SHTF School: Doces e tratos em uma situação de sobrevivência

 

survival food

Nós todos pensamos como uma crise iria nos mudar, mas é quase impossível de saber como nós vamos reagir a todas as coisas novas que surgirão nesse tipo de cenário.

As pessoas acham que será algo rápido e imediato, como se de repente hoje uma crise ocorreria e nos tornaríamos pessoas diferentes. Seria legal, mas não é assim para a maioria das pessoas.

Algumas mudanças vão acontecer com o tempo e até poderemos não percebê-las. Uma das mudanças óbvias (e provavelmente a mais interessante para os preparadores de comunidades online) é a diferente relação com questões de violência. Por exemplo o fato de que com o tempo você aprende a reagir contra a violência… Fazendo violência.

Outros podem viver na sujeira ou ficarem mais sujos do que já estão e aceitarem isso. Com cada aceitação, você vai perdendo sua vida antiga, se tornando diferente.

Algumas pequenas coisas também podem provocar um comportamento animal em você. Hoje eu quero falar sobre a minha experiência durante meu tempo de guerra. O tema combina com este tempo do ano com o Natal e os feriados chegando. Falarei sobre tratos e prazeres.

Escrevo isso lhe dar a ideia de o quão “baixo” você vai, ou fazer você perceber o quão alto estão nossos padrões agora. Me mostrou que há uma pequena e fina camada que nos faz pessoas “normais”.

Uma vez, alguns meses depois da crise começar, durante um dos passeios constantes que eu fazia para tentar achar algo útil eu tropecei em algo especial.

Era cerca de meia noite e nós escolhemos uma casa parcialmente destruída como um abrigo temporário contra os bombardeios e a chuva. Eu estava com um amigo. Nós escolhemos um quarto dentro da casa que ainda tinha parte do teto sobre nossas cabeças para nos abrigar melhor.

Nós estávamos fumando um cigarro e revezando ele entre nós quando eu percebi que estava sentado em cima de uma caixa que estava parcialmente enterrada nos destroços. Eu comecei a cavar e tirar o lixo dela.

Depois de alguns minutos nós descobrimos que era uma grande caixa militar de madeira, usada para armazenar itens durante longos tempos. Quando a crise começou e tudo foi por água abaixo eu lembro de ver pessoas arrastando estas caixas para fora de depósitos do exército.

Era bem pesada, obviamente cheia de alguma coisa.

Claro que imediatamente começamos a imaginar o que haveria dentro. Munições, armas, botas, talvez uniformes… Meu amigo já sussurou “Cara, imagine botas novas!”

Quando nós abrimos no primeiro momento estava escuro e eu achei que estivesse cheia de pequenos brinquedos ou algo do tipo. Vi uma pilha de pacotes plásticos, então peguei um destes itens pequenos e congelei como se alguém tivesse apontado um rifle na minha cara de dentro da caixa.

A caixa estava cheia de barras de cacau, daquelas bem baratinhas que são servidas durante o café da manhã em hotéis ou neste caso provavelmente eram usadas para refeições militares ou semelhante. Algo que você poderia achar numa versão da MRE.

Era coisa barata e não muito saborosa, em tempos normais eu não comeria ela. Era como tentar mastigar areia doce.

Naquele momento eu pouco me lembrava de quando foi a última vez que comi algo doce como chocolate, doces, bolos ou algo semelhante. Se você já foi em uma trilha mais longa e comeu a mesma coisa durante duas semanas para depois voltar para a civilização e comer algo, você já experienciou algo semelhante. Agora imagine meses. Meu amigo disse “Cara! Ferrem-se as botas, isso aqui é um pote de ouro”.

Eu não lembro o quanto daquilo eu comi naquele quarto, com a visão de um teto quebrado em uma noite chuvosa, mas lembro de ver meu amigo comendo aquilo de uma forma que colocava tudo em sua boca e mastigava o plástico, comia a barra e depois cuspia o plástico.

Provavelmente eu comi da mesma forma. Ajudou o fato de estar escuro e nós não vermos o quão sujos estavam os pacotes e claro, ninguém iria sequer pensar em ver o prazo de validade.

Eu comeria mesmo se estivesse impresso “vencido” nele, ou até mesmo escrito “Tóxico de Chernobyl”. Não importava.

Era muito doce e gostoso naquele momento. Não era apenas comida, calorias ou energia. Era algo como uma droga. Um lembrete de dias normais. Comendo e mastigando nós estávamos vivendo a vida normal durante um tempo eu acho.

Eu mastiguei e sabia naquele momento que eu provavelmente teria sérios problemas com meu estômago que “esqueceu de como digerir” coisas como essas, mas eu não ligava.

As pessoas dizem que em alguns momentos você pode virar um animal, que você pode ser dirigido pelos instintos mais simples e baixos possíveis. E ao mesmo tempo eles imaginam que isso só acontece em algumas situações como combate, medo intenso ou semelhante. Isso não é verdade.

Eu experienciei antes e depois muitos eventos, sentimentos, lutas, sangue, medo… você escolhe. Mas aquele evento com as barras de cacau foi algo estranho.

Mais tarde quando estava rastejando fora da minha casa, tendo diarréia e vomitando ao mesmo tempo eu me senti péssimo, mas não me arrependi por ter comido todas aquelas barras. Eu mantive algumas para que eu pudesse comer de tempos em tempos como se fosse um ritual.

Quando tudo havia terminado e a guerra tinha passado eu esqueci disso tudo. Anos depois eu encontrei uma barra muito semelhante aquela. Comprei e provei… Não era gostosa e eu acabei jogando fora.

O ponto é que você nunca sabe o quanto apreciará as coisas até que uma crise se abate. Então para suas preparações, estoque itens de “tratos e prazeres” como cafés, itens derivados de cacau e outros… Eles serão valiosos.

Para sua temporada de feriados pegue algum doce bem gostoso e leve ele contigo até um lugar bem queto, sem distrações e aprecie-o. É fácil esquecer o que temos agora, então eu encorajo a todos a serem extra gratos nos próximos dias.

Adaptado e traduzido do SHTF School.