SHTF School: Pensamentos sobre os “reality shows”

Há muito tempo eu escrevi uma resenha sobre um show de sobrevivência popular e eu “destruí” ele porque o mesmo era cheio de técnicas que pareciam bacanas no vídeo mas poderiam te matar na vida real. Mais tarde eu decidi que não faria mais esse tipo de posicionamento porque esta é uma indústria que você não tem como bater de frente, mas… Cá estou eu de novo!

Eu li alguns dias atrás (talvez você tenha lido também) sobre um programa de sobrevivência novo que está para começar na Rússia.

Ele acontecerá em “uma grande ilha no rio Ob, o sétimo maior do mundo. Perseguindo o prêmio de 1,7 milhões de dólares, os participantes participarão de uma sobrevivência no período de 9 meses no inverno e em temperaturas extremas de até 50 graus negativos.

E ele continua: Tudo é permitido. Lutar, álcool, assassinado, estupro, drogas, qualquer coisa.

E: A competição será filmada e transmitida 24 horas por dia em um canal online, Pyatkovsky disse.

Eu entendo porque programas de sobrevivência atraem atenção e ganham dinheiro, simplesmente porque eles são interessantes para pessoas normais que não tem chance de testar seus conhecimentos em sobrevivência, mas ainda não consigo entender a quantidade de estupidez e falta de bom senso que a maioria deles possui.

Alguém considerou o fato de que pessoas vão morrer porque aprenderam coisas erradas por conta desses programas de sobrevivência?

Este programa russo me parece superar todos os outros… Eles acham que tudo isso é um jogo? Estupro? Será que chegamos tão fundo na sociedade e humanidade que precisamos colocar o estupro como uma alternativa para chamar atenção nestes shows? E pior, colocamos ele no mesmo nível de “errado” de usar drogas e beber álcool?

Eu não tenho muitas expectativas quando se trata de aprender algo em programas de sobrevivência, e da enorme quantidade deles apenas um ou outro é utilizável. Os que tem algo a adicionar não possuem pessoas correndo, pulando ou fazendo as coisas do jeito mais difícil quando existem saídas mais rápidas e seguras.

As pessoas que estão nos bons programas geralmente estão mostrando boas técnicas para sobrevivência, não uma postura perigosa e enfeitada para atrair público (e ganhar toneladas de dinheiro).

Além disso, os “programas de sobrevivência reais” que são gravados e transmitidos pela internet não são reais. As pessoas não agem de maneira real quando estão sendo gravados, é um show, não é sobrevivência… E as pessoas não entendem isso.

Um outro ponto interessante sobre este programa russo é o que um dos participantes disse:

Eu quero fazer algo tão louco e inesquecível que as pessoas mais tarde vão dizer “lembra daquela garota”… Nós só vivemos uma vez e precisamos tirar o melhor da vida. Eu estou pronta.

Louco e inesquecível? Melhor da vida? Ela está pronta? Algumas coisas não podem fazer parte do jogo, nem mesmo em ameaças, propagandas ou dicas.

Um amigo meu me contou uma história há um bom tempo.

Ele foi parte de um pequeno esquadrão que foi emboscado na rua e bombardeado com morteiros. A parede da casa desmoronou em cima dele e ele perdeu a consciência.

Ele acordou no meio da noite, embaixo de uma parede e sozinho – se não contar com o companheiro morto do lado dele que só tinha o tronco (todo o resto havia sumido). Tudo estava calmo, ninguém estava ali, os seus companheiros de esquadrão haviam sumido.

Ele começou a tentar sair dali, cavando e tirando os pedaços de pedra de cima dele quando de repente ele ouviu barulho de pessoas se aproximando. Um grupo de cerca de vinte homens, juntos com 5 ou 6 mulheres se aproximaram e entraram na casa em ruínas onde ele estava. A única coisa que não deixava ele ser visto era uma parede parcialmente destruída e o fato de estar a noite. Além disso ele estava ali, caído embaixo dos destroços.

Ele disse que homens armados prenderam mulheres na casa e deixaram um cara de guarda na frente. Depois de 20 minutos gritos começaram, junto com risadas dos homens. Estava claro que eles estavam torturando e estuprando as mulheres.

Meu amigo disse que ouvia comentários como “traga ela para cá” ou “vira ela na mesa” e coisas como essas, e então alguns disparos.

Ele continuou nesta situação por algumas horas. Meu amigo tentou remover a sujeira e os destroços dele mas era impossível, um pedaço de concreto estava sobre suas pernas e ele tinha medo de fazer barulho demais. O cara de guarda estava no máximo a 15 metros de distância dele.

A sua boca estava cheia de terra e dentes quebrados, e ele disse que naquela noite ele de repente se tornou um homem de fé e rezou muito para não tossir ou ser ouvido, pois sabia que ele seria morto ou torturado antes disso.

De todas as mulheres ele lembra que uma se recusou a “cooperar”, então eles deram atenção extra a ela, provavelmente com uma faca…  Ele tinha o rifle do seu lado, então ele começou a rezar para Deus para que ele lhe desse força para atirar em si mesmo pois ele não aguentava mais. Mas ele não teve coragem para isso.

Depois ele queria usar o rifle para atirar no guarda e tentar atirar nos outros, mas ele também tinha medo disso pois sabia que ia acabar morto. Então… Ele chorou em silêncio.

Ele disse que ouviu gritos a noite inteira, que urinou e defecou em suas calças por conta do medo dos gritos, do medo de morrer.

Então ele ouviu mais alguns disparos e os caras saíram da casa. Deixaram o local sem perceber a presença dele. Tudo ficou calmo novamente, o único som naquele momento era o distante som de aviões em uma grande altitude.

Antes de desmaiar por conta do choque e perda de sangue, ele disse que dois pensamentos estavam em sua cabeça. O primeiro era “eu sou um covarde” e o segundo “obrigado Deus por eu estar vivo”. 

Ele acordou algumas horas depois em um hospital de campo das forças britânicas. A unidade dele o encontrou na manhã e o levou para dentro de um veículo blindado. A guerra acabou, ele tirou seu uniforme e deixou seu rifle.

Ele casou, teve filhos, passou por um período sério de alcoolismo, usou algumas drogas, se divorciou, perdeu seu emprego. Ele se tornou um “homem disfuncional”.

Mas ele nunca esquece daquela noite quando “Deus deu vida para ele novamente”, mas ele também sabe que é um covarde. O que ele não disse é que aquela noite destruiu sua vida. 

Até este ponto você talvez já tenha percebido que muitos textos meus são apenas memórias sem um ponto ou objetivo específico, e isso acontece pois você é quem tem que entender a mensagem que melhor serve para você.

Na vida real também é assim, não há sentido ou mensagem, ou talvez haja uma mensagem diferente para cada um de vocês.

A sobrevivência real não é “O melhor de nossas vidas” e você pode concluir – no pior momento – que você simplesmente não está pronto para algumas coisas.

Algumas coisas não podem ser entendidas antes de você experienciar a realidade.

Você acha que existem problemas com estes programas de sobrevivência “reais”? Gostaria de saber seus pensamentos nos comentários.

Texto traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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9 Comentários

  • Lucas Souza

    Bom, primeiramente Boa tarde a todos, sobre o assunto relacionado a programas de sobrevivência “reais”, e muito relativo a opinião, pessoas criticam, pessoas curtem e por ai vai. e certo que existem muitas, de forma até exageradas mesmo, formas de sobreviver e técnicas de sobrevivências apresentadas nesse tipo de programa, esse é o lado ruim, porém se paramos para pensar, só pelo simples fato de nesses programas apresenta os mais diferentes tipos de ambientes, os seus perigos, sua geografia, as vezes sua historia, isso já pode ser considerado como um ponto de extrema importância. Conhecer o lugar em que estamos introduzidos e um dos principais pontos para nos manter tudo em ordem. Os protagonistas que fazem este tipo de programa, a produção, organizadores e colaboradores podem até mostra coisas, digamos, desnecessárias ou até mesmo erradas, porém muita coisas pode ser aproveitada. Não sou muito fã deste tipos de programas, porém quando possível sempre acompanho, pois aprender sempre e bom, conhecemos de forma superficial, porem da para absorver algo de bom, ecossistemas, animais, relevo, clima, até mesmo culturas de outros locais sem sai do conforto de nossa casa. Temos que somente filtra o que é de fato importante, e ajuda as pessoas que tem menor interação a este universo sobrevivencialista. Não podemos somente ver o lado ruim das coisas e sim abri nossa mente e analisar os fatos de vários ângulos.
    obrigado pela atenção. E obrigado Julio Lobo por sempre está ajudando essa galera que curte a natureza, como eu, graças a voce já me livre de muitas roubadas. Que Deus abençoa voce meu irmão, sucesso.

  • Assisto o “Largados e Pelados” e o mais irreal nesses programas – além do prazo de 21 dias que faz muitos participantes serem meros jogadores poupando energia – é a obrigatoriedade de se fixarem em determinado local. Por que ficar em um local com poucos recursos, quando o correto seria migrar em busca de melhores lugares?!

  • Um programa muito legal é o “Sozinhos”. Os caras têm que viver na Patagônia pelo maior tempo possível. Tem uma hipponga que já fez até uma sauna no acampamento, enquanto os marmanjos se ferram..r.s

  • Acredito que o problema não está tanto nos programas de sobrevivência. Afinal, criar atrações com intuito de ganhar audiência é o objetivo da TV não é mesmo! O maior problema está em que assiste esse tipo de programa e não maturidade nem bom senso de entender que aquilo se trata de um show televisivo e que as informações adquiridas alí devem ser analisadas com bastante senso crítico, filtradas, aproveitas as poucas dicas boas e descartado o lixo.

    Uma dica dada em um desses programas de sobrevivência ajudou a salvar minha vida uma vez.

    Quanto ao reality Russo. É as mesma coisa. Culpados são os estúpidos que aceita participar de uma coisa dessa. Se não tivesse gente idiota disposta a se arriscar nisso não existiria o programa.

  • É melhor aprender na prática e em livros do que em programas reais que não ensinam nada de sobrevivência não estou ofendendo esse programa,sim tem muitos programas legais que dá para tirar muitas técnicas de sobrevivência até aprender com índios sobre ervas naturais de cura,caça e muitas outras coisas para colocar em prática seja urbano ou selvagem

  • Gabriel Alves

    É muito melhor aprender de casos reais, como esse, do que gastar tempo assistindo programas de “sobrevivência”. Alguns são até divertidos, mas no geral, não trazem conhecimento algum.

  • carlossilvapb

    TV, canais do Youtube e sites de internet que transmitem “reality shows” tem pouquíssimo de “reality” e muito de “show”. Programas como por exemplo os que são capitaneados por “Bear” Grylls (que, se tiver alguma coisa de “Bear”, deve ser a pelúcia de um ursinho de brinquedo) são ilusórios, e, o que é pior, levam as pessoas a tomar decisões equivocadas (como beber a própria urina, algo perigosíssimo em qualquer situação). Quantos e quantos exemplos de pessoas que morreram por acreditar nesse tipo de coisa vemos por aí?
    Temos que ter a percepção de que a sobrevivência em um cenário de crise é algo que vai exigir muito de qualquer um. Principalmente paciência! Em determinadas situações, teríamos que ficar muitas horas esperando que as condições fiquem favoráveis, ou esperando o perigo passar.

    • Você está equivocado sobre beber a própria urina. Sim, pode-se beber a primeira urina do dia. Leia a matéria sobre..Aliás, veja o vídeo sobre o Marco Prosperi. https://sobrevivencialismo.com/2016/08/04/historias-de-sobrevivencia-mauro-prosperi-perdido-no-deserto/

  • Vlamir Bueno

    Pois é, um programa em que o protagonista é deixado em um local remoto e esse sai correndo superando obstáculos até encontrar civilização dá muito mais “ibope” do que um programa em que o protagonista ao se encontrar em dificuldades, para, descansa, se abriga, consegue água nos mais diversos biomas, sinaliza, seja com fumaça, pedras, folhagens, reflexos, etc., pois o mais provável é que realizem buscas nessa localidade, e só então, se o regate demorar, buscar comida e pensar em sair do local que se perdeu, planejando rota, como orientar-se, meios de transportar água e comida, e mesmo assim, sinalizar por todo o percurso a direção tomada. Seria “chatinho” pra uma sociedade tão imediatista, e ninguém está pensando em ser educativo, e sim, em ganhar audiência, mesmo chegando a extremos, como o novo programa aqui anunciado, e com isso, anunciantes.

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