Insetos: Os inimigos minúsculos

Certa vez durante meu período militar, ao assegurar o perímetro para estabelecermos o acampamento, um sargento me disse a seguinte frase, à qual nunca me esqueci e levo como uma grande verdade: “No campo, as ameaças de verdade são aquelas que não podemos ver”. Ele não se referia à eventuais cobras, onças ou outros animais de grande porte; referia-se aos minúsculos e perigosos insetos. E é sobre esse tema a nossa matéria de hoje.

Sempre, ao chegar em um ponto de descanso ou acampamento, a primeira medida a ser tomada na detecção de possíveis ameaças vindas de insetos é a pura observação (e não basta olhar para o chão, como a maioria das pessoas faz). A seguir, vou expor alguns procedimentos que podem auxiliar a prevenir e evitar prejuízos (materiais e até mesmo pessoais) tanto no dia a dia quanto em acampamentos.

Durante o processo de sondagem, atente-se para eventuais zumbidos fortes ou contínuos, bem como movimentações em ocos e galhos de árvores, pode se tratar de um enxame de abelhas ou um ninho de vespas.

Enxames podem conter até 100 mil abelhas (lembrando que 15 picadas de abelhas africanizadas – o tipo mais comum de abelha no Brasil – já são motivos para procurar auxílio médico imediato e, caso o indivíduo seja alérgico, apenas uma picada pode levar à incapacitação ou óbito por choque anafilático).

As vespas pertencem à mesma família das abelhas, porém conseguem ser ainda mais territorialistas, doloridas e agressivas do que elas quando ameaçadas. Algumas fazem ninhos no chão (como os marimbondos), outras fazem ninhos em ocos ou galhos de árvore. Geralmente, as vespas não atacam humanos (a não ser que algum humano tenha a brilhante ideia de montar sua barraca bem no território delas…). Por possuir um ferrão liso (diferentemente das abelhas, que perdem o ferrão quando picam) as vespas podem ferroar inúmeras vezes, o que certamente farão, caso fiquem irritadas.

Em ambos os casos, ao avistar um enxame ou ninho, e se o mesmo não foi “alertado”, afaste-se o mais rápido possível, em silencio, sem movimentos bruscos e sempre a favor do vento. Deste modo, os animais não sentirão o seu cheiro e não se sentirão ameaçados. Se você for atacado, proteja a cabeça/pescoço com um pano e corra em “ziguezague” por pelo menos 700m (geralmente esse é o perímetro máximo da perseguição). Em cenários urbanos, entre em contato imediato com o Corpo de Bombeiros (cerca de 30% das ocorrências dos bombeiros é acerca de ataques ou enxames de abelhas ou ninho de vespas). Jamais, JAMAIS tente afasta-las com qualquer artifício (fumaça, pedras, paus etc.). Isso só as agitarão, fazendo com que ataquem o que encontrar pela frente (incluindo você).

Um inseto que pode acabar com o seu dia são as formigas. Onipresente tanto no cenário urbano quanto no campo, formigas podem inutilizar estoques inteiros de comida, gerar curtos circuitos em aparelhos eletrônicos e até mesmo danificar roupas e equipamentos. Contudo, as ameaças vindas destes pequenos insetos não se resumem apenas à ordem “logística”. Por andar sobre muitos ambientes contaminados por bactérias, vírus e fungos (lixo, fezes, animais mortos etc.), ingerir alimentos ou tomar agua contaminados com formigas podem causar intoxicação alimentar, diarreias e inúmeras doenças. Além disso, algumas espécies como as formigas de fogo, podem causar dores lancinantes com as picadas de suas mandíbulas.

Em marchas e acampamentos, deixe sempre os seus equipamentos devidamente fechados. Sempre que possível, escolha equipamentos vedados (por exemplo, o uso refis de hidratação, cantis com tampa rosca ou sacos estanque para armazenamento de água). Manter sacos de alimento bem fechados é sempre uma excelente ideia, tanto para a prevenção de formigas quanto para evitar o próximo inseto da nossa lista: as detestáveis moscas.

As moscas, além de apresentarem os mesmos riscos de transmissão de doenças das formigas, possuem o agravante do voo (podendo, consequentemente, vir de lugares mais distantes). Não são capazes de se alimentar de nada sólido, então, decompõe seu o alimento com saliva para depois os ingerir (ou seja: além de contaminar alimentos com suas patas e corpo, ainda depositam saliva nos nossos mantimentos… nojento, não?). Além disso, algumas espécies (como a mosca-varejeira) coloca seus ovos em alimentos frescos (carnes, principalmente), eclodindo rapidamente para larvas; outras (como a mosca berneira), inocula seus ovos diretamente em seres vivos de sangue quente (sim, você é um ser vivo de sangue quente, portanto, não está fora da lista).

Para evitar estes seres indesejados, os alimentos e o lixo orgânico (cascas de frutas e legumes, restos de comida, aparas de carne, dejetos humanos ou de animais etc.) devem estar sempre bem fechados (se não houver instalação adequada no acampamento para recolher este lixo, o mais indicado é cavar um buraco de pelo menos 15cm de profundidade e enterra-lo).

Ao cair da noite (a menos que você esteja acampando no meio de um pântano) as moscas deixam de ser um problema. Porém, chegam os mosquitos (muriçocas, pernilongos… dependendo da região do Brasil o nome muda, mas os incômodos – e os riscos – são os mesmos).

Mosquitos são vetores capazes de transmitir inúmeras doenças (Leishmaniose, malária e dengue, por exemplo). Além disso, a picada de algumas espécies (como o mosquito borrachudo) causam inchaço, irritação e muita coceira no local. Portanto, tenha sempre em mãos repelentes eficazes (no canal sobrevivencialismo ensinamos a fazer um repelente simples e eficiente, com ingredientes que encontramos em casa. Você pode clicar aqui para conferir o vídeo), também é altamente recomendável que a sua barraca conte com proteção de tela/mosquiteiro em suas aberturas. Lá na Via de Fuga temos diversos modelos, com destaque para a cota 2, a Mini Pack e a Nepal, as quais fizemos Rewiews. Uma outra alternativa para espantar os mosquitos pode ser a intensa produção de fumaça no local. Porém, este método (além de extremamente malcheiroso) pode irritar olhos e mucosas, além da possibilidade de intoxicação por monóxido de carbono ser bem alta. Portanto, muito cuidado!

Por último, mas não menos importantes (e perigosos), falaremos de algumas outras ameaças que não são insetos, mas também povoam tanto ambientes urbanos quanto o campo, e podem representar grandes riscos para a saúde:

    • Carrapatos: pequenos aracnídeos que mordem e se alimentam de sangue. Os carrapatos vivem na pele e penas de muitos pássaros e animais, ficando também grudados em arbustos e na grama. A maioria dos carrapatos não é portadora de doenças, mas é importante elimina-los imediatamente após encontra-los. Evite acampar ou parar para descansar em áreas de vegetação muito alta (onde eles se proliferam mais intensamente) e, caso picado, retire-o com uma pinça, fazendo leve movimento de torção. Verifique se não algum pedaço sua pele. Desinfete bem o local e observe. Se a inflamação localizada não aumentar, está tudo bem. Se a área ficar mais vermelha no dia seguinte, ou dolorida, procure avaliação médica.
    • Aranhas: a regra básica para aranhas é: quanto menores, mais perigosas. Atenção especial para a aranha marrom (1 a 4 cm, mais comuns na região Sul), a viúva negra (2 a 3 cm, mais comuns na região Nordeste) e a armadeira (chegam a 15 cm de envergadura e podem saltar até 40 cm de distância, mais comuns nas regiões Sudeste e Sul). Casos mais graves de picadas de aranha podem apresentar mal-estar, dor de cabeça, febre, náuseas, vômitos, necrose e até alterações da pressão sanguínea. Sempre, antes de deitar-se ou usar alguma peça de roupa, balance-as efusivamente, de modo a espantar eventuais aranhas. Antes de abrir a barraca, pela manhã, dê algumas batida nas paredes da mesma, assim, qualquer inseto ou aracnídeo que possa estar andando por ela vai ser arremessado;
    • Escorpiões: Dentre os aracnídeos, os escorpiões são os que mais frequentemente causam acidentes, sendo mais comuns no Brasil o escorpião preto e o amarelo. De hábitos predominantemente noturnos, abrigam-se principalmente em locais quentes, úmidos e escuros, como embaixo de pedras, dentro de bromélias e ocos de árvore (no ambiente de campo), ou em montes de entulho, dentro de tijolos ou forros de casa (no ambiente urbano). Sempre verifique o interior sacos de dormir, cobertores e colchões quando for dormir e, ao levantar-se, cheque o interior de botas e calçados, virando-os e sacudindo-os. Frequentemente, a picada de escorpião é seguida de dor (moderada ou intensa) ou formigamento do local do acidente. Em caso de picada, deve se buscar atendimento hospitalar o mais rápido possível, mantendo o paciente em repouso, para avaliação da necessidade de soroterapia antiescorpiônica, levando o animal para identificação, se possível.

O combate, prevenção e cuidados com insetos e animais peçonhentos devem ser observados e praticados não só em situações de acampamento, mas no nosso dia a dia. Pequenos detalhes como os observados acima podem salvar a nossa vida e a dos que nos cercam.

Espero sinceramente ter acrescentado algo, com estes alertas e dicas, à sua experiência como sobrevivencialista, bushcrafter, preparador etc. Muito obrigado por tudo, feliz 2017 a todos e: estejam preparados!

Fontes:

E-books:

Sites:

Texto escrito pelo leitor Tiago “Herrco” Fraga.

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8 comentários

  • grande julio vale lembrar que quem mora no sul ou sudeste, no tempo mais frio , é bom ficar espertos em guarda roupas pois as aranhas marrons são apaixonadas por esse local, pois é mais quente pra ela , tem comida (traças e outros pequenos insetos), e é quase certeza de companhia pra se reproduzirem. Alias pessoal nada de matar as lagartixas elas são o unico predador das aranhas marrons e armadeiras.

  • JOAO PAULO S. GOUVEA

    Pessoal!
    Uma dica de repelente MUITO eficaz para carrapatos, principalmente.
    (Funciona com mosquitos, porém, menos).
    VITAMINA B!
    Você compra em qualquer farmácia, não necessita receita médica e não tem contra-indicação.
    É hidrossolúvel, isso quer dizer que não acumula no seu organismo.
    Tome 2 comprimidos/dia, 7 dias antes da expedição.
    Funciona por alteração do odor do corpo.
    Mas, normalmente, a mudança é imperceptível para nós humanos.
    Abraços.

  • É bom sempre levar um sabonete de enxofre para retirar os carrapatos do corpo no caso de grande infestação.

  • Paulo Américo Andrade

    Julio, excelente texto! Só um reparo, que vc certamente sabe, pois mora em região que tem muita capivara: os carrapatos são perigosíssimos, podendo transmitir a febre maculosa, no caso desse roedor, e ainda doenças de bovinos, equinos, caprinos, dependendo do animal hospedeiro de onde vieram. Quando a gente usa trilhas de pasto, feitas por vacas, tem que colocar as calças pra dentro dos coturnos (ou fechar as pernas com elástico e ficar muito atentos, pois as ninhadas se soltam do animal infestado e ficam esperando outro pra “passear”… Se passar um algodão embebido em querosene, nas pernas e na virilha (onde normalmente grudam) eles caem. O querosene também é bom pra gotejar na porta da barraca, antes de dormir, criando uma barreira. Pode-se levar – se não estiver a pé, que todo peso conta – um aspersorzinho com querosene, pras duas finalidades.

    Quanto às reações alérgicas a picadas, é bom acrescentar um antialérgico no estojo SOS…

    Abraço forte,

    Paulo Américo

  • Obrigado! Completinho esse texto.

  • MUITO BOM

  • Oi,

    Nunca pensei sobre as formigas poderem inutilizar equipamentos eletrônicos, o texto contém muita informação importante e interessante.

    Parabéns!!!

    Vlw

    • Toninho-san

      Ola Miguel,

      Sim, algumas espécies de formigas são atraidas por circuitos eletrônicos. Parece estranho mas ja fui vitima dessas geeks miniaturas, elas queimaram completamente a placa mãe de um computador meu. Depois disso, passei a dexar sempre um pouco de cravo da India perto das minhas maquinas.

      Inté +

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