geralmente eram mortos ou tomados como escravos. A falta de conhecimento em línguas estrangeiras também poderia piorar ainda mais os conflitos.

A doença estava sempre à espreita, muitas vezes sendo fatal. Se alguém ficasse doente no caminho não havia garantia nenhuma de que um tratamento decente – ou qualquer tratamento – fosse possível.

Os viajantes poderiam também ser vítimas de um acidente. Por exemplo, havia riscos de se afogar quando atravessando rios – até mesmo o Imperador Romano Frederico I morreu afogado em 1190 enquanto cruzava o rio Saleph.

Apesar de arriscado, viajar pela terra ainda era bem mais seguro do que pegar um barco. Uma tempestade poderia significar a morte! A navegação falharia e os barcos de madeira eram bastante frágeis em mares bravios.

A vantagem, é claro, é que a viagem era bem mais rápida. Durante esse período uma viagem a cavalo cobria em média 30km por dia, enquanto os navios conseguiam fazer até 150km dependendo das condições.

Nos tempos atuais viajar é bastante confortável, e são raras as situações onde você precisará ir para lugares sem infraestrutura… Mas em situações de emergência todos os riscos acima – e até mesmo a distância que você conseguirá fazer por dia – serão semelhantes.

3. Fome

A fome era um perigo bastante real para os homens e mulheres medievais. Quando sofrendo por colheitas fracas, as pessoas ficavam famintas e sobreviviam com rações miseráveis do que pudessem encontrar.

Os que não conseguiam o mínimo começavam a sofrer de desnutrição, e se tornavam vulneráveis a doenças. Se eles não morressem de fome, geralmente morriam com as epidemias que vinham logo após os períodos de grande miséria. Doenças como tuberculose, catapora, disenteria, febre tifóide e outras causavam enormes baixas.

A “Grande fome” do começo do século 14 foi particularmente ruim: O clima mudou para temperaturas muito mais frias do que a média, algo como uma “pequena idade do gelo”. Em sete anos, entre 1315 e 1322, a Europa ocidental testemunhou chuvas constantes, algumas de quase 150 dias consecutivos.

Os fazendeiros lutava para plantar, cultivar e colher. O resultado ainda assim era muito pobre, e a comida acabava ficando muito cara. O pão, base da alimentação da época, quase deixou de existir. Essa falta de comida e chuva, somada a um inverno brutal, causou a morte de aproximadamente 10% da população da Inglaterra neste período.

Hoje há a falsa sensação de que temos comida de forma quase que mágica, afinal, os mercados estão sempre cheios! Mas, apesar da tecnologia, se tivermos períodos de mudanças climáticas tão severas como as relatadas possivelmente a fome se tornaria uma ameaça até nos países mais desenvolvidos.

4. Parto

Hoje com os benefícios da ultrassom, anestesias e monitoramento fetal o risco para mãe e bebê durante a gestação é incrivelmente baixo. Contudo, durante o período medieval, dar a luz era algo incrivelmente perigoso.

Posicionamentos não corretos do bebê dentro da barriga geralmente significavam altíssimas chances do parto ser fatal para ambos, mãe e filho. O trabalho de parto podia durar por vários dias, e algumas mulheres inclusive morriam por exaustão. Na época já se conhecia a possibilidade do método cesárea, mas eles era incomuns e eram mais usados quando a mãe já havia falecido e nem sempre eram bem sucedidas.

As parteiras eram quem atendiam as mulheres grávidas. Elas ajudavam a futura mãe durante o parto e também podiam realizar batismos de emergência se o bebê estivesse sob morte iminente. A maioria nunca teve treinamento formal, confiando na experiência de partos anteriores.

As novas mães poderiam até sobreviver ao parto, mas poderiam morrer de várias infecções pós-natais e também complicações. O equipamento era muito básico e a intervenção manual era comum.

Apesar de hoje termos conhecimento amplo sobre a importância da esterilização e de medicamentos para evitar infecções, em crises sérias (especialmente as financeiras) os hospitais poderão ficar completamente fora de alcance, fazendo com que várias gestantes tenham que dar à luz em situações perigosas e sem estrutura.

5. Infância

A infância era particularmente perigosa durante a Época Medieval – a mortalidade era altíssima. Baseando-se em escritas históricas, a estimativa era que 20 a 30% das crianças abaixo de 7 anos de idade morriam, mas especialistas acreditam que esses valores eram com certeza muito maiores.

Esses números eram altos pois os mais jovens eram particularmente vulneráveis aos efeitos da desnutrição, doenças e infecções. Inclusive, a maioria dos afetados pelas pragas que citamos acima eram menores de 7 anos de idade.

Contudo não ache que eram só os pobres que morriam. Ser nascido em família rica não garantia uma vida longa! Por exemplo, sabemos que as famílias mais prósperas da Inglaterra entre os anos de 1330 e 1479 perdiam um terço de suas crianças antes dos 6 anos de idade.

Hoje, perder um filho é algo catastrófico, e infelizmente quando ocorre destrói famílias por completo. Por essas e outras, proteja seus filhos! Endureça-os para que se um dia voltarmos a situações tão precárias como essas eles não façam parte da estatística.

6. Tempo ruim

A vasta maioria da população medieval era rural em vez de urbana, e o clima era de importância máxima para todos que dependiam da terra. Se o tempo ficasse ruim, a morte era certa.

Tempos consistentemente ruins poderiam gerar problemas para semear e para cultivar nas fazendas, levando à falha na produção. Se os verões fossem molhados e gelados, os grãos seriam destruídos.

Se a temporada fosse ruim muitos problemas podiam acontecer, incluindo falta de alimentos, pessoas comendo comida de baixa qualidade, inflação, fome, doença e maiores índices de mortalidade.

Esse foi especialmente o caso entre os séculos 14 até 16, onde as geleiras se expandiram. Até 1550 houve um aumento marcante do gelo nos polos, o que causou uma grande mudança nas dinâmicas do clima – tudo ficou mais frio e molhado.

Não é a toa que os europeus dessa época viviam ansiosos para manter o clima favorável. Haviam rituais para arar a terra, semear e colher, inclusive orações, superstições e peregrinações para garantir a prosperidade das colheiras.

As pessoas também não acreditavam que o clima era uma ocorrência natural. Tempos ruins poderiam ser a causa de pessoas malevolentes ou atos ruins como assassinato, pecado, incesto e semelhantes. Também era ligado a bruxas e feiticeiras, que supostamente tinham o poder de controlar o tempo e destruir colheitas.

Nós aqui no Brasil somos bastante afortunados com o clima mais ameno, mas ainda assim nossas produções alimentares dependem de condições adequadas para prosperar. Com a possibilidade de mudanças climáticas cada vez mais intensas, o clima pode virar nosso maior inimigo em breve.

7. Violência

Seja como testemunha, vítimas ou criminosos, pessoas de todos os níveis e hierarquias sociais viviam a violência como um perigo onipresente na vida diária.

A violência medieval tinha várias formas. As violências na rua e em tavernas não eram incomuns. Vassalos podiam se rebelar contra seus Senhores, assim como centros urbanos poderiam ter revoltas – por exemplo a duradoura rebelião dos camponeses em Flanders que aconteceu de 1323 – 28.

Os registros medievais também demonstram que outros tipos de violência como estupro, assalto e assassinato não eram nem de longe incomuns.

As brigas de sangue entre famílias que duravam gerações também eram bastante evidentes, assim como o que hoje nós conhecemos como violência doméstica. Disputas regionais por terra, dinheiro ou outros problemas levavam também ao derramamento de sangue, assim como a própria justiça o fazia.

A guerra também era onipresente, desde disputas regionais até grandes guerras como as cruzadas do no final do século 11. A quantidade de baixas em uma batalha poderia ser enorme: A maior, chamada de “A guerra das Rosas”, ceifou entre 9 e 30 mil vidas de acordo com relatos históricos.

8. Heresia

Também era perigoso discordar. Pessoas que tinham crenças ou religiões que eram vistas como opostas à igreja católica eram rotuladas como hereges na Europa medieval. Esses grupos incluíam judeus e muçulmanos.

Reis, missionários, mercantes e outros – especialmente no final do século 11 – lutavam para garantir a vitória do Cristianismo no mundo Mediterrâneo. A Primeira Cruzada (1096 – 99) tinha como objetivo capturar Jerusalém – e finalmente conseguiu em 1099. Contudo a cidade foi em breve perdida e novas cruzadas foram lançadas para reconquistá-la.

Judeus e muçulmanos também sofreram perseguições, expulsões e morte na Europa cristão. Na Inglaterra, o anti-semitismo resultou em massacres de judeus em York e Londres no final do século 12, e Edward I baniu todos judeus da Inglaterra em 1290 – eles só foram autorizados a retornar na metade de 1600s.

As “Guerras Sagradas” também pegavam pesado especialmente em que os cristãos diziam ser hereges. Enfim, era um tempo complicado para pensar e acreditar em coisas diferentes.

Atualmente vivemos em uma fase de liberdade de crenças muito grande nos países desenvolvidos, mas constantemente temos de tomar cuidado com imposições de visões de outros que querem ganhar poder. Apesar da modernidade, países podem rapidamente começar a perseguir grupos específicos se criarem argumentos fortes para isso, e em crises sociais você pode ser um dos alvos.

9. Caça

Caça era um importante passatempo para a realeza medieval e a aristocracia, ter habilidades no esporte era algo que trazia muito renome. O imperador Carlos Magno foi um grande admirador da caça no começo do século 19, e na Inglaterra William o conquistador criou “florestas reais” onde ele poderia curtir seu amor pela caça. Mas é claro, caçar tinha seus riscos.

Os caçadores poderiam facilmente se machucar ou até mesmo morrerem em acidentes. Podiam cair de seus cavalos, levar uma flechada, serem chifrados pelos alces ou atacados pelos ursos.

Ser importante e ter status não lhe conferia garantia nenhuma. Existem vários exemplos de reis e nobres que encontraram um fim trágico durante caçadas. O Imperador bizantino Bazil morreu em 886 depois de aparentemente ter sua cintura empalada por um cervo e ser arrastado por mais de 15 quilômetros antes de conseguir ser libertado.

Em 1100, o Rei William II foi morto por uma flecha em um acidente de caça em New Forest. Assim como ele, em 1143, o Rei Fulk de Jerusalem morreu quando seu cavalo tropeçou e ele foi esmagado na queda.

Hoje a caça é até mesmo mal vista pela sociedade atual, que parece achar que as carnes que consomem diariamente vêm de árvores e não do sofrimento animal. Contudo se esta cadeia de produção falhar, você só terá carne se for capaz de caçar e, sendo inexperiente, enfrentará riscos ainda maiores do que os relatados.

10. Morte prematura ou repentina

As mortes dessa natureza eram bastante comuns no período medieval. A maioria das pessoas morriam jovens, mas a forma como isso acontecia variava por conta de fatores como status, riqueza, localização e gênero. Os adultos morriam de várias causas incluindo praga, tuberculose, desnutrição, guerra e infecções.

Riqueza não era garantia de uma vida longa. Surpreendentemente padres bem alimentados nem sempre viviam mais do que camponeses. A média esperada para os camponeses que serviam em casas de ricos era de até 50 anos, enquanto seus senhores tinham a média de 40 anos. Aqueles que tinham um status social baixo e viviam em abrigos rurais tinham a média de apenas 30 anos.

Na segunda metade do século 14 os camponeses estavam vivendo entre 5 e 7 anos mais do que nos últimos 50 anos. Mesmo assim, a média da expectativa de vida para famílias na Inglaterra entre 1330 e 1479 era de geralmente 24 anos para homens e 33 para mulheres. Na Itália, em 1420 a expectativa era de 28.5 anos para homens e 29.5 para mulheres.

Ter uma “boa” morte era muito importante para as pessoas da época, e era um assunto de muitos livros. As pessoas estavam sempre preocupadas com mortes repentinas (sejam em batalhas, causas naturais ou acidentes) e o que poderia acontecer com aqueles que morressem sem tempo de receberem suas extremas unções. Haviam “encantamentos” que ajudavam a trazer proteção contra esse tipo de morte e era algo muito popular na época.

Vale lembrar que o conhecimento da medicina na época era muito básico, e doenças crônicas que hoje são detectadas e tratadas simplesmente evoluíam sem controle nas pessoas. Apesar de termos muito conhecimento hoje, será que você não teria a mesma dificuldade de diagnosticar um problema se não tivesse acesso a médicos? Pois é, em situações de crise rapidamente podemos perder por completo o conhecimento médico e nos vermos retomando tratamentos paliativos e superstições para tentar manter a saúde dos afetados.

Texto traduzido e adaptado do site History Extra.