Sobrevivencialismo e liberdade

É, chegou mais um daqueles momentos onde precisamos começar a conversar sobre política. Antes que você fuja ou comente “volte com as instruções de selva” peço que insista na leitura para pensarmos juntos sobre esse tema tão complicado.

Vamos direto ao que interessa: Será que para ser sobrevivencialista é necessário ter visões políticas semelhantes? Essa é a dúvida que jogo na mesa hoje, e, para tentar pensar sobre ela, vou colocar a minha percepção sobre o assunto e espero que você me diga se estou olhando para o rumo certo ou estou completamente equivocado.

Qual a essência do sobrevivencialismo?

O sobrevivencialismo tem um norte, uma missão principal. Muitos acreditam que ser um sobrevivencialista é ter um kit de sobrevivência ou saber acampar, mas quando começamos a ir mais à fundo entendemos que existe muito mais que isso. De maneira geral, todos as evidências apontam que os adeptos a esta visão buscam ampliar suas capacidades de sobreviver, não é? E para tal, estudamos diversas técnicas, formas de pensar e estratégias diferentes que englobam desde ambientes selvagens a cenários urbanos.

Partindo desse ponto, é seguro afirmar que o sobrevivencialismo empodera o indivíduo, não acha? Isso porque com conhecimentos técnicos e diferentes treinos um sobrevivencialista pode ser mais dono de si no que tange a cuidar de sua própria vida. Isso vai desde aprender a desentupir uma privada até a fazer um abrigo primitivo no meio da selva.

De maneira geral, ser um sobrevivencialista é fazer o máximo para assumir o controle de coisas que geralmente estão sob poder de outros, coisas como produção de comida, defesa da sua vida, geração de energia e mais. Logo, a partir dessa visão, voltamos ao lema que tanto repetimos por aqui:

O sobrevivencialismo visa tornar você mais responsável por sua própria vida.

Considerando que nosso objetivo é de dar mais poder ao indivíduo, é natural entender que desejemos cada vez menos a intervenção de forças externas em nossa vida, sejam pessoas ou instituições. Vamos conversar sobre isso agora.

Liberdade X Instituições

Compreendo que a visão de liberdade é completamente subjetiva e na maioria das vezes atinge o nível de utopia, mas vamos tentar brincar com este conceito aqui. Para você, o que é ser livre? Para mim, é ser capaz de tomar as decisões que eu quiser quando estas estejam ligadas às minhas posses – corpo, pertences e propriedades.

Entenda que não estou apelando aqui defendendo que qualquer um pode fazer o que quiser, pois sou um grande defensor de que a minha liberdade termina onde a do outro começa e que respeito é bom e conserva os dentes. Na minha visão é estúpido construir uma ideologia que não respeita o padrão de comportamento do ser humano, por isso creio que seja sim necessário algum tipo de regulação na conduta humana para que ela não descambe completamente, mas infelizmente as instituições (Estado) não tem se mostrado eficientes no processo – basta olhar o passado.

A regra parece se estender por diversos cenários da história humana: quanto maior a presença do estado, menor a liberdade do indivíduo. Basta olhar para a história do último século e exemplos não faltarão de que quando confiamos o poder das decisões a uma instituição que se intitula acima de nós, ela tende a abusar do poder concedido e escravizar aqueles que a colocaram neste pedestal.

Vamos às evidências que temos no Brasil, um país que foi gerido por um Estado cada vez mais inchado nas últimas décadas:

  • Você não é dono de sua casa: O conceito de propriedade privada não existe de maneira “preto no branco”. Toda propriedade em terreno nacional precisa cumprir uma “função social”, esta não descrita em local algum e logo dando brecha para que seja definida de forma discricionária pelos governantes. O termo correto para quem tem terras no Brasil não é proprietário, e sim “fiduciário”, ou seja, uma espécie de arrendamento da terra que sempre pertencerá ao Estado;
  • Você não pode defender sua vida ou posses: Apesar de haver mecanismos de legítima defesa para garantir que você não seja preso caso reaja a um assalto ou invasão domiciliar, a legislação é tão pouco realista e dá tanta margem para discricionariedade que na prática, reagir contra um criminoso vai lhe colocar na cadeia ou no mínimo lhe garantir um processo judicial cheio de dores de cabeça;
  • Você não pode produzir sua própria comida: Se você mora na cidade, alguns tipos de criações de animais não são permitidos (galinhas, por exemplo). Mais que isso, mesmo que em uma fazenda você não pode abater animais e preparar um churrasco para sua família pois a ANVISA exige que você possua instalações adequadas e devidamente certificadas para realizar o abate;
  • Você não é dono dos seus filhos: Pois é. Se você por alguma razão não seguir as premissas consideradas importantes pelo Estado ele pode tomar seu filho de você. Hoje isso só acontece em situações extremas de abuso e semelhantes, porém bastam algumas pequenas alterações de leis causadas por interesses maiores e pronto, tudo pode descambar. Porteira que passa um boi, passa boiada;
  • Você é obrigado a pagar tributos para continuar aqui: Não quero entrar em afirmações extremistas, mas sejamos honestos… Você paga impostos de todas as formas possíveis, seja em cima do que você compra ou do que vende. Você não tem como escolher onde o Estado investirá SEU dinheiro e se decidir não pagar, perderá tudo o que tem, talvez até mesmo irá para a cadeia.

Bom, chega. Hora de partir para a próxima parte desse papo.

Hora das dúvidas

Depois dessas pequenas reflexões acho que estamos prontos para as perguntas que têm permeado minha mente quando falamos de sobrevivencialistas brasileiros. Preciso enfatizar aqui que tudo o que escrevi deve ser contestado e questionado! Talvez minha visão esteja deturpada ou minhas informações não estejam certas, por isso a sua opinião e conhecimentos podem me ajudar a colocar a cabeça nos trilhos. Dito isso, vamos lá:

  1. Visto que visamos a liberdade de defender nossas casas e famílias, de produzir nossos recursos e incutir os valores que nós acreditamos ser válidos em nossos filhos, como podem existir sobrevivencialistas que defendem que o Estado deve estar presente e ser cada vez mais responsável pela nossa vida?
  2. Considerando que o sobrevivencialismo visa tornar você mais responsável pela sua vida, isso inclui assumir o desafio de cuidar da suas posses e defender sua família de invasões agressivas. Então como podemos ter sobrevivencialistas que se posicionam como desarmamentistas?
  3. A não existência de um Estado é praticamente impossível em termos realistas, então qual seria a visão política mais adequada para um sobrevivencialista?
  4. Para finalizar, concorda com minha visão do que é o sobrevivencialismo? Acredita que há equívocos?

Enfim, do ponto de vista social quanto mais fortes os indivíduos de uma sociedade, mais forte esta sociedade se torna – ao menos na minha visão. Logo, me pergunto por que alguns pensam o contrário e ainda assim se denominam como sobrevivencialistas.

Espero que este assunto possa render vários comentários aqui abaixo, está na hora de amadurecermos nossa conversa para além de fogueiras e barracas. Não viso agredir ou ofender ninguém com este texto, apenas gerar debate! Conto com sua participação e posicionamento educado, comentários ofensivos serão deletados.

Até.