SHTF School: Andando na linha entre humano e animal

Como eu sempre digo em minhas postagens, gosto de falar da parte “não tão espetacular” da sobrevivência que não é muito divertida como falar da últimas notícias sobre armas e acessórios.

Hoje eu quero falar sobre dignidade e o que isso significa em um cenário de sobrevivência. Antes de falar sobre a minha própria experiência, leia o pequeno texto abaixo tirado do diário do Tenente Coronel Mervim Willett Gonin que descreve o que aconteceu quando sua unidade libertou vítimas de um campo de concentração durante a segunda guerra mundial.

No momento em que ele escrevia isso todo dia centenas de pessoas morriam e tudo era puro horror:

“Logo depois da Cruz Vermelha Britânica chegar, mesmo que não tenha conexão, chegaram também uma grande quantidade de batons. Isso não era nem um pouco perto do que o que os homens queriam, nós estávamos gritando por centenas e milhares de outras coisas e eu não sei quem havia pedido por batons. Eu queria tanto descobrir quem fez isso, foi a ação de um gênio, de brilho incrível.

Eu acredito que nada fez mais para aquelas pessoas do que o batom. As mulheres ficavam deitadas em suas camas sem lençóis ou pijamas mas com lábios vermelhos, você as via andando por aí sem nada além de um cobertor nos ombros, mas com lábios vermelhos. Eu vi uma mulher na mesa de autópsia e em sua mão fechada havia um pedaço de batom. Finalmente alguém havia feito algo para torná-los indivíduos de novo, eles eram alguém, não mais um número tatuado no braço. Eles ao menos podiam ter interesse em suas aparências. Aquele batom deu a eles a humanidade de volta.”

A importância de se manter humano e não se tornar um completo animal é sempre subestimada pelas pessoas que se preparam para sobrevivência em longo termo. Eu tive quase um ano para lutar contra virarmos ratos ao redor da casa durante a guerra.

Espere se tornar algo como um animal

Você pode ter seu equipamento pronto para uma crise, você pode estar perfeitamente treinado em um monte de diferentes habilidades em campo e ainda assim quando a crise acontecer você pode acabar morto nos primeiros dias só por que você “se recusou em acreditar” no que estava acontecendo.

É aquele estado mental quando um homem simplesmente não quer (ou não pode) compreender uma nova situação.

Pode ser uma situação de ameaça a vida rápida como pessoas invadindo sua casa e você esperar alguns segundos demais para atirar no invasor e pronto, você está morto, fim da história. Ou pode ser todo um processo de falhar em reconhecer o novo mundo ao seu redor e as novas regras (ou falta delas) e novamente você não estará fazendo as coisas corretas para a situação… E acabará morto.

Um exemplo seria como quando uma crise ocorrer você desesperadamente usar o seu gerador de energia para acender a luz em todos os quartos da casa só por que isso significa vida comum para você. E essa vida comum já se foi, tentar trazê-la de volta neste tipo de situação somente atrai mais problemas.

Se segurar nos confortos e comportamentos que você está acostumado pode ser perigoso.

Para fazer a história longa se tornar curta, o que estou tentando dizer é que você pode estar treinado e equipado como um SEAL e ainda ser morto facilmente por um idoso de 70 anos de idade com um rifle enferrujado só por que você foi surpreendido pela quantidade de destruição e violência causada pela crise e acabou por não ver aquele idoso vindo.

Por outro lado, aquele idoso pode ter vivido outros eventos de crise em sua vida e sabe quando é o tempo de agir sem hesitação ou piedade.

Existe uma linha muito fina em que você deve caminhar entre perder seu lado humano e se tornar um animal puro. Uma das coisas que mudaram muito quando a crise aconteceu era o fato de que tudo se tornou muito sujo.

Era como um processo lento, primeiro as pessoas tentaram manter o local o mais limpo possível, porém sem os serviços normais como caminhões de lixo, água corrente e outros, tornar a vida normal logo se tornou impossível. Depois todo esse lixo foi usado de alguma forma, mas no começo ele começou a empilhar em todos lugares e quando você adiciona isso às ruínas na rua, excrementos humanos e corpos mortos era uma cena bastante feia.

Depois de certo tempo nós começamos a aceitar a sujeira lá fora, então a prioridade era manter limpo ao menos o interior da nossa casa. Quando eu digo “limpo” eu não digo “limpo” como hoje. Talvez era o quão limpo como nós conseguíamos deixar.

Por exemplo, simplesmente se mover pela cidade no meio da noite significava que você precisava rastejar, pular, esconder, caminhar ou correr por um monte de coisas e algumas vezes coisas muito feias e sujas.

Muitas vezes eu estive escondido em lugares tão sujos que o cheiro era quase paralisante. Certa vez no meio da noite eu pulei sobre uma parede devido a um bombardeio surpresa e quando eu cai do outro lado, percebi que tinha caído em um corpo.

A cara dele estava completamente esmagada pela parede quebrada e parcialmente enterrada, mas o lugar era tão pequeno que eu tive de ficar em cima daquele corpo durante pelo menos vinte minutos. Ele morreu provavelmente quando a parede da casa desabou depois de algum bombardeio, nunca saberemos.

O bombardeio estava tão forte que eu na verdade amei o cara morto e o lugar onde eu estava naquele momento. Eu quase o abracei enquanto estava tentando ficar o menor possível devido aos pedaços de metal e rocha voando ao meu redor como uma chuva louca, enquanto meu estômago estava flutuando pelas detonações e pelo cheiro.

Tudo o que eu estava dizendo naquele momento foi “obrigado, obrigado, obrigado” como se fossem palavras mágicas. Eu nem sabia a quem eu estava agradecendo, se era para o corpo fedendo, meu cérebro por perceber aquele local pequeno ou por Deus ter me salvado.

Hoje, anos e anos depois eu ainda carrego aquele cheiro dentro do meu nariz. Mas eu não me movi de lá enquanto o perigo não tivesse passado. Isso é sobrevivência e por sorte eu estava acostumado a sujeira o suficiente para ficar com aquele cara morto.

Alguns caras simplesmente pararam de se importar com limpeza e higiene completamente. Para eles lavar e limpar era algo como um luxo não quisto. Eles se tornaram completos animais. Eu até conheci alguns caras que pareciam e cheiravam tão mal que até aquele cara morto parecia um perfume de loja.

Era fácil se render a coisas como essas, como em tentar manter você limpo.

Era estúpido não apenas em termos de higiene e doenças, mas ao se render você admite que não se importa mais e quando você admite isso você está a alguns passos de se transformar em um animal. As pessoas desistem delas mesmas.

Para mim, ficar limpo o máximo que podia era algo como preservar a última conexão que eu tinha com a “vida normal”, a vida antes da crise e da guerra quando coisas como vizinhos, café da manhã, carros e outros eram coisas que tomávamos por garantido, como se sempre estariam ali e nunca mudariam.

Claro que eu sabia que me manter limpo era importante para continuar vivo devido a todos os problemas e doenças, sendo que não haviam mais hospitais e doutores. Mas em algum nível psicológico me mantinha são e me mantinha normal.

Mesmo em uma situação de sobrevivência você ainda tem que cuidar de algumas pequenas coisas para manter sua dignidade, manter a moral alta e não se perder. Se você parar de se importar com tudo é como se uma doença comesse você.

Quando eu voltava de trocas ou buscas por recursos na cidade, eu me limpava ou me lavava no jardim antes de entrar na casa. Novamente, claro que havia a questão da higiene e doenças, mas era mais importante para mim tentar manter todo o caos e violência fora da minha casa em nível psicológico.

Eu tentei manter tudo isso fora, na verdade tentei manter tudo fora de minha casa, como um ritual. Eu mantinha minhas roupas usadas fora em uma mochila, minhas botas em um canto e nunca entrava em meu quarto com elas.

Um dos meus parentes usava chinelos rosas quando ele estava em casa algumas vezes, ele dizia que sentia que tudo estava bem usando ele. Era estranho e assustador ver ele usando aqueles chinelos rosinhas enquanto o mundo estava indo para o inferno, mas nós todos temos jeitos estranhos de nos manter sãos. Talvez usar aqueles chinelos depois de ter sido forçado a atirar em alguns caras mantinha ele são, lembrava ele alguns tempos normais quando a avó o usava de manhã.

Por outro lado, como eu disse no começo, se você se prender muito aos hábitos antigos você não estará fazendo o melhor para sua sobrevivência também.

Então se eu tinha que ser um animal, eu era um animal. Se tratava de ficar vivo. Por exemplo, houve um período onde eu comia somente para sobreviver, como um animal, sem prestar atenção no que comia ou como comia. Eu acha alguma comida e comia rapidamente, se tivesse uma comida com minhocas eu comeria ela no escuro, sem ver o que eu comia.

O ponto era (e ainda é) ser um homem mas estar pronto para se tornar a ser animal se você for forçado a isso. Se trata de ser flexível, se adaptar à situação e eu espero que isso ajude a esmagar a ideia que alguns cenários de Hollywood mostram.

Você pode (e deverá) ter o máximo de sabão, higienizadores de mão, máscaras descartáveis que puder e você ainda pode acabar morto se não estiver pronto para aceitar o fato de que algum dia você poderá ser forçado a “abraçar” um cara morto para sobreviver ou comer um rato ou pombo podre.

Assim que o próximo colapso vier muitas pessoas vão acordar para a realidade e lutarem para serem humanos como eram ou se tornarão animais. Como sobrevivencialista habilidoso que você é, espero que você caminhe na linha tênue entre as duas posições. As pessoas que caminharem neste trajeto serão aqueles que terão maior chance de sobreviver.

Traduzido e adaptado do blog SHTF School.

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6 Comentários

  • Mesmo em “tempos de paz” nós somos frequentemente expostos a situações que mostram nosso pior lado. Quantas pessoas não se transformam ao entrar no carro, assumindo riscos absurdos e vociferando palavrões que não deixa seus filhos falarem. O homem em sociedade é dúbio, corrupto e maleável. Todos tem o bem e o mal dentro de si, e vence aquele lado que é mais alimentado. A grande questão, em cenário de crise, é a resiliência para mostrar à situação o personagem certo. Esse tipo de habilidade não é inata (como nenhuma outra) e pode ser adquirida através da observação do seu comportamento ante adversidades e a prática de correção.

  • janildo temoteo

    EXCELENTE ,POSICIONAMENTO PERANTE A CRISE ,TOTALMENTE CORRETO;ESTE BLOG É MUITO IMPORTANTE .
    PARABENS !!!

  • O blog do selco é aprendizado puro, eu sei que é trabalhoso mas poderiam traduzir todas as postagem, eu entendo inglês, mas tenho amigos e parentes que não

  • Tdo q foi apresentado eh bastante pertinente. Serve p/ mostrar q Sobrevivencialismo naum eh 1 jogo.

  • Texto simplesmente incrível!

    Esta é a realidade nua e crua como de fato ela seria se nos encontrássemos em meio a uma situação como o Selco esteve.

    A sobrevivência muitas vezes é horrenda e cruel, deve ser algo em torno de ir vivo para o inferno e sem ter como voltar ser obrigado a se adaptar ao ambiente e viver em meio aos demônios e ter que agir como eles para se manter vivo mas tentando não se tornar um deles.

    Embora nos preparemos tanto isso não é garantia de que superaremos a situação. É bem capaz que um fdp de um drogado que já vive na rua no meio a sujeira, passando fome sobreviva e nós não, pois o drogado já vai estar adaptado e nós ainda teremos um baita caminho a trilhar. Temos que ficar atentos a estas questões.

  • Muito bom, muito obrigado pelo ensinamento…

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