SHTF School: Pontos importantes para quem vai enfrentar tudo sozinho

Em um dos meus posts recentes eu escrevi sobre as perspectivas de sobreviver sozinho a um cenário de crise em um cenário urbano e também selvagem e, como sempre, eu concluí que é muito difícil sobreviver sem um grupo especialmente em cenários urbanos.

Eu também já escrevi vários textos sobre as vantagens de ter um grupo de confiança quando uma crise acontece, mas eu ainda recebo muitas perguntas sobre como conseguir sobreviver sozinho, ou como atuar como um “lobo solitário”. Então, decidi fazer um texto sobre isso.

Sim, algumas pessoas conseguiram sobreviver durante a guerra estando sozinhas, mas a porcentagem das que conseguiram foi muito pequena e elas também pagaram um preço muito maior.

Então, baseado nas minhas experiências do que vi e que tipo de pessoas sobreviveram, aqui vão alguns conselhos para os lobos solitários:

Força mental – Ter uma causa

Ficar sozinho em tempos difíceis lhe dará mais chances de se encontrar sem suporte emocional ou psicológico quando você mais precisa.

Uma situação de crise pode ter um enorme impacto no seu estado mental, na sua força emocional e, já que você estará sozinho, você não terá aquele apoio diário de sua família ou amigos.

Não subestime o efeito disso. Se você esquecer, depois de certo tempo você pode se tornar um completo animal ou simplesmente cometer algum erro básico e acabar morto.

Eu estava em grupo durante a guerra e tive suporte da minha família, mas também tive momentos onde tinha dúvidas sobre tudo, momentos que eu estava tão afundado em tristeza que eu não conseguia encontrar um sentido ou razão para seguir em frente, mas eu tinha meus próprios métodos para lidar com isso, além do suporte do meu grupo.

O que você pode fazer se estiver sozinho?

Encontre uma causa, um propósito no meio do caos que vai acontecer a sua volta. Se você é um crente, um homem religioso (ou mulher) você pode ter uma vantagem nisso visto que esse pensamento pode te dar mais força.

Outras coisas também vão ajudar, então descubra o que alivia você antes do cenário de crise pois lembre-se: você estará sozinho com seus medos e dúvidas.

Eu conheci um cara que estava sozinho durante a guerra, ele escrevia todos os dias em um diário contando o que acontecia com ele. Ele me disse que começou com isso sem ter nenhum plano, mas depois de certo tempo virou quase que uma “razão para viver”, ele tinha que monitorar tudo o que estava acontecendo e registrar em formato de escrita.

Mobilidade

Eu já disse que se você está planejando ficar sozinho quando uma crise acontecer é importante ter uma grande mobilidade, mas o que isso significa?

Significa que você precisa estar preparado para se movimentar mais, muito mais do que se estivesse em grupo.

Coletar informações, buscar por recursos, explorar, etc… Tudo isso será sua responsabilidade, você terá que suprir todo o seu ciclo de sobrevivência.

Isso pode mudar muitas coisas.

Por exemplo, quanto poder de fogo você consegue ter sozinho defendendo sua casa contra invasores, vamos dizer… 15 inimigos?

Simplesmente significa que existe a chance de você não conseguir defender a sua casa porque você é apenas uma pessoa, gerando a possibilidade de que talvez você seja forçado a deixar (correr) sua casa.

Tudo isso significa que você precisa estar mais preparado para se movimentar mais. Ter mais de um abrigo, mais de um tubo de sobrevivência enterrado, mais munição, mais comida… Etc. Mais de uma opção para tudo.

Você precisa de mais opções quando está sozinho.

De forma simples, um lobo solitário precisa prestar atenção nas mesmas coisas que qualquer outro grupo sobrevivencialistas, mas com muito mais foco e profundidade. Até porque você pagará muito mais caro pelos seus erros.

Habilidades

Todo sobrevivencialista precisa ter algumas habilidades, com ou sem grupo. Um lobo solitário precisa ter as suas também, mas com muito maior profundidade.

Ele precisa ser um especialista em pelo menos um campo de relevância. Como lobo solitário você será forçado (especialmente em crises longas) a gerar algumas espécies de alianças para conseguir coisas, ou você simplesmente será forçado a entrar em algum grupo (por pelo menos curtos períodos).

Quando todos os seus itens “valiosos” acabarem ou forem tomados, você terá aquela habilidade preciosa como ferramenta de troca. Suas habilidades serão muito mais importantes para você quando estiver sozinho.

Escolha hoje, antes de qualquer emergência, uma habilidade que você sente que melhor se encaixa com você e aprenda tudo sobre ela. Pense em reparo de armas, jardinagem, conhecimentos médicos, medicina alternativa… Enfim, transforme-se em um mestre no que escolher.

Mais uma coisa importante sobre estar sozinho e habilidades. O simples fato de não ter ninguém com você pede muito mais esforço e conhecimento do que quando em grupo. Você levará muito mais tempo para coletar lenha, acender o fogo e preparar a comida sozinho do que se estive em uma dupla ou trio. Sem contar que quanto mais gente, maior a quantidade de habilidades que são somadas.

Deixe eu lhe dar um exemplo baseado em minha experiência real. Se dois sobrevivencialistas decidem se locomover no meio de uma área urbana e decidem passar a noite ou algumas horas descansando em algumas ruínas a tarefa é mais ou menos fácil, eles escolhem o local, verificam a segurança e revezam entre descanso e vigia.

Se você está sozinho você terá que procurar pelo prédio e isso lhe custará mais esforço pois a construção terá de ser diferente visto que só há um defensor (você), você também terá de construir armadilhas (de aviso ou letais) o que lhe tomará mais tempo e você também terá de dormir “com um olho aberto”, o que não lhe deixa descansar direito… Enfim, e a lista continua.

Como eu disse, os dois exemplos são vindos da minha experiência direta com um cenário de crise. Estar sozinho não é impossível, só vai requerer mais esforço e habilidades.

Lidar com pessoas

Você é um lobo solitário, você será forçado a negociar com outros caras, isso é certo. Você terá que cooperar com outras pessoas ou confiar em outras pessoas.

A minha filosofia de quando falamos sobre sobrevivência urbana é que a crise em uma cidade significa mais pessoas e mais pessoas significam mais problemas. Isso por que você terá de lidar com elas o tempo todo para sobreviver.

Esse “lidar com pessoas” quando você é um lobo solitário é muito mais perigoso do que quando você tem um grupo. Simplesmente porque você é mais vulnerável, menos protegido.

Por exemplo, se você está indo negociar alguma coisa é mais perigoso ir sozinho carregando os itens de troca do que ter mais duas pessoas com você. Com isso em mente, haverá um ponto onde você será forçado a evitar as pessoas porque você está sozinho. É simplesmente mais seguro assim.

Existe uma razão clara do porque a maioria dos lobos solitários que sobreviveram à guerra eram pessoas estranhas e meio malucas, que não gostavam de ficar próximas dos outros.

Consequências

Deixe eu explicar usando um exemplo e experiência reais minhas.

Eu sobrevivi à uma guerra.

Eu tenho estresse pós-traumático já fazem muitos anos, o que é algo que leva a minha mente para todo lugar, de pensamentos de “razões para ainda estar neste mundo” até pensamentos em escrever um livro.

Eu posso afirmar que não sou capaz de viver uma vida normal. Eu não consigo ficar em locais muito cheios, até em restaurantes chiques eu fico procurando por possíveis saídas… E em troca desta dor eu estou certo de que estou pronto para outra crise.

Mas isso não me dá a possibilidade de viver normalmente, eu simplesmente perdi esta habilidade muito tempo atrás porque eu estive no meio da guerra. Eu esqueço os nomes de pessoas, ruas e lugares, algumas vezes esqueço até o aniversário do meu filho.

Mas eu consigo lembrar com facilidade e clareza como adultos choravam antes de morrer, como feridas profundas soltavam muito sangue, o cheiro de um prédio em chamas, o barulho e brilho de uma fogueira que me hipnotizavam.

E eu lembro coisas muito piores que estão encravadas na minha mente…

Eu sou tudo isso e lembro de tudo isso, mesmo tendo suporte do meu grupo e da minha família. Nós cuidávamos um do outro, especialmente emocionalmente.

Eu sinto pena do sobrevivencialista lobo solitário que irá sobreviver a uma crise, ele vai ficar acabado, bagunçado. Há uma razão para os lobos solitários que sobreviveram se tornarem pessoas traumatizadas estranhas.

Como você pode concluir agora, não existe fórmula mágica de como sobreviver sozinho em uma situação de crise. As regras de sobrevivência são praticamente as mesmas de quando se está em grupo, mas elas possuem um grau de dificuldade muito mais intenso e dão uma margem de erro muito menor.

*Comentários do Toby (colaborador)* – O Selco levanta um ponto MUITO importante sobre o que acontece “depois da crise”.

Muitos de nós estamos focados em sobreviver tempos difíceis, mas também precisamos pensar qual o “preço” que esta jornada irá cobrar.

Mesmo depois de 25 anos depois da guerra você ainda vê pessoas “normais” aqui na Sérvia, andando pelas ruas, claramente lutando para tentar seguir em frente e esquecer o passado. Esse é o ‘normal’ aqui da área.

Em toda vila ou cidade existem aquelas pessoas que são “conhecidas” (pelos locais) por ainda estarem lutando para tirar a guerra de suas mentes. Para um estrangeiro essa visão pode ser até mesmo chocante, um lembrete forte do custo de viver em tempos difíceis… Este é um aspecto que você não pode se dar ao luxo de esquecer.

 

Traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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5 Comentários

  • Por questões que a vida trilhou, já vivo como um lobo solitário. Engraçado que passei por situações que também me levaram a desenvolver TEPT. Vi meu pai ser assassinado, vítima de um a latrocínio, quando eu tinha cinco anos de idade. Posteriormente, pela profissão que acabei por seguir, presenciei e vivenciei inúmeros eventos enesejadores de traumas. Evento como o sentimento que passa pela sua cabeça quando se é alvejado. Do instante que você é ferido até o médico falar que está tudo bem, passa uma infinidade de coisas. Sabe, às vezes, vendo tanta desgraça nesse mundo, pobreza de muitos gerada pela ganância de poucos, penso se vale a pena continuar. E a única âncora que resta é, de fato, se fincar em algum objetivo. Mesmo que uma quimera. Mas um objetivo.

  • Muito legal os textos do Selco, mas pela primeira vez discordo dele em um ponto… o Lobo Solitário, em minha opinião deve ser um generalista e não um especialista, ele deve ser capaz de suprir suas necessidades, até porque ele deve evitar o contato com pessoas e não pode simplesmente ‘trocar’ suas habilidade com outros grupos/pessoas… o isolamento deve ser sua principal estratégia…Uma grande vantagem de ser Lobo Solitário é que você sabe que não pode contar com ninguém e, portanto, não corre o risco de ser traído… muitas pessoas confiam em grupos e na hora H podem ser traídos, seres humanos são assim, mesmo familiares… o Lobo Solitário sabe que não pode confiar em ninguém e, portanto, não corre este risco..
    A estratégia deste tipo de sobrevivencialista é mobilidade (como diz o Selco no texo), flexibilidade, furtividade e adaptabilidade…. não pode atrair atenção, deve atacar somente em último caso e sempre à traição, de surpresa. Em qualquer outra situação deve fugir, evitar conflito…
    Como ele não aparece é o tipo de sobrevivencialista que menos ‘deixa rastro’, o mais invisível de todos… e, realmente, deve ser uma pessoa com um perfil psicológico bastante específico…
    Particularmente entre ficar num grupo grande, com muitos problemas, traições, conflitos e alta visibilidade e ser um Lobo Solitário, escolheria a segunda… mas, em minha opinião a melhor opção é fazer parte de um grupo pequeno e coeso….

  • Cada texto do Selco é um baú repleto de tesouros para os que trilham os caminhos do sobrevivencialismo!

    Espero que todos aqueles quem tem uma vizão romantizada da coisa moldada por filmes e seriados tenham a oportunidade de ler este texto.

  • Gabriel Augusto

    Esses textos do Selco são muito bons!
    O fato é que, um Lobo Solitário precisa saber lidar com os seus pesadelos sem o apoio de terceiros.

  • gabrielteste342

    Realmente são pontos muito importantes! Em situações assim o apoio de alguém é fundamental. Prova disso é o caso daquele cara que ficou à deriva no mar e conversava com seus “amigos” peixes.

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