O DIA PARA O QUAL NASCEMOS
Olá, gostaria de iniciar esse texto me apresentando, me chamo Lucas e sou médico com expertise em terapia intensiva, gostaria também de já agradecer ao pessoal do sobrevivencialismo pelo convite desafiante de escrever a respeito desse dia, o dia para o qual eu creio que nasci e fui preparado por tanto tempo.
Bem, para dar contexto a história preciso iniciar meu relato alguns dias antes de tudo o que veio a acontecer. Começo pelo dia que conheci o Sobrevivencialismo após pesquisar no YouTube por temas relacionados a preparação, autossuficiência e ao famoso “faça você mesmo” após uma queda de energia que ocorreu na cidade onde resíduo e que nos fez passar por longos três dias de muito perrengue. Nessa época eu me encontrava em luto pela morte prematura do meu irmão do meio, que havia morrido em janeiro de 2020 por motivos que prefiro não comentar.
Ao me deparar com esse “novo mundo” comecei a entender varias coisas que antes achava legal, mas um pouco fora do contexto de minha vida. Pouco a pouco fui aprendendo técnicas e outras coisas nesse vasto canal do YouTube ao qual tanto admiro. No entanto, naquele mesmo momento eu iniciei minha jornada filosófica pelo mundo sobrevivencialista, entendi a importância de estar preparado, a importância de ter algumas habilidades básicas e tudo o mais, mas eu ainda precisava desvendar o segredo do sobrevivencialista.
Bom, após pouco mais de um ano iniciou a jornada que me levaria ao dia mais importante da minha vida, o dia pelo qual fui preparado desde meu nascimento. Em meio a pandemia do COVID-19 meus pais ficaram doentes na mesma semana, minha mãe reagindo um pouco melhor que meu pai, mas ainda assim, sendo os dois pacientes de risco e com sintomas relacionados a gravidade dessa fatídica doença que nos tirou muitos entes queridos e mudou o curso da humanidade.

Ao passar dos dias o meu pai foi agravando, necessitando de medicações injetáveis e de uso de oxigênio domiciliar, ao qual, graças a Deus e ao sobrevivencialismo eu já estava preparado; pois nessa de ter provisões básicas eu fui um pouco além e já tinha medicações ao qual não são convencionais para uso domiciliar, graças a minha profissão e a clinica que tenho junto a minha esposa. Também já havia procurado meios de comprar oxigênio, o que pasmem, é muito caro. Quando vi a situação se agravando, comprei um concentrador de oxigênio e dois cilindros grandes de oxigênio de reserva caso houvesse queda de energia ou algo do tipo. Enfim, me sentia um pouco mais preparado.
No entanto, com o passar dos dias meu pai seguiu piorando, necessitando ir para o hospital ao qual foi transportado por uma unidade do SAMU de minha cidade, já em uso de oxigênio e bastante ansioso com tudo, pois meu pai sofria de ansiedade crônica e transtornos relacionados ao pânico. Nesse dia as coisas começaram a ficar muito serias, meu pai indo ao hospital e minha mãe em casa bastante debilitada, com sintomas como febre alta, dispneia, mialgia e artralgia.
Ao chegar no hospital fui com meu pai à sala vermelha, lugar onde são encaminhados os pacientes mais graves, com maiores chances de complicações severas. La mediquei meu pai, administrando medicações que melhorariam a sua respiração, medicações que lhe trariam sensação de bem-estar e outras medicações para acalma-lo, tendo em vista o grave estado emocional do mesmo, tendo em vista que ele tinha pânico de ficar sem respirar e de ficar em locais fechados.
Ainda na sala vermelha, com meu pai em uso de alto fluxo de oxigênio, mas um pouco mais calmo, me vi impelido a atuar em outro paciente, um senhor que havia sofrido queda de moto ao qual cursou com varias costelas fraturadas. Lembro-me bem desse momento, pois quando o vi o senhor naquela situação falei para meu pai: “painho”, preciso ir ajudar aquele senhor, caso contrario ele vai morrer. Mas se o senhor precisar é só chamar e em menos de 5 segundos estarei aqui ao seu lado novamente. Meu pai respondeu de maneira emocionada: Vá meu filho, pois é esta sua missão, ajudar a quem precisa, além do mais seu pai está bem aqui.

Fui ao encontro do paciente e atuei nele, e por ser cristão dei honra e gloria a Deus por de fato ter conseguido ajudar aquele senhor. O mesmo foi intubado (colocado para respirar através de aparelhos), tendo o tórax drenado e posteriormente encaminhado para um hospital de referencia para trauma torácico. Nesse meio tempo surgiu a vaga no isolamento da UTI que eu trabalhava nesse mesmo hospital. Levei meu pai à UTI, fiz sua admissão, evolução e primeira prescrição dele naquele ambiente de terapia intensiva.
Na UTI estava outro medico de plantão, que de maneira muito gentil e benevolente me deixou conduzir o caso do meu pai naquela admissão. Também contei com a gentileza da minha Coordenadora medica e de todos os outros profissionais que ali estavam de plantão, amigos da enfermagem e da fisioterapia.
Após esse primeiro momento, deixei meu pai bem instalado no leito de isolamento e fui para casa de minha mãe cuidar dela, pois também se encontrava em situação bastante delicada. Ao chegar em casa administrei as medicações e tomei a decisão de também coloca-la no oxigênio, claro, guiado por parâmetros clínicos, oximetria e demais rotinas medicas. Voltei ao hospital, deixei algumas coisas de higiene pessoal para meu pai e falei que iria retornar para casa, pois na UTI ele estaria rodeados de amigos e ”bem guardado” já minha mãe estava sozinha em casa com meu irmão mais novo e meu sobrinho. Meu pai prontamente me disse: Vá meu filho, vá cuidar de sua mãe.
No dia seguinte sou acordado pouco após as seis horas da manhã com uma ligação do fisioterapeuta de plantão, também meu amigo, falando que meu pai estava querendo falar comigo com urgência. Nesse momento vesti as roupas do dia anterior que estavam ao lado do colchão que dormi junto a cama de minha mãe e em menos de 5 minutos estava chegando ao hospital, que ficava próximo, pois moramos numa cidade de menos de 50 mil habitantes.
Ao chegar no leito em que meu pai se encontrara me deparei com o mesmo tendo uma crise de pânico, gritando e afirmando que iria morrer. Não sei bem como mas consegui ficar estranhamente muito calmo para o meu normal, solicitei algumas medicações e administrei no mesmo, ao qual mesmo praticamente sem consciência ainda seguia bastante inquieto e agitado ao leito. Nesse momento pedi a outro amigo que coletasse uma gasometria arterial do meu pai, exame que a grosso modo trás dados mais fidedignos acerca da oxigenação e troca gasosa do nosso organismo.
Ao trazer a gasometria vi imensa tristeza no olhar desse meu amigo, que se espalhou por todos ao sabermos que meu pai precisaria ser intubado e colocado sob assistência mecânica ventilatória. Seguindo ainda estranhamente calmo, solicitei as medicações utilizadas durante esse procedimento, sendo basicamente medicações semelhantes as utilizadas em procedimentos anestésicos. Ainda nesse instante que mais parecia a eternidade o medico plantonista falou que intubaria meu pai da melhor forma possível e que eu não me preocupasse com absolutamente nada.
E esse até então seria o dia mais importante da minha vida, o dia para o qual eu me preparava desde criança quando tinha pesadelos relacionados a morte de meus pais. Nesse momento surgiu uma forca visceral em mim, algo que eu nunca havia sentido antes, então pedi desculpas ao meu amigo e disse que o procedimento seria realizado por mim, pois vinha me preparando para tal desde o dia em que nasci.
Intubei meu pai de maneira muito rápida, sem nenhum tipo de intercorrência ou algo que lhe trouxesse mais prejuízos. Nunca havia feito uma intubação tão rápida na minha vida, e olhe que nesse ponto já eram no mínimo 6 anos de pratica quase que diária. Após a intubação ainda muito calmo, solicitei material de punção venosa central e meu ultrassom afim de passar um cateter venoso central com o mínimo risco de lesões e intercorrências, tudo isso afim de minimizar a chance de cometer algum erro e agravar ainda mais a situação em que meu pai se encontrava.
Ao fim desses procedimentos senti que meu emocional e meu psicológico haviam se exaurido, comecei a chorar e falei para todos que agora eles cuidariam da parte mais importante da minha vida, da minha alma gêmea. Pois é exatamente isso que acredito tendo em vista toda a conexão, amor e vivencias vividas até aquele instante. Após isso fui para o carro e comecei a me sentir muito mal, tive crise de pânico e fiquei enjoado, com vontade de vomitar e tendo espasmos gástricos vigorosos. Não sei como, mas ainda encontrei forças para dirigir ate em casa.
Ao chegar em casa pedi para minha amada esposa comprar calmante pra mim, a mesma foi numa farmácia e os trouxe. Tomei uma quantidade suficiente para me fazer dormir um pouco. Ao acordar como num susto, fiquei pensando como iria olhar nos olhos da minha mãe e relatar tal ocorrido para a mesma. Já na base de calmantes e da força que só Deus nos dar nesses momentos, fui a casa de minha mãe e falei tudo o que aconteceu. A mesma preenchida de muito amor e de uma resiliência encontrada apenas nos judeus de Auschwitz ela falou que ficaria tudo bem, que daria tudo certo, me chamou para próximo dela e mesmo em cateter de oxigênio me deu um beijo e um cheiro.
Bom, meu pai passou alguns dias nessa UTI e tiveram altos e baixos, muito esforço, suor e lagrimas, muito carinho e amor por parte dos meus amigos que ali trabalhavam e que estavam cuidando do meu pai, durante esses dias eu não consegui ser medico, me reservando apenas a ser filho. Dei algumas viagens na capital do meu estado para buscar insumos, medicações e etc, mas não atuei como medico durante esse tempo. Mas por mais doloroso que seja pensar e escrever nisto, preciso chegar ao dia que resumiria toda minha existência até então.
Voltando da capital do meu estado numa dessas viagens que fiz recebi uma ligação da minha querida amiga e coordenadora medica da UTI onde meu pai se encontrava avisando que o mesmo necessitaria realizar hemodiálise, procedimento que não havia neste hospital, e que o mesmo seria encaminhado para outra cidade afim de realizar hemodiálise em outra UTI que também há tinha como coordenadora. De pronto eu autorizei e acelerei ainda mais meu carro para poder ir acompanhando a ambulância do SAMU nesse transporte, nesse dia estava meu irmão ao meu lado, que naquela época tinha 17 anos.
Consegui chegar a tempo e encontrei com a equipe do SAMU, sendo a medica da equipe também minha amiga, a quem devo eterna gratidão e carinho. O transporte de meu pai contou ainda com a ajuda de outro amigo fisioterapeuta a quem devo semelhante carinho e gratidão, sendo o transporte realizado de maneira impecável, sendo rápido e seguro.
Enquanto meu pai era preparado na ambulância para ser levado para a UTI deste outro hospital, vi de relance que o mesmo não estava indo bem, então me adiantei e corri rumo a UTI onde solicitei que todos se preparassem e deixassem o “carrinho de parada” (onde fica disponível varias medicações utilizadas numa parada cardiopulmonar, bem como o desfibrilador cardíaco.) a pronto uso ao lado do leito onde meu pai ira ficar.
Logo que meu pai foi colocado no leito da UTI foi visto que o meu pai estava em parada cardíaca, nesse momento por bom senso, por uma serie de sentimentos que giravam em torno de medo, pânico uma tristeza nunca antes vivida, sentei uma cadeira que me trouxeram e vi meu pai sendo reanimado por cerca de trinta minutos, sem sucesso. Todos ao meu redor pediam que eu saísse dali um pouco, mas esse foi o momento que nasci e me preparei por toda a minha existência, eu tinha que estar ao lado do meu pai até o ultimo segundo de sua passagem por essa existência, eu tinha que cumprir minha palavra de estar ao lado dele.
Em certo ponto da parada eu ouvi em meu coração a voz do meu pai, e aqui peço desculpas aos amigos que não compartilham da minha fé e do meu credo, mas eu ouvi claramente a voz do meu pai, que falou um triste e lamentoso “tchau filho”. Quando abri os olhos e olhei para onde estava meu pai eu vi uma luz branca terminando de sair de seu corpo e se aproximando de outra luz branca que estava próximo a ele, logo ao lado do leito. Nesse momento perdi minhas forças, senti como se alguém tivesse apertando meu pescoço, ao qual tentei tirar-lhe as mãos com tanta força que rasguei desde a gola ate a parte mais baixa da minha camisa, seguindo de desmaio. Fui acolhido por tantas pessoas que nunca achei que seria merecedor, todos choraram e lamentaram a minha perda com todo o amor e respeito que eu podia esperar. Me administraram medicações calmantes, viram meus sinais vitais durante o desmaio e segundo me falaram, pois não lembro, me deram algo para beber.
Dormi e algum tempo depois ao qual não consigo precisar, minha esposa chegou junto a outros amigos que conservo desde a época de infância, me levaram para o meu carro onde deitei no banco de trás e fui levado para casa de minha mãe. Ao ser acordado em frente a casa de minha mãe, não sei como consegui andar e entrar dentro de casa, não precisei dizer nada a ela, pois meu semblante já entregara tudo, não tive como amparar minha mãe pois estava sob efeito de calmantes fortes.

No outro dia meu pai foi enterrado sem poder haver velório, num enterro com pouquíssimas pessoas devido aos protocolos da COVID-19, mas para aquelas poucas pessoas presentes, orei um PAI NOSSO e falei de uma passagem bíblica que falava que felizes eram aqueles que se inclinavam na direção em que Deus soprava, assim como os caniços no deserto.
Hoje escrevo esse texto cerca de dois anos após a ida de meu pai a sua morada eterna com lagrimas no olhar, pois apesar de estar seguindo em frente ainda não consegui me recuperar de tudo o que aconteceu. Graças a Deus minha mãe se recuperou completamente, sigo com minha família com uma esposa linda em todos os sentidos, uma filha incrível de 5 aninhos, vendo minha mãe, meu irmão e meu sobrinho seguindo em frente com esperança e resiliência no olhar.
Escrevi esse texto para compartilhar não somente a história de minha vida, mas para passar uma mensagem de amor e esperança a todos os leitores, pra dizer de maneira convicta que temos um proposito em nossas vidas, que somos importantes para outras pessoas, que há algo nesse mundo que transcende a existência do próprio universo. Então sintam-se abraçados e amados.
Quanto ao segredo do Sobrevivencialismo? Sim, eu descobri qual é, podemos resumi-lo em uma única frase: faça o que precisa ser feito você mesmo.
Gostaria de dedicar esse texto em memoria de meu irmão e de meu pai, falecidos respectivamente em janeiro de 2020 e abril de 2021. Gostaria de dedica-lo também aos meus familiares e amigos, a minha coordenadora, a todas as pessoas que se dedicaram em ajudar meu pai e em especial a todos do Sobrevivencialismo.
Meu nome é Lucas e eu fiz o que foi preciso…

Emocionante a sua história. Fico imaginando a realidade das pessoas que passam por situações semelhantes e não possuem nenhum recurso financeiro. É triste, mas sabemos que nesse aspecto econômico, para a maior parte dos brasileiros, o fruto do trabalho é insuficiente para garantir o básico para à sobrevivência dentro de uma sociedade; principalmente quando essas mesmas pessoas hiper valorizam coisas como futebol, em detrimento de saúde, educação…, lamentável !
Obrigado por compartilhar sua história Lucas. Parabéns pela coragem. Meus sentimentos pelo ocorrido, sinta-se abraçado. Sobrevivencialismo, é um marco importante na minha história e agora me oportuniza de ouvir a sua. Obrigado e abraços.
Adoro os vídeos de vcs, apesar de morar no 🇨🇦(Montréal) a26 anos
“faça o que precisa ser feito você mesmo”
Exato! Exato!
Isso me lembrou de uma frase de um narrador de e-sports, sobre…fracasso (ou “fracasso”, bem entre aspas mesmo):
“Em retrospecto, a maneira mais inteligente de ‘ter fracassado’, é quando todos os seus recursos foram exauridos, e não havia absolutamente mais nada conhecido a seu alcance, a ser feito.”
Pelo que entendi, você fez tudo o que era possível, e não havia absolutamente mais nada conhecido a seu alcance, a ser feito – e eu não ouso chamar isso de fracasso, ou “fracasso”: ao contrário, é uma lição de resiliência que poucos expõem.
Há várias situações em que o nosso melhor não é o suficiente.
Parabéns por ter lutado até o último recurso!
Meus sentimentos colega.
Também sou médico (numa área um pouco diferente do habitual – Médico Legista), também acompanho o sobrevivencialismo e me considero um pouco sobrevivencialista, também perdi um ente querido (minha avó) durante a pandemia e também a auxiliei de perto durante a doença no que foi preciso e no que estava ao meu alcance. Compartilho com você de alguns sentimentos. Que Deus abençoe você e à sua família.