SHTF School: E o ciclo continua?

Eu escrevi meu primeiro artigo de sobrevivência há 7 anos atrás e ainda lembro que a motivação para isso foi que as pessoas que fazem parte desse mundo pudessem ler minha opinião.

Eu estava acompanhando fóruns de preparação para aprender sobre sobrevivência em selva pois era uma área que não tinha muita habilidade, mas de repente encontrei uma discussão de como uma crise real se parece e como ela acontecerá no futuro. Foi nesse momento eu percebi o quanto as fundações do movimento sobrevivencialista estavam bagunçadas ou construídas em uma percepção errada.

É como estar no meio de muitas pessoas com boas habilidades e opiniões mas com tudo isso sendo direcionado para o lugar errado.

Depois de escrever meu primeiro artigo eu continuo meu trabalho tentando pontuar minha visão sobre as coisas e as aprendizagens que tive depois de viver quatro anos em uma guerra civil, no meio de uma sociedade destruída.

Eu ainda não sei muita coisa. Não sei como operar vinte armas diferentes, não sou membro de forças especiais, não sei como sobreviver por tempos longos no mato e ainda estou aprendendo muito com outras pessoas na internet e em cursos presenciais. Mas eu sei como sobrevivi à crise e como ela realmente se parece… E o problema é muitos preparadores acham que ela acontecerá de forma completamente diferente.

Com o tempo, muitos dos meus artigos começaram a contar pequenas histórias sobre as mesmas coisas e de formas diferentes, podendo até parecer que estou falando sobre a mesma coisa o tempo todo, mas enfatizo que estou escrevendo com base em experiência real e tenho boas razões em mostrar as mesmas coisas com frequência.

Então por favor, deixe-me abordar os erros mais comuns sobre um cenário de crise.

Mudando de “Antes para agora”

O primeiro problema sobre um cenário de crise é que as pessoas tem dificuldade em imaginar algo que não viveram. Se você não viveu na pele o colapso da sociedade você vai “construir” sua opinião baseada em muitas coisas: experiências alheias, livros, filmes, documentários…

Quando você adiciona isso a industria de sobrevivência que fica vendendo coisas para “o dia do juízo” você vai terminar formando sua opinião baseado em coisas estranhas e não reais e, por isso, sua preparação poderá estar completamente errada.

Por exemplo, você foi bombardeado de propaganda dizendo que se comprar X produto não só ficará seguro em uma crise como também poderá prosperar no meio do desastre, como se por conta dele você fosse garantir o melhor momento da sua vida no meio da crise.

Agora quando multiplicamos esse cenário com muitos produtos você acaba tentando comprar sua paz enquanto alguém ganha dinheiro vendendo medo.

Este não é o grande problema. O problema real é acordar uma manhã no meio de uma crise real e perceber que você tem um monte de tralhas que não servem para a situação em que você está.

Eu gosto de usar o exemplo que li há algum tempo atrás sobre transporte em uma cidade em situação de guerra. Um cara tinha a ideia de usar um skate como transporte e muitos outros comentando que poderia ser uma boa ideia. Em um primeiro olhar pode até parecer assim… Sem gasolina, sem carros ou ônibus… É, um Skate pode ser uma ideia boa.

O único problema é que o cara que teve a ideia nunca experienciou um cenário real e não tema  menor noção do quão inútil é a ideia dele. Vamos resumir:

Quando uma crise acontece os serviços de infraestrutura param de funcionar e então as ruas ficam cheias de praticamente tudo. Existem outras pessoas andando na rua pois não há recursos para todos e qualquer um poderá representar perigo… Então andar com um skate barulhento é a última coisa que você quer fazer.

Você precisa parar de pensar dentro da visão dos tempos atuais, quando uma crise acontece tudo muda, é uma realidade diferente.

Por exemplo, mover-se rapidamente (ou confortavelmente) não será mais sua prioridade. Você precisará se mover da forma mais segura (e silenciosa), sem se preocupar com o que parece mais “legal” e procurar recursos que funcionem para o cenário específico em que você está.

Valor das coisas

Pense em novos termos, pois tudo será bem diferente dos tempos normais. Eu tenho uma filosofia de sobrevivência onde meu objetivo é estar pronto para sobreviver com o mínimo possível.

O que isso significa?

Desenvolvendo habilidades e técnicas eu posso depender menos de coisas físicas. Na realidade não significa que se uma crise acontecer eu imediatamente vou fugir para o mato apenas com minha faca, não, eu tenho que preparar as coisas, organizar armas, medicamentos e etc.

Isso tudo significa que quando o tempo chegar eu ESTAREI PRONTO para deixar TUDO – todas minhas posses, e me mover em rapidamente para um local que possa me manter seguro.

Você está pronto para isso?

Você estará preparado para deixar todas as preparações que tem comprado por anos, todas suas armas bonitas, caixas de alimentos e correr apenas com o que você tem no corpo? Ou vai morrer em uma “luta de glória” defendendo coisas físicas?

Sobrevivência se trata de resiliência, seguir em frente, superar situações difíceis e reconstruir tudo.

Não fique preso em posses físicas, não importa o quão caras elas sejam ou mesmo que elas tenham a promessa de que vão te salvar em uma crise. A vida é preciosa, coisas são apenas coisas.

O problema é que os movimentos de sobrevivência de hoje são construídos de uma forma que os preparadores são “forçados” a acreditar que não podem sobreviver se não tiverem aquele produto salvador de vidas. Como resultado, haverão muitos preparadores morrendo porque vão defender coisas materiais que alguém disse a eles que eram imprescindíveis para sobrevivência em uma crise.

Eu fui um refugiado mais de uma vez e ainda me lembro o momento onde tudo o que eu tinha na vida era uma pistola Browning velha com três munições, uma camisera, botas e calças que estavam absurdamente sujas…

Eu havia perdido todas minhas outras posses físicas, tudo havia sido queimado ou levado e se eu ficasse com elas minha vida seria levada de forma muito dolorosa. Eu corri, sobrevivi e lutei novamente.

E sabe de uma coisa? Eu comprei tudo de novo depois. As coisas podem ser compradas, a vida não. Algumas vezes você precisa seguir em frente e esquecer tudo aquilo que você tinha e que tinha valor para você.

Um dos tópicos que eu tenho relutância em discutir é fé pois acho que é algo muito pessoal, mas como é um algo importante preciso pontuar algumas considerações. Eu serei breve pois é algo pessoal e cada um deve ter suas próprias conclusões.

Sim, havia momentos onde eu tinha que encontrar algo no fundo da minha existência e me conectar com algo superior para encontrar algum sentido, para ter fé que não ia enlouquecer ou me matar quando tudo estava caindo à minha volta.

A fé, espiritualidade ou algum tipo de valor moral é importante. Procure algo assim para você.

O problema é que muitas pessoas pensam que só porque são “boazinhas” os outros também serão (até provarem o contrário). Por conta da minha experiência eu adoto a opinião de que todos são maus até provarem diferente.

Falando de outra forma, em tempos ruins, quando tudo está indo para a mer!@ você verá mais pessoas ruins do que boas, então esteja preparado para isso…

Texto traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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3 Comentários

  • “Por conta da minha experiência eu adoto a opinião de que todos são maus até provarem diferente.”
    Esta é uma filosofia que eu sempre levo comigo, desde que eu me tornei uma pessoa mais racional e independente dos meus pais…

  • Marco Munhoz

    Primeiramente bom dia/tarde/noite à todos.

    Não é exatamente uma opinião, é mais um relato pra quem quiser uma motivação sobrevivencialista.

    Eu comecei a acompanhar e praticar o “movimento” sobrevivencialista há muito pouco tempo, menos de um ano. Já tinha uma noção através de filmes e programas de tv, mas obviamente isso não serve de referência. Na prática só serviu para alimentar a curiosidade e abrir novos pontos em questão para serem trabalhados em minha pessoa.

    O X da questão é:

    Tenho visto muitas pessoas falando sobre crises em âmbito mundial, colapsos sociais e sobrevivência primitiva. Isso pode se tornar realidade? Sim! Mas como você, Julio, disse no texto, é complicado trazer essas realidades para a vida das pessoas, pouquíssimas pessoas passaram por situações assim.

    Uma tia de 53 anos de idade que trabalha como faxineira ou um tio de 53 anos de idade que trabalha como torneiro mecânico NUNCA irão se imaginar e muito menos estar preparados em situações assim. Mas estão muito mais interessadas e preparadas para crises de âmbito financeiro pessoal, por exemplo. Não só esses exemplos que dei, mas TODAS as pessoas. Não existe estabilidade financeira.

    No momento em que me dei conta de que bastava um segundo pra que minha família fosse à falência e iria direto morar na rua comecei a me preparar. Estocar alimentos, me preparar fisicamente e psicologicamente.

    Continuem fazendo o trabalho de vocês no sobrevivencialismo. Tenho certeza que irão salvar muitas vidas.

    Até mais ❤

  • Hector Papa Charlie

    Quanto o autor presume que todos os homens são maus, me fez recordar do Filosofo Thomas Hobbes e o Estado de natureza.
    O estado de natureza entende-se como uma guerra de todos contra todos ilustrada pela célebre frase de Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem.” Por ser inerentemente mau ao nascer, apenas tornando-se bom com o passar da vida, condicionada esta às oportunidades, escolhas, em síntese, às experiências de vida.
    Para Hobbes todo homem, mesmo que de forma transitória possui aptidões, talentos, facilidades para realizar certas atividades. O mais intrigante é que do ponto de vista físico/anatômico, a constituição do corpo é via de regra praticamente igual para todos, não podendo atribuirmos a diferença (singularidade) proveniente da tempera do cérebro ou dos órgãos sensórias, porque todos seriamos iguais e teríamos os mesmos talentos. Deriva o talento então das paixões (leia-se ambição), que está intimamente ligada a ideia de poder. A riqueza, o saber, a honra não são mais que diferentes formas de poder.
    Portanto, é da paixão (ambição) que provém toda consistência do movimento do ser. De forma que não ter nenhum desejo (ambição) é estar morto, ter paixões fracas ou duvidosas é debilidade, ter paixões indiferentes é leviandade, distração. Um indivíduo que seja indiferente a paixão, embora possa ser uma pessoa de índole benévola não é possível que tenha grande capacidade de juízo ou imaginação. Não obstante um indivíduo que possua paixões fortes demais certamente beirará a loucura.
    Saliento que, dos poderes humanos o maior deles é aquele composto pelo concurso de pessoas em acordo de vontades e unidade de desígnios, id est, vários homens, unidos por consentimento numa só estrutura. Um exemplo seria o Estado, ou uma facção, ou seja, ter servidores de certa forma é poder, ter amigos também é poder, sucesso é poder, traz reputação que também é uma forma de poder.

    “Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada”. (kkkk só pra descontrair)

    Finalizando: O problema é que as ambições eventualmente iniciam conflitos de interesses entre os homens, o quais tendem a gerar uma pretensão resistida. Além do fato de um pretender subordinar o interesse do outro ao próprio (a beligerância que leva as intolerâncias.

    Mais ou menos como no brocardo popular (Vulgo filosófica de almanaque)”Farinha pouca, o meu pirão primeiro!” (só pra descontrair)

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