ONDE NOS PERDEMOS?

Em 1976, quando eu tinha 8 anos de idade, meu avô sofreu um infarto e teve que fazer uma operação de ponte de safena, a peito aberto. Como naquela época esse tipo de cirurgia não se fazia no Brasil, ele e minha avó embarcaram para Houston no Texas onde ele foi operado. Quando se recuperou da cirurgia, não lembro quanto tempo depois, meu avô voltou num vôo da Varig para o Rio de Janeiro. E na cintura, literalmente, ele trouxe um revólver Colt Snub calibre 38 SPL. Vocês leram corretamente, em 1976 meu avô embarcou num vôo da Varig de Houston ao Rio de Janeiro com um revólver carregado na cintura. Aliás, foi com esse mesmíssimo revólver que meu tio me ensinou a atirar em 1980, quando eu tinha 12 anos.

Salto no tempo para 1993, ainda no Rio de Janeiro. Eu trabalhava numa agência publicidade chamada McCann-Erickson. Era um reles executivo de contas mas como tinha mais de 21 anos, contra cheque e ganhava o suficiente, resolvi comprar minha primeira arma de fogo, uma Taurus PT 380, que havia sido lançada a pouco tempo. Meu trabalho ficava no centro do Rio e ali perto havia uma loja de armas chamada Casa Nioac. Na hora do almoço caminhei até lá, munido de comprovante de domicilio, cópia do contra cheque e cópia da identidade e CPF (acho que era só isso que pediam) e comprei a pistola. O vendedor disse que a entrega da arma demoraria 15 dias (uma eternidade naquela época) pois deveria passar pela aprovação do DFAE (acho que a sigla era essa, mas de qualquer forma a pronúncia era assim). Mas, se eu quisesse poderia pagar uma “taxa de urgência” e ter a arma em tres dias. E foi o que fiz. Três dias depois na hora do almoço passei na Nioac e voltei para a agência com a minha Taurus PT 380 debaixo do braço. E mais, cheguei lá, abri a embalagem e mostrei para todo mundo, como se tivesse comprado uma camisa nova ou um iPad novo. Coisa mais natural. E a compra de armas seguiu adiante, adquiri as seis que a lei permitia e depois tirei uma licença de colecionador e comprei outras 18 armas, entre elas uma Luger, uma pistola Mauser e um fuzil Garand M1 (com a baioneta e munição) tudo dentro da lei, com registro e sem NENHUM problema!

Mais um salto no tempo, para 2016. De mudança da Cidade do México para Copenhagen, na Dinamarca. Estou eu embalando meus equipamentos de camping, bushcraft, sobrevivência quando o sujeito da companhia de mudanças, um Francês, olha para as minhas facas (eu tinha umas 15, entre elas as Becker BK7, BK2, Cold Steel SRK, Trail Master, etc…) e diz que facas com mais de 5 polegadas estavam proibidas na Dinamarca (não se podia nem te-las em casa) assim como todos os canivetes de abertura com uma mão e trava! Se eles encontrassem isso na minha mudança iriam bloquear a mudança inteira por meses para averiguação!!!! Tive que me desfazer, muito a contra gosto, da maioria das minhas facas ficando apenas com as de bushcraft com menos de 5 polegadas. E com os canivetes suíços sem trava. Os Leatherman que eu tinha, eu desmontei e tirei as lâminas que levei a parte na minha bagagem. 

Mais um salto no tempo para esse mês de julho de 2019. Me mudei da Dinamarca para a Espanha. Eu e minha família estamos indo de férias para a região de Valencia passar o verão, de onde escrevo essas linhas. Como aqui tem muitos locais interessantes para hiking, estou levando minha mochila de hiking onde está uma faca de bushcraft (uma Blind Horse de 4 polegadas). Estamos na estação de trem de Madri e vejo que para se ter acesso a plataforma de onde sai o trem temos que passar toda a bagagem pelo raio-x, como nos aeroportos. Pergunto a um guarda se posso embarcar com canivete suíço (sempre tenho um no bolso) ele diz que pode. E faca? Pergunto eu. Pediu para ver. Mostro a faca e o policial me diz que não, que era considerado uma arma! Ou seja, acabou que minha esposa ligou para uma amiga que morava ali perto, que passou na estação de trem e guardou a minha faca com ela até voltarmos. Do contrario teria sido apreendida! 

Bom eu escrevi essa história toda, primeiro como desabafo e segundo porque fiquei com a pergunta: Onde é que nós, como sociedade, nos perdemos? No meu tempo de vida, e nem me considero velho, era possível um cidadão embarcar num vôo internacional armado e hoje nem com uma faca de bushcraft se pode embarcar num trem! Será que em pouco mais de 40 anos nos tornamos totalmente selvagens a ponto de a menor provocação nos matarmos uns aos outros? Se é isso a civilização vai muito mal porque nem na Idade Média era assim. Não me digam que é por conta de ameaças terroristas, porque nos anos 70 haviam vários grupos ativos como Brigadas Vermelhas, Baader-Mainhof, ETA, IRA, OLP e Setembro Negro para citar alguns e era moda o sequestro de aviões. Inclusive um dos mais perigosos terroristas de todos os tempos, Carlos o Chacal, era daquela época. Mas o que eu notei de diferente de lá para cá foi a chegada ao poder de partidos de esquerda (socialistas, social-democratas, Bolivarianos, etc) e o crescimento do estado. E estado grande significa menos liberdade individual. 

Fica além do desabafo um pouco de como era a vida antes do PSDB e da era Lulo-Petista.

Como recomendação de leitura fica:

  • Mentiram para Mim sobre o Desarmamento do Bene Barbosa
  • On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society do Tenente Coronel Dave Grossman (só em inglês, infelizmente).

Carlos Cabral de Menezes